Cientistas renomados se reúnem na USP para discutir poluição do ar

Pesquisadores participarão da Escola de Ciência Avançada, que abordará impactos dos aerossóis na atmosfera

A poluição do ar é um dos maiores problemas do mundo, tanto de saúde quanto do ponto de vista ambientalista. Inclusive, por isso, é uma das áreas de pesquisa com mais relevância atualmente. Há uma necessidade de se desenvolver estudos e possíveis soluções. Embalado pela urgência do tema, a USP reunirá, entre os dias 22 de julho e 2 de agosto, cerca de 150 cientistas em início de carreira, estudantes de pós-graduação, para entrar em contato com pesquisadores renomados na área do mundo inteiro.

A Escola de Ciência Avançada é uma iniciativa nova na Universidade e está sendo financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “A Fapesp tem um programa financiador há dez anos para escolas avançadas de diferentes áreas do conhecimento. Sempre através de eventos únicos que causem um grande impacto na comunidade científica local e internacional”, explica o professor Henrique Barbosa, do Instituto de Física (IF) da USP, um dos organizadores do evento.

Ele comenta que o objetivo é trazer pesquisadores de altíssimo nível, junto aos melhores alunos e cientistas em início de carreira que puderam reunir; assim pretendem dar oportunidades para essas pessoas e incentivar a produção científica sobre o tema. Nessa ocasião, a ideia inicial era receber 100 alunos, porém a demanda foi tão alta que acabaram com quase 150 inscritos de 34 países diferentes dos cinco continentes. Entre os pesquisadores, Barbosa diz que receberão 12 pesquisadores de peso na área da poluição do ar, sendo sete deles estrangeiros.

Serão tratadas cinco vertentes dos estudos sobre poluição do ar e mudanças climáticas. Uma delas estudará as propriedades e medidas das partículas de aerossol em suspensão na atmosfera. Também estudarão os aerossóis, que têm origem por ação do homem, e seus efeitos na saúde. Além disso, as modificações e implicações climáticas que a interação entre aerossóis e nuvens podem ter serão tema de painel. Assim como a possibilidade de se medir essas partículas a partir de sensores a bordo de satélites. Concluindo o evento, serão tratadas as mudanças climáticas causadas por aerossóis do ponto de vista da modelagem.

O professor destaca ainda uma mesa-redonda que discutirá três aspectos dos efeitos da poluição do ar na saúde humana. Nesse momento, a convidada Simone Georges, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apresentará um documento, lançado mês passado, chamado Poluição do Ar e Saúde, assinado por cinco academias nacionais de ciência de diferentes países. Ele conta com recomendações sobre o que deve ser feito para se remediar e quais os possíveis impactos na saúde da poluição do ar.

“A USP é realmente um dos líderes mundiais na área de pesquisa de poluição do ar e efeitos na saúde. Esperamos que isso seja uma grande oportunidade de não apenas estabelecer uma rede de colaboração dos alunos entre si, mas também com os grandes pesquisadores de ponta”, conclui.

Fonte: Jornal USP

Aquecimento global pode ser catastrófico para o Brasil, alertam cientistas

O Brasil deve esforçar-se para cumprir as metas acordadas no âmbito do Acordo de Paris, e manter seu protagonismo nos esforços multilaterais visando mitigar os efeitos danosos do aquecimento global. Este foi o consenso na reunião conjunta das Comissões de Relações Exteriores (CRE) e de Meio Ambiente (CMA) nesta quinta-feira (30), com renomados cientistas brasileiros que pesquisam as mudanças climáticas.

Impacto total

Para o biofísico Carlos Nobre, que atua junto à Universidade de São Paulo (USP) e também é membro da Academia de Ciências dos EUA (em inglês: NAS), praticamente todas as regiões brasileiras serão inviabilizadas sócio-economicamente, caso a temperatura média mundial aumente 5ºC até o final do século, que é o que pode ocorrer se nada for feito para reduzir as emissões de CO2.

Ele alertou que os efeitos do aquecimento global já são evidentes no Brasil, uma vez que durante a década de 1960, a média de dias por ano com temperatura superior a 34ºC nunca passava de 30 dias, mas desde o início do século 21, este índice nunca mais foi inferior a 60 dias por ano. A temperatura média de 34ºC é relevante para o Brasil porque um índice superior a este inviabiliza a prática de diversas culturas agrícolas.

O biofísico chamou a atenção ainda para a possibilidade do Brasil passar a sofrer mais com eventos extremos relacionados a períodos de seca ou de chuvas, respectivamente nas regiões Nordeste e Sudeste. Condições extremas destes fenômenos já vêm se manifestando com uma freqüência muito maior nos últimos anos, e estes extremos podem tornar-se o “novo normal” nestas regiões.

— A situação do Nordeste é muito preocupante. A seca entre 2012 e 2018 foi a mais longa da história, e estas medições são feitas desde o período do Império. A região já vive um período de aridização, por exemplo, no norte da Bahia — avisou Nobre.

A Amazônia também já passa por situações anômalas e sem precedentes desde 2009, alternando seguidamente períodos de secas e inundações.

Vida inviável

Nobre defendeu o cerne do Acordo de Paris, para que a temperatura média global não aumente mais do que 2ºC até 2100. Ele lembrou que o trabalho da ONU leva em conta um índice mundialmente consensual na medicina, que calcula o limite fisiológico do ser humano a uma temperatura de 34ºC, levando em conta a umidade relativa do ar em 100%. Cidades como Manaus, Cuiabá e Rio Branco já atingem a temperatura de 32°C hoje neste cálculo.

