Por Jerônimo Goergen, presidente da APROBIO
A Petrobras sinalizou que quer ampliar o refino no Brasil, com a meta discutida de atender 100% da demanda nacional até 2031 e cerca de 500 mil barris/dia adicionais de diesel. É uma agenda legítima e necessária. Mas ampliar capacidade sem definir a estratégia energética do país seria repetir erros conhecidos.
O Brasil é autossuficiente em petróleo e está diante de duas oportunidades: agregar valor à produção e exportar combustíveis, não apenas óleo cru. Novas fronteiras, como a Bacia de Pelotas e a Margem Equatorial, reforçam esse potencial e exigem que o planejamento olhe para as próximas décadas, e não apenas para a conjuntura.
Ao mesmo tempo, o país já conta com uma matriz de biocombustíveis robusta. Com a mistura atual de 15% (B15), o consumo de biodiesel deve chegar a cerca de 10,5 bilhões de litros até o fim de 2026, para uma capacidade instalada aprovada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) de 15 bilhões de litros por ano, ainda em expansão.
Estão em andamento os testes para misturas de até 25%, e cada ponto percentual adicional representa cerca de 700 milhões de litros de biodiesel. É uma resposta direta à dependência externa: a demanda por diesel A em 2026 deve exigir 17,8 milhões de m³ de importações, o maior volume da série histórica.
Há ainda o efeito sobre a cadeia produtiva, com R$ 5,9 bilhões em investimentos e forte demanda por óleo de soja, fortalecendo o agro e a agroindústria.
O ponto central é a coerência. Refino fóssil, etanol, biodiesel, biometano e combustíveis renováveis de aviação não podem ser tratados como concorrentes. Precisam compor uma mesma política, com a Petrobras como parte ativa da transição energética, e não apenas do petróleo. Não podemos ser concorrentes de nós mesmos.
Em um cenário internacional de crise, a resposta não pode ser improvisada. O passado recente da companhia mostra o custo de decisões sem planejamento. O momento exige uma estratégia nacional de longo prazo, previsível para investidores e que aproveite todo o potencial energético brasileiro.
Publicado originalmente no eixos, em 28 de setembro de 2026.