Artigo de Julio Cesar Minelli, Diretor da APROBIO
O Brasil possui duas grandes rotas logísticas que conectam a produção de matérias-primas — especialmente a soja — e o escoamento do biodiesel para diferentes regiões e portos do país. São artérias essenciais para a economia nacional e que têm origem justamente nas duas regiões que dividem a liderança da produção de biodiesel no Brasil: o Sul e o Centro-Oeste.
O Rio Grande do Sul inaugurou esse movimento, consolidando-se como polo produtor do biocombustível. Em seguida, o Centro-Oeste assumiu protagonismo impulsionado por sua imensa capacidade agrícola, sobretudo na produção de soja. Hoje, ambos os territórios possuem grupos empresariais que já utilizam biodiesel 100% (B100) em suas operações logísticas, comprovando — na prática e em escala real — que o país tem capacidade de avançar rapidamente nos compromissos de descarbonização do transporte pesado.
Diante desses resultados, surge uma pergunta natural: por que não transformar essas rotas já existentes em um grande corredor verde brasileiro, referência nacional e internacional em eficiência logística e sustentabilidade?
Imaginemos quatro setores — agricultura, indústria de biodiesel, logística e distribuição de combustíveis — atuando de forma integrada em um modelo que movimenta tanto grãos quanto biocombustível utilizando exclusivamente biodiesel como energia limpa e renovável para mover suas frotas. A força produtiva do agronegócio — com papel fundamental da agricultura familiar — se uniria à infraestrutura logística que abastece o país, garantindo segurança, disponibilidade e capilaridade.
Ao longo dessas rotas, postos estrategicamente equipados com tanques exclusivos de B100 permitiriam autonomia, alcance ampliado e previsibilidade operacional. Isso consolidaria o modelo brasileiro de transição energética: real, acessível, de rápida implementação e baseado em uma tecnologia que já está disponível, sem necessidade de substituição de motores ou reconfiguração de frota.
Mas esse corredor verde não deve se limitar apenas às rotas tradicionais de exportação de grãos para os portos de Paranaguá e Santos, por exemplo. É fundamental incorporar também o fluxo logístico de combustíveis até bases de distribuição como Paulínia, em São Paulo, um dos mais importantes hubs de armazenamento e distribuição de combustíveis do país. O transporte de biodiesel, com caminhões abastecidos com B100, do Sul e do Centro-Oeste até Paulínia fortaleceria a segurança de abastecimento, garantiria maior competitividade na distribuição e permitiria que o biocombustível sustentasse uma parcela ainda maior da matriz energética nacional, sem contar que além do ganho ambiental as distribuidoras que vierem a abastecer essas bombas B100, estarão aumentando a demanda de biocombustível, o que gerará mais CBIOs e mesmo terão suas metas para atender ao RenovaBio diminuídas pois estarão comercializando menos combustível fóssil, um ganha-ganha para todos.
Outro ponto essencial é que o uso do biodiesel 100% no transporte de grãos destinados à exportação reduz significativamente a pegada de carbono desse processo. Em um cenário global cada vez mais atento às emissões de suas cadeias produtivas, oferecer soja — e demais produtos agrícolas — com menor pegada de carbono no transporte representa um diferencial competitivo extremamente valioso para o Brasil. Trata-se de uma vantagem que fortalece a imagem do país, amplia mercados, melhora margens e posiciona nossa produção como uma das mais sustentáveis do mundo.
Estamos, portanto, diante de uma oportunidade clara: uma corrente verde capaz de movimentar a economia, gerar ganhos ambientais imediatos, ampliar nossa competitividade no comércio internacional e demonstrar ao mundo que o Brasil pode liderar a transição energética do transporte pesado com soluções já existentes e de alto impacto.
Por que não avançar nessa direção, especialmente agora, inspirados pelo espírito da COP30 e pela ambição global de ampliar o uso de biocombustíveis? A economia agradece. A saúde pública agradece. A sociedade agradece.
O corredor verde 100% biodiesel não é um sonho distante — é uma realidade ao alcance das nossas mãos.