— São regiões de nosso país que estão a meros 3°C de atingirem o limite fisiológico humano. No pior dos cenários, em caso de descontrole climático, em toda a Amazônia, no Nordeste e mesmo em outras regiões do país, durante mais de 200 dias por ano as pessoas terão que estar em ambientes internos com ar-condicionado durante algumas horas, todos os dias, impossibilitadas de saírem para ambientes externos. Se o Acordo de Paris fracassar, este é o quadro para o qual o país deve se preparar. Projeções indicam que pelo menos 500 milhões de pessoas morrerão em todo o mundo caso o clima saia do controle — alertou.

Nobre ainda apresentou estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do Fórum Econômico Mundial alertando para riscos graves ao agronegócio brasileiro, relacionados às alterações climáticas. Chamou atenção para o fato de que não há engenharia genética capaz de fazer uma planta realizar fotossíntese acima de 43°C. Esses estudos alertam que um eventual fracasso do Acordo de Paris pode inviabilizar muitas das culturas agrícolas em nosso território já nas próximas décadas.

Além disso, o descontrole das emissões pode levar todo o Nordeste à condição de seca extrema, com avanço significativo da Caatinga sem condições de manter a vegetação, tornando a região tecnicamente um semi-deserto. Por fim, o Brasil corre risco concreto de, na prática, perder a região amazônica, a partir da combinação dos efeitos das mudanças climáticas com o desmatamento e o aumento dos incêndios florestais, finalizou o cientista.

Outras participações

O físico Paulo Artaxo, que atua junto ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) e no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), corroborou as pesquisas apresentadas por Nobre. Ele ainda divulgou outros levantamentos, de organismos como a FAO (Organização da ONU para a Agricultura e a Alimentação) e também do IPCC e do Inpe, com projeções semelhantes em relação à agropecuária brasileira em caso de descontrole climático. Ele entende que o país não tem como escapar, por exemplo, de já tomar diretrizes mais incisivas visando diminuir a emissão do gás metano.

A geobotânica Mercedes Bustamante alertou para o fato do Brasil ainda hoje “apenas arranhar” seu gigantesco potencial na bio-economia. Por isso, ela considera “francamente equivocado” um enfoque, ainda forte em setores sociais brasileiros, de que a preservação ambiental é um empecilho ao desenvolvimento. O aquecimento global é que pode pôr em risco a biodiversidade do nosso território, no entender da cientista.

Fonte: Agência Senado

Algas podem transformar gases de efeito estufa em biomoléculas de interesse tecnológico

Além de buscar microalgas com esta capacidade, cientistas usam bactérias para otimizar produção de plástico biodegradável a partir do metanol

Uma equipe multidisciplinar do Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI) está estudando microalgas com potencial para a produção de bioprodutos a partir de gás carbônico e metano provenientes do gás natural. Os cientistas coletaram amostras na região da Baixada Santista (Cubatão e Guarujá) e isolaram 24 microalgas diferentes. Destas, quatro produziram tanto lipídios como biopolímeros. Sob a orientação da professora Elen Aquino Perpétuo, bióloga e coordenadora dos projetos 17 e 18 da instituição, o grupo também está selecionando bactérias para a produção específica de PHB (um biopolímero de alto valor agregado) a partir de metanol.

“A pesquisa com as bactérias está um passo à frente, porque já sabemos quais são as mais promissoras na produção de PHB. No caso das microalgas, ainda estamos identificando aquelas com maior potencial produtivo para dar o próximo passo, que é a otimização dessa produção”, resume Bruno Karolski, biólogo e aluno do Pós-doutorado em Engenharia Química na Escola Politécnica (Poli) da USP.

Segundo ele, a ideia inicial era usar o gás natural diretamente na cultura de microalgas para que o gás carbônico presente no gás natural fosse captado por elas, mas o grupo agora estuda se vale mais a pena separar o gás natural em CO2 e CH4 e ministrar às microalgas apenas o CO2.

Da esquerda para a direita: prof. Elen Aquino Perpetuo, pós-doutorando Bruno Karolski; prof. Cláudio Augusto Oller do Nascimento; doutoranda Letícia Oliveira Bispo Cardoso; pós-doutoranda Louise Hase Gracioso

“Das 24 microalgas que isolamos, quatro apresentaram rápido crescimento, alta concentração celular, produção de lipídios e também indícios de produção de PHB. Dessas quatro, identificamos três: duas cepas de Chlamydomonas sp., com características produtivas diferentes, mais a Didymogenes sp.Nossos dados preliminares indicam que para duas delas é possível obter esses bioprodutos concomitantemente, mas ainda não sabemos quais são as condições em que elas produzem mais lipídios ou mais PHB. O que sabemos é que, ao colocar as quatro microalgas selecionadas nas mesmas condições, duas se destacam porque uma produz mais PHB e a outra mais lipídios”, afirma Karolski. Ele lembra também que os lipídios produzidos pelas microalgas, ácidos graxos de cadeia longa e com alto potencial energético, são úteis, por exemplo, para a fabricação de biodiesel.

Segundo Letícia Oliveira Bispo Cardoso, química e doutoranda no Programa de Pós-graduação Interunidades em Biotecnologia da USP, há relatos de produção eficaz de PHB por microalgas, porém apenas quando modificadas geneticamente. “Em nosso caso, estamos explorando a diversidade de microalgas de um ambiente da Baixada Santista, visando encontrar as capazes de produzir PHB e também grandes concentrações de lipídios”, esclarece ela.

Bactérias e plástico

Os cientistas conseguiram extrair PHB produzido a partir de metanol de cinco das 180 cepas de bactérias com que trabalharam: Methylobacterium extorquensMethylobacterium rhodesianum,Methylopila oligotropha, Methylobacterium radiotolerans Methylobacterium populi.

“A Methylobacterium extorquens foi a que deu melhores resultados até agora: utilizando-se metanol como substrato, as bactérias chegaram a produzir 40% de PHB em 72 horas. A porcentagem de PHB é equivalente à relatada na literatura e agora estamos explorando maiores concentrações de oxigênio, testando agitação e diferentes concentrações de metanol para ver se conseguimos otimizar essa produção”, diz Letícia.

Bactérias Chlamydomonas sp (à esquerda) e Methylobacterium extorquens (à direita) – Foto: Wikimedia Commons

Os pesquisadores também relatam resultados bastante positivos com a Methylopila oligotropha. “Há poucos relatos na literatura de produção de PHB com essa bactéria e, no entanto, conseguimos uma produção de 25% de PHB. Isso é bastante promissor”, ressalta Karolski.

Letícia salienta que não se produz muito PHB no mundo a partir de metanol, pois a fonte de carbono mais comum do PHB é o açúcar. De acordo com ela, a oportunidade que a pesquisa possibilita, neste caso, é baratear a fonte de carbono para produção de PHB. “O açúcar é uma matéria-prima cara para se fazer plástico e acaba afetando o valor final do biopolímero. Esse é um dos fatores economicamente relevantes que pode ajudar a ampliar a participação do PHB no mercado de plásticos, entre outros”, revela a pesquisadora.

Karolski lembra que o RCGI tem projetos que visam à produção de metanol a partir de metano e dióxido de carbono. “Ou seja: estamos tentando usar gases de efeito estufa (GEEs) para formar metanol e, a partir dele, produzir um plástico biodegradável. Assim, estaremos mitigando GEEs e, ao mesmo tempo, obtendo bioprodutos de alto valor agregado.”

O grupo conta ainda com a bióloga e aluna de pós-doutorado em Engenharia Química na Poli, Louise Hase Gracioso, e com Bruna Bacaro Borrego, que está se graduando em Engenharia Ambiental na Unifesp. O professor Cláudio Augusto Oller do Nascimento também integra as equipes dos 17 e 18 do RCGI.

Fonte: Jornal da USP

Pesquisas em mudanças climáticas têm foco na interdisciplinaridade

O papel da cidade na modificação do clima

Os recordes de temperatura quebrados a cada ano são uma preocupação também para a arquitetura e o urbanismo. Um estudo feito na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), analisou o papel da cidade na modificação do clima.

“Observamos que determinados elementos urbanos, o desenho urbano e até edifícios mudam completamente o balanço energético das cidades. Por isso, planos urbanos estratégicos devem absorver soluções a médio e longo prazo”, disse Denise Helena Silva Duarte, professora da FAU-USP que coordena projeto de pesquisa apresentado em reunião do Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), em dezembro.

A expectativa é de expansão da área urbana de São Paulo e do aumento da temperatura. “Nosso objetivo é planejar como podemos lidar com esses dois fatores para a definição de políticas públicas de uso e ocupação do solo, planejamento urbano, projetos de edifícios, adensamento urbano”, disse Duarte.

Outro estudo apresentado na reunião será realizado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e tem como objetivo analisar a relação do aumento de temperatura com a queda na produção de leite.

“Existe uma queda drástica no número de gestação de vacas leiteiras na época quente do ano. Se esses animais não reproduzem, também não produzem leite. É um problema sazonal que ocorre em várias regiões do mundo, inclusive nas de clima mais ameno. É um problema que tem aumentado e a expectativa é de piora com o aquecimento global”, disse Fabiola Freitas de Paula Lopes, professora do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp.

De acordo com a pesquisadora, por causa do estresse térmico as vacas de raça holandesa não conseguem manter a gestação nos meses quentes do ano. “Ocorre absorção e aborto espontâneo constantemente, o que compromete a produção e traz muitos prejuízos para a indústria de leite e a qualidade de vida dos animais”, disse Lopes.

Realizado no dia 19 de dezembro, na sede da FAPESP, com pesquisadores das duas últimas chamadas do PFPMCG, o encontro reuniu cientistas de diversas instituições do país e de diferentes áreas de pesquisa em um panorama sobre o que há de mais avançado em pesquisa sobre o tema. Foram apresentados também projetos na área de direito, saúde, agricultura, hidrologia, sobre impacto de barragens e serviços ambientais.

“A ideia da reunião é catalisar sinergias entre áreas distintas. Estamos aqui para construir parcerias e potencializar novas abordagens multidisciplinares”, disse Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP) e um dos coordenadores do programa.

“Precisamos olhar a ciência de modo mais interdisciplinar. Lidamos em um mundo disciplinar, então estamos querendo quebrar isso. São problemas muito complexos cuja solução envolve várias áreas. É preciso pensar conjuntamente”, disse Gilberto de Martino Jannuzzi, professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), também coordenador do programa.

Fonte: Rede Notícia

Professor da USP avalia que há poucas áreas protegidas fora da Amazônia

Coordenador de laboratório que investiga interface de agricultura e meio ambiente analisa impacto do Código Florestal no aumento do desmatamento

RIO — O Brasil nunca discutiu tanto as áreas protegidas quanto agora. Elas são insuficientes para ambientalistas e excessivas para ruralistas. Autor de um estudo recém-publicado sobre o risco do aumento do desmatamento legal na Amazônia associado às mudanças no Código Florestal aprovado em 2012, o professor da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo, Gerd Sparovek, diz que a proteção está aquém do necessário e do que prevê a lei.

Qual o tamanho das áreas protegidas no Brasil, incluídas unidades de conservação, terras indígenas, áreas de preservação permanente (APP) e reservas legais (RL)?

As unidades de conservação e terras indígenas somam 217 milhões de hectares. Mas a distribuição é desigual —197 milhões de hectares estão na Amazônia, o que representa 47% do bioma. Nos outros biomas, as áreas de UC e TI somadas não passam de 7% dos remanescentes. Fora da Amazônia temos poucas áreas protegidas como unidades de conservação. Nas propriedades rurais temos 14 milhões de hectares de APP com vegetação nativa e 140 milhões de hectares de reserva legal com vegetação nativa, somando 154 milhões de hectares.

O que a diz a lei?

O total exigido pelo Código Florestal de áreas de preservação permanente (APP) e reserva legal somadas é 177 milhões de hectares. Quando todo o processo de restauração e compensação estiver concluído, a área de preservação nas propriedades rurais ocupará, na média, 35% das propriedades.

Como o Código Florestal acabou por implicar na redução da vegetação protegida?

Há diversos mecanismos de redução de exigências de manutenção de vegetação nativa nas propriedades que desmataram antes de 2008. Ao todo, a redução de exigência de restauração ocorreu em 41 milhões de hectares. No entanto, a redução real de exigência para conservação será ainda maior, porque não avaliamos ainda o efeito do Art. 68 (consolidação da reserva legal no tempo, em função da época de abertura das propriedades).

Essa redução varia por bioma? 

A variação entre biomas é grande. No caso de reserva legal, o bioma mais afetado foi a Mata Atlântica (38%), seguida da Amazônia (20%). No caso de APP, os mais afetados foram Mata Atlântica (27%) seguido de Caatinga (15%).

Onde estão os maiores déficits ambientais no Brasil? 

Em APPs ( margens de rios e topos de montanhas, por exemplo ), com certeza. A restauração das APPs irá trazer um ganho ambiental enorme, principalmente na questão hídrica, como a qualidade da água e a regulação da vazão dos rios, evitando enchentes e problemas na captação. Todos serão beneficiados com isto.

Fonte: O Globo

IPCC indica necessidade de redução drástica das emissões até 2040

Para limitar o aumento da temperatura global em 2°C e garantir um clima minimamente estável às futuras gerações, será preciso reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa até 2040 e, a partir daí, retirar carbono da atmosfera em grandes quantidades. Esse é o principal alerta que o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) revelou.

Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e membro do IPCC, explica como o planeta chegou a esse ponto crítico em relação às mudanças climáticas e os efeitos já percebidos no Brasil e no mundo. O cientista aponta também os principais desafios dos acordos globais de clima para conseguir criar uma governança comum e evitar que o termômetro ultrapasse 2°C.

Embora as previsões sejam preocupantes, Artaxo afirma que “a ciência já tem as ferramentas para reduzir essas emissões drasticamente. O grande problema são as decisões políticas, que precisam ser feitas pelos governos de maneira a garantir a sustentabilidade da economia do planeta como um todo nas próximas décadas” Confira a entrevista completa:

Qual é a principal mensagem do novo relatório do IPCC?

A principal mensagem, sem sombra de dúvida, é de que se nós tivermos que limitar o aumento da temperatura em 2°C e se nós quisermos ter um sistema climático minimamente estável para as futuras gerações, temos que mudar radicalmente a maneira como utilizamos os recursos naturais do nosso planeta, em particular, a redução de emissões de combustíveis fósseis e a eliminação do desmatamento em regiões tropicais, em particular, na Amazônia.

Esse carácter de urgência já apareceu em relatórios anteriores do IPCC?

A cada relatório do IPCC, esse cárater de urgência vai se intensificando devido à falta de ações concretas de redução de emissão de gases de efeito estufa. Então, apesar desse caráter de urgência já ter sido mencionado em outros relatórios do IPCC, agora a urgência é muito maior. Por exemplo, as necessidades de redução de emissões imediatas hoje já são muito mais radicais do que apresentadoantes nos demais relatórios do IPCC. Basicamente, agora, a necessidade é de zerar as emissões de gases de efeito estufa até 2040 e, a partir de 2040, retirar CO2 da atmosfera em grandes quantidades com tecnologias que a gente ainda não conhece.

Como a humanidade chegou a este ponto crítico?

Nós chegamos a este ponto crítico devido à ausência de ações tanto de governos, quanto de setores empresariais em contribuir para políticas de redução de emissões de gás de efeito estufa. Há mais de 25 anos o IPCC e vários outros órgãos internacionais deixam muito claro que temos que reduzir emissões o mais rápido possível e da maneira mais drástica possível. Essa questão não foi atendida até o momento e isso faz com que a urgência da redução se torne cada vez mais importante.

Por que você acredita que governos e setor empresarial não se mobilizaram o suficiente?

Eles não se mobilizaram porque evidentemente os interesses econômicos prevalecem sobre os interesses da população. Evidentemente, todos os governos e as grandes empresas sabem, há várias décadas, dos potenciais impactos das mudanças climáticas na sociedade, na economia e no meio ambiente. Os interesses econômicos das companias de petróleo falaram mais alto, no exterior. No do Brasil, os interesses econômicos do agronegócio falaram mais alto do que a necessidade de redução de emissões, que é algo quase unânime na sociedade brasileira em geral, com exceção dos pecuaristas do agronegócio. Portanto, na verdade, isso é o governo respondendo mais aos interesses de pequenos grupos econômicos do que aos interesses da população em geral.

Quais são as principais fontes de emissão de gases de efeito estufa no mundo e, especialmente, no Brasil?

No mundo, globalmente falando, as principais fontes de emissão de gás de efeito estufa são a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento. Hoje, essa proporção está em torno de 90% para queima de combustíveis fósseis e 10% para o desmatamento. No Brasil, as duas maiores fontes de emissões são o desmatamento na Amazônia e o setor agropecuário.

Quais efeitos das mudanças climáticas já são percebidos hoje no mundo e no Brasil?

O aumento médio da temperatura no Brasil, ao longo dos últimos 100 anos, já é de 1.5°C. Algumas regiões como, por exemplo, o Nordeste brasileiro, se aqueceram mais do que isso e outras regiões se aqueceram menos. O aquecimento no Brasil já está causando perturbações no ciclo hídrico, na chuva, onde nós vemos uma redução muito drástica da precipitação no Nordeste e na bacia do rio São Francisco. Há também um aumento da precipitação na bacia Prata e no sul do Brasil. Os eventos climáticos extremos, como chuvas muito pesadas, são cada vez mais frequentes em cidades como São Paulo, onde a quantidade de enchentes e chuvas acima de 100 milímetros por dia aumentaram significativamente. Isso representa uma série de aumento na frequência de desastres naturais, como o deslizamento de encostas, que acontece quase todo ano em Petropólis, por exemplo, e em áreas vulneráveis do Brasil.

Os efeitos das mudanças do clima já são muito bem documentados em todas as regiões brasileiras. No caso da Amazônia, também foi muito forte o efeito das secas de 2005 e 2010 no balanço de carbono da floresta. A floresta acabou emitindo uma quantidade grande de carbono para a atmosfera, como decorrência desses eventos climáticos extremos (secas de 2005 e 2010).

Quais as previsões desses efeitos para os próximos anos?

As projeções são razoavelmente sombrias, para ser honesto com você. Veja, se nós continuarmos a emitir combustíveis fósseis na faixa que estamos emitindo hoje, globalmente, que é de 40 giga toneladas de CO2 por ano, nós podemos esperar, ao longo dos próximos 30 ou 40 anos, um aumento adicional da temperatura de mais uns 3 ou 4°C. Isso iria desestabilizar a produção de alimentos no planeta como um todo, porque causaria alterações no padrão de chuva e redução na produtividade primária da maior parte das culturas. É preocupante, por temos que alimentar 10 bilhões de pessoas em 2050 e o clima pode ser muito menos favorável para a produção agrícola do que o que nós temos hoje.

Existe algum estudo que estime em termos econômicos, em valores, as perdas para a agricultura desse aumento de temperatura?

Sim, a EMBRAPA fez uma série de simulações de potenciais quebras de safra do café, algodão, milho e assim por diante e, obviamente, os prejuízos econômicos são muito significativos. Essas estimativas financeiras ainda têm grandes incertezas porque na verdade ninguém tem bola de cristal para saber como é que, ao longo dos próximos 10, 20 ou 30 anos nós teremos a evolução desse quadro. Mas apesar das incertezas, sabemos e temos certeza de uma coisa: os prejuízos econômicos e sociais vão ser muito grandes.

Se houvesse uma mobilização hoje de todo o setor produtivo para resolver o problema das mudanças climáticas, por onde ele deveria iniciar esse trabalho na área de agricultura e de florestas?

A primeira questão muito simples é eliminar o desmatamento ilegal. Em 2017, o Brasil desmatou cerca de 8 mil km² de florestas primárias. Mesmo nesse cenário catastrófico, ainda estamos destruindo florestas que são cruciais para o nosso próprio futuro. Temos uma necessidade urgente de redução de desmatamento na Amazônia. Além disso, temos que ampliar o uso de energia solar e eólica, em particular no Nordeste brasileiro. Há um potencial de geração de eletricidade muito grande que não é aproveitado adequadamente. Esperamos que o próximo governo brasileiro reverta esse quadro e que implemente medidas que tornem o desenvolvimento socioeconômico do Brasil sustentável.

Qual é o papel de práticas de agricultura de baixo carbono nesse contexto?

Desenvolver uma nova agricultura com baixas emissões de carbono é fundamental. Hoje, a agricultura responde globalmente por cerca de 30% das emissões de gases de efeito estufa, onde a maior parte dessas emissões se dá através do metano que é emitido na criação do gado. A agricultura de baixo carbono é fundamental também para garantir mercados futuros e o desenvolvimento econômico do Brasil.

Se o Brasil se dedicasse a acabar com o desmatamento ilegal e a investir em práticas de agricultura de baixo carbono e em outras fontes de energia (como a bioenergia, solar e eólica) seria suficiente para cumprir seu compromisso no Acordo de Paris?

Isso depende das metas que o país colocar para si mesmo. No caso da NDC brasileira do Acordo de Paris, o país se comprometeu a reduzir em 42% as suas emissões. Entretanto, o último relatório do IPCC, tentando limitar o aumento da temperatura em 1.5°C, mostra que essa redução tem que ser 80% nos próximos 20 anos e a emissão líquida de gases de efeito estufa em 2040 tem que ser zero. São metas muito ambiciosas, mas são absolutamente necessárias se a gente quiser garantir uma mínima estabilidade no sistema climático terrestre.

O que podemos esperar da próxima Conferência do Clima (COP 24) agora que já foi publicado este novo relatório do IPCC?

Agora, ficou mais claro que é absolutamente necessário aos países do nosso planeta que precisamos começar a reduzir as emissões de gases de efeito estufa o mais cedo possível, provavelmente em 2020. Isso significa que teríamos dois anos para planejar como essa redução vai ser feita e, a partir daí, começar a reduzir drasticamente, principalmente com a implantação de grandes centrais de geração de eletricidade por usinas solares e eólicas. Essa tecnologia já existe e é compatível economicamente com as tecnologias atuais. Basta vontade política para que isso seja implementado. Não precisamos de nenhum desenvolvimento tecnológico novo. A ciência já tem as ferramentas para reduzir essas emissões drasticamente. O grande problema são as decisões políticas que tem que ser feitas pelos nossos governos de maneira a garantir a sustentabilidade da economia do planeta como um todo nas próximas décadas. Existem sérias dificuldades tanto nos EUA, quanto no Brasil, quanto também em alguns países europeus, do ponto de vista de redução de emissões.

Com tantos países e setores envolvidos, como seria possível estruturar a governança de um esforço global para reduzir as emissões?

Estamos extremamente atrasados na governança porque a ONU não foi estruturada para tratar de problemas destas dimensões e não há nenhum organismo internacional com a competência e o mandato necessários para lidar com uma questão tão complexa como as mudanças climáticas globais. Isso ainda vai ter que ser construído e nós vamos ter que começar essa discussão o mais rápido possível. Quem vai punir um país que não cumpra suas metas? Quem vai coletar eventuais multas? Como será o mecanismo financeiro para adaptação dos países em desenvolvimento? São questões ainda completamente em aberto, mas urgentes que precisam de respostas urgentes.

Como você vê a posição de países como os Estados Unidos, que já anunciaram que vão sair do Acordo de Paris, e as polêmicas sobre esse tema que circularam durante as eleições brasileiras?

Os Estados Unidos são um caso diferente dos demais países porque muitos estados americanos não concordam com a política de Donald Trump e já estão implementando políticas de emissão zero de gases de efeito estufa, ao longo de 2040 e 2050, como é o caso da Califórnia e de Massachusetts.

No caso brasileiro, obviamente toda a política de redução de emissões é dada pelo governo federal. Nós vamos depender muito da sustentabilidade do próximo governo na implementação de medidas que possam reduzir as emissões brasileiras, integrar mais fortemente as metas do Acordo de Paris e reforçá-las a partir dessa próxima COP e para garantir um clima minimanente estável para o próprio Brasil. É interesse do país reduzir suas emissões de gases e garantir a sustentabilidade da economia brasileira no futuro.

Fonte: Coalizão Brasil

Zerar o desmatamento na Amazônia é uma das principais contribuições que o Brasil poderá dar à luta contra o aquecimento global

Especialista defende desmatamento zero na Amazônia para combater mudanças climáticas

Zerar o desmatamento na Amazônia é uma das principais contribuições que o Brasil poderá dar à luta contra o aquecimento global. A conclusão é do brasileiro e integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), Paulo Artaxo, que apresentou neste mês (19), no Rio de Janeiro, o novo relatório do organismo. A pesquisa aborda as consequências de uma elevação mundial da temperatura acima dos 1,5º C até 2100. O teto é a aspiração mais ambiciosa do Acordo de Paris.

Em evento realizado no Museu do Amanhã pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Artaxo alertou que a alteração dos padrões climáticos já é uma realidade em território nacional. “Várias regiões, particularmente o Nordeste brasileiro e o norte de Minas, já sofreram aquecimento entre 2 a 2,5º C”, afirmou o especialista, lembrando dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) sobre o período 1981-2010.

Os valores estão acima do aumento de 1ºC da temperatura global, verificado desde 2015 em levantamentos do serviço meteorológico do Reino Unido. A oscilação mundial é um comparativo com médias dos níveis pré-industriais, antes do início do século XX.

De acordo com Artaxo, a disparidade desse índice em relação aos números do Brasil se deve ao fato de que a média global inclui as variações térmicas nas temperaturas dos oceanos, que se aquecem mais lentamente. Em ecossistemas terrestres, o calor ultrapassa a estimativa geral.

A análise do IPCC compara os impactos ambientais de um aquecimento global a 1,5ºC e a 2ºC até o final do século. Mas segundo o integrante brasileiro do painel, ambas as variações vão se traduzir em elevações mais altas da temperatura no nível nacional e local, com as médias do Nordeste, por exemplo, subindo de 2,5ºC a 3ºC. Previsões do INPE indicam um aumento ainda maior, de 4 até 7º C em diferentes partes do Brasil, num cenário em que os atuais esforços para conter o aquecimento global não fossem ampliados em todo o mundo.

Embora pareça pequena, a diferença de 0,5º C significa mudanças dramáticas para a ocorrência de fenômenos climáticos extremos, perda de biodiversidade, elevação do nível do mar e desenvolvimento econômico.

“Existem regiões do Nordeste onde a precipitação já decaiu 60%. Isso é uma alteração muito significativa para qualquer ecossistema, em particular para uma região semiárida”, acrescentou Artaxo, que também é professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP).

Na avaliação do pesquisador, as tendências de aquecimento e de diminuição das chuvas devem piorar — e o Nordeste corre o risco de se tornar uma zona desértica. O especialista ressalta ainda que as mudanças climáticas devem afetar outras partes do Brasil, como os grandes centros urbanos do Sudeste. Enchentes e estiagens, como a que atingiu São Paulo e deixou o estado em racionamento de água, vão se tornar mais frequentes.

Em nível global, manter a elevação da temperatura dentro do 1,5º C permitiria, por exemplo, salvar de 10% a 30% de todos os recifes de corais. Com o aquecimento a 2º C, essas formações naturais devem desaparecer por completo do planeta. O limite mais restritivo também impediria que o degelo da Antártida se tornasse um fenômeno anual durante o verão. Com o teto menor, os mares subiriam dez centímetros menos do que a 2º C.

Desmatamento na Amazônia

De acordo com o IPCC, restringir o aumento a 1,5º C exigirá, até 2050, uma redução a zero de todas as emissões líquidas de CO2. Atividades humanas que continuassem dispersando gases do efeito estufa teriam de ser compensadas com medidas para absorver gás carbônico, como o reflorestamento.

“Isso vale tanto para não queimar combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás natural, quanto para reduzir o desmatamento, por exemplo, da região amazônica. Esta tarefa é extremamente urgente porque não temos muito tempo para reduzir estas emissões antes de ocorrer uma catástrofe climática global”, ressaltou Artaxo.

O analista vê desafios consideráveis na implementação dessa agenda de sustentabilidade. Isso porque mesmo com a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, as emissões de gás carbônico aumentaram 2% de 2016 para 2017, chegando a 36,8 gigatoneladas anuais. Para alcançar a meta do 1,5º C, seria necessário reduzir o volume de gás carbônico lançado na atmosfera em 45% até 2030 — tendo como base os níveis de 2010.

Os compromissos de cada país signatário do Acordo de Paris tampouco seriam suficientes para conter o aquecimento global — estimado em 2,8º C até 2100 com o cumprimento das atuais promessas.

Sobre o Brasil, Artaxo enfatizou a necessidade de “colocar o desmatamento da Amazônia a zero”, uma das metas do país latino-americano junto ao documento internacional.

“Temos (também) que investir em energia eólica e energia solar particularmente no Nordeste brasileiro. O Brasil tem o compromisso de reflorestar 12 milhões de hectares no Acordo e Paris. Isso também é fundamental se nós quisermos garantir um meio ambiente saudável para a população brasileira”, disse o especialista do IPCC.

“Nós precisamos de políticas públicas sólidas, de governos que tenham políticas de Estado de longo prazo.”

Sustentabilidade nos negócios

Ana Carolina Szklo, diretora de Desenvolvimento Institucional do CEBDS, vê uma conscientização crescente do setor privado sobre a urgência das mudanças climáticas. Segundo a gestora, empresas têm tomado a dianteira e criado sistemas próprios de mitigação e compensação. É o caso de companhias que adotam estratégias de precificação interna de carbono, a fim de identificar departamentos e atividades com maior impacto ambiental.

“A equação (dos negócios) está desequilibrada porque a gente não está ainda internalizando algumas variáveis”, afirma a gestora. Segundo o CEBDS, 16 empresas brasileiras já trabalham com a precificação interna de carbono. Outras 27 declararam que utilizarão esse tipo de metodologia a partir de 2019.

Szklo aponta ainda que a sustentabilidade tem um importante valor de mercado. “Gera lucro e traz dinheiro. É bom para o meio ambiente, para as pessoas e para as empresas”, afirmou.

Também sobre o papel do setor privado no combate ao aquecimento global, o integrante do IPCC, Paulo Artaxo, disse que “construir produtos que possam ter uma durabilidade maior, que usem muito menos matéria-prima e que sejam mais eficientes do ponto de vista do uso de energia é absolutamente estratégico para o futuro do nosso planeta”.

“Do lado empresarial, nós precisamos ter as empresas menos preocupadas com o lucro no próximo balancete e muito mais preocupadas com a sustentabilidade do seu próprio negócio a médio e longo prazo”, concluiu o pesquisador.

Fonte: EcoDebate

Software calcula emissões de poluentes por veículo, via e horário

Programa fornece estimativas dos poluentes emitidos por ano e modelo dos veículos, em cada trecho e horário

Um programa de computador que estima o volume de poluentes emitidos por veículos automotores, testado na região metropolitana de São Paulo, é o resultado de pesquisa do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP.

A partir de dados sobre o fluxo de tráfego, velocidade e fatores de emissão dos modelos em circulação, o software calcula os níveis de emissões por trecho de via, horário e ano de produção dos veículos. Por meio do programa, descobriram-se as regiões que concentram mais poluentes e que os veículos que entraram em circulação entre 1992 e 1996 emitem mais monóxido de carbono (CO).

Também comprovou-se que os automóveis contribuem com mais de 70% do material que forma na atmosfera o ozônio, um gás nocivo à saúde humana e ao meio ambiente.

“Muitos países em desenvolvimento não têm ferramentas para fazer uma boa gestão ambiental da poluição do ar”, destaca o engenheiro ambiental Sérgio Ibarra Espinosa, que realizou o estudo. De acordo com o pesquisador, para diminuir as concentrações de poluentes e a exposição às pessoas, uma ferramenta importante são os inventários de emissões, que são a quantificação das massas de poluentes emitidas pelas diferentes fontes de poluição do ar numa cidade.

Clique aqui para continuar lendo.

Fonte: Jornal da USP

Pesquisa mede resiliência da mobilidade urbana à falta de combustível

Proposta é prever o que aconteceria com a locomoção nas cidades brasileiras em caso de escassez de combustíveis fósseis

Muito se especula sobre o futuro da sociedade em caso de escassez de combustíveis fósseis. A fim de contribuir para o debate, um aluno da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP propôs em seu mestrado a seguinte pergunta: “O que aconteceria com as viagens diárias se não tivéssemos veículos motorizados disponíveis?”. Ao buscar respondê-la, Marcel Martins e o professor Antônio Nelson Rodrigues da Silva, orientador do estudo e vice-diretor da escola, estudaram o que é chamado de resiliência da mobilidade urbana.

Usando dados oficiais, a pesquisa analisou nas cidades de São Carlos e Maceió (AL) as viagens pendulares, que são aquelas realizadas com ida e volta no mesmo dia, em geral para cumprir uma jornada de trabalho, determinando os principais centros de partida e destinos das zonas urbanas. Dessa forma, foi possível verificar as distâncias entre esses centros e quais desses caminhos poderiam ser feitos sem o uso de automóveis. Estipulou-se também uma distância máxima possível realizada nos modos ativos (a pé ou de bicicleta). A partir desse dado, foi possível simular quais tipos de viagens sofreriam maior impacto em caso de falta de combustível fóssil.

Os trajetos internos de uma cidade foram classificados em quatro tipos. O primeiro são as “viagens persistentes”, que continuariam a existir mesmo com uma crise do veículo motorizado, uma vez que são aquelas já feitas por modos ativos e dentro do limite máximo de distância. O segundo tipo é composto de viagens motorizadas, dentro do limite estabelecido para o moto ativo, e são chamadas de “viagens adaptáveis” – ou seja, em tese poderiam ser feitas a pé ou de bicicleta sem maiores problemas. O terceiro tipo é chamado de “viagens transformáveis”, que são as realizadas por veículos motorizados ultrapassando os limites estipulados e, portanto, tornando mais difícil aos viajantes realizar adaptações ao contexto. Por fim, foram nomeadas como “viagens excepcionais” aquelas realizadas a pé e/ou por bicicleta mesmo estando acima dos limites de distância.

Imagem: Marcel Martins

 

Resiliente ou vulnerável?

Os pesquisadores então dividiram esses tipos de trajetos em duas categorias: resilientes e vulneráveis. As viagens persistentes, adaptáveis e excepcionais são classificadas como resilientes, uma vez que podem continuar a existir sem o uso de transportes motorizados. Logo, se houvesse uma crise de combustíveis fósseis, essas trajetórias não deixariam de existir. Já as viagens transformáveis são consideradas vulneráveis, uma vez que seriam diretamente afetadas em uma situação de escassez de combustível.

A resiliência é, portanto, a capacidade de reação de um sistema a se reorganizar ou se adaptar após um choque ou uma crise. “O veículo motorizado não vai deixar de existir. O problema é que estamos criando uma dependência muito grande dele, o que pode fazer com que tenhamos muita dificuldade na transição de um combustível para outro”, disse o vice-diretor da EESC.

O resultado final da pesquisa mostrou uma quantidade significativa de locomoções motorizadas realizadas dentro dos limites de distâncias para os modos ativos, o que demonstra uma alta dependência dos meios de transportes motorizados. “Isso reflete a situação da sociedade brasileira como um todo: a cultura do carro ainda está muito intrínseca em nós”, afirmou Marcel Martins. Para os pesquisadores, é necessário criar políticas públicas e trabalhar em soluções mais focadas em realizar a migração dos modos motorizados para os modos ativos, como a bicicleta e a caminhada, e também multiplicar a quantidade de centros de atividades econômicas dentro das cidades.

A pesquisa foi premiada pela Associação Nacional de Pesquisa e Ensino em Transportes (Anpet) neste ano e agora está sendo expandida para outras cidades brasileiras e de outros países, em uma parceria com a Universidade de Manchester, na Inglaterra.

Mais informações: anelson@sc.usp.br/mcm-mata@hotmail.com

Fonte: Jornal da USP

Questões de mobilidade urbana negligenciam impactos à saúde

Ônibus de São Paulo, que deveriam usar combustíveis limpos até 2018, devem esperar mais dez anos

Esta semana foi publicado o edital para que empresas interessadas possam concorrer