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24 set 2026

O Brasil precisa parar de reagir e começar a planejar

O Brasil precisa parar de reagir e começar a planejar

Por Jerônimo Goergen, presidente da APROBIO

O Brasil tem uma capacidade extraordinária de produzir. Temos terra, tecnologia, produtores preparados, uma indústria instalada e condições para transformar nossa produção agrícola em alimento, energia, renda e desenvolvimento. Mesmo assim, continuamos perdendo oportunidades por um problema que não é novo: a falta de planejamento.

Durante muito tempo, nos acostumamos a enxergar o Brasil essencialmente como um produtor de commodities. Plantava-se sem necessariamente existir um planejamento sobre o resultado daquela produção, sua industrialização ou a criação de novos mercados.

Estamos começando a sair desse cenário, mas precisamos acelerar.

A canola é um bom exemplo do tamanho da oportunidade que temos diante de nós. É uma cultura que nos permite produzir alimento e energia. O mesmo acontece com a soja e com o trigo.

Esse ponto é importante porque ainda existe uma tendência de analisar o crescimento de uma cultura como se necessariamente significasse retirar espaço de outra. Não é assim que precisamos pensar.

A canola não precisa ocupar o espaço do trigo, por exemplo. Ela pode complementar essa produção. Com planejamento conjunto das culturas de inverno, podemos criar alternativas capazes de compensar perdas nesse período e até mesmo perdas nas culturas de verão. Mas produzir mais, sozinho, não resolve.

Se queremos renda efetiva no campo, precisamos saber quem vai comprar, quem vai processar e para onde essa produção vai. É por isso que previsibilidade é uma palavra tão importante para o agronegócio brasileiro.

Precisamos consolidar a produção da matéria-prima ao mesmo tempo em que construímos sua conexão com cerealistas, indústrias e produtores de biocombustíveis. Uma cadeia não pode começar a ser organizada somente depois que a produção já está no campo.

E é justamente nesse ponto que o biodiesel assume uma importância ainda maior.

Cada ponto percentual adicional de biodiesel na mistura obrigatória ao diesel representa demanda por cerca de 3,2 milhões de toneladas de soja, aproximadamente 53 milhões de sacas. Isso significa mercado para o produtor. E significa também a possibilidade de ampliar o espaço de outras matérias-primas.

Hoje temos capacidade ociosa na indústria brasileira de biodiesel. Existe capacidade para colocar mais 7% ou 8% de biodiesel na mistura com o diesel fóssil – hoje a mistura obrigatória está em 15%. Essa estrutura poderia, por exemplo, estar esmagando mais canola ou soja.

Temos produção agrícola, indústria, matérias-primas e tecnologia. Precisamos transformar essas vantagens em planejamento.

A Lei do Combustível do Futuro é parte importante dessa construção. Tenho a satisfação de estar na origem da sua criação quando atuei no Congresso. Mas uma lei precisa ser cumprida para produzir os resultados para os quais foi concebida.

Se não tivermos o cumprimento da lei, como os projetos que estão sendo desenvolvidos conseguirão se consolidar? O Brasil frequentemente perde oportunidades porque não se planeja, mas reage. E uma economia que atua assim dificilmente consegue aproveitar integralmente suas vantagens competitivas.

Também precisamos tratar com responsabilidade o debate sobre a qualidade do biodiesel. Temos desafios ao longo da cadeia, envolvendo questões como estocagem, transporte e manuseio. É nesses pontos que precisamos trabalhar.

Da mesma forma, o avanço da mistura precisa acontecer com segurança e conhecimento técnico. O Brasil está realizando o maior programa de testes de biodiesel do mundo para que, até fevereiro de 2027, tenhamos uma mistura de 25% de biodiesel (B25) totalmente checado. Isso mostra que é possível avançar com responsabilidade.

A partir do próximo ano, o combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês) passa a ser mandatório. Precisamos nos preparar para essa nova demanda e nosso agronegócio tem condições muito importantes para ocupar um espaço de protagonismo.

Quando conectamos canola, biodiesel, SAF, capacidade industrial e produção agrícola, começamos a enxergar algo maior do que culturas ou combustíveis isoladamente. Estamos falando sobre uma cadeia de desenvolvimento.

Precisamos planejar a produção, conectar os participantes da cadeia, garantir mercado e transformar nossa capacidade agrícola em mais renda, industrialização e energia renovável.

O Brasil já possui grande parte das condições necessárias para fazer isso. O que não podemos mais é continuar perdendo oportunidades porque preferimos reagir quando já poderíamos estar planejando.

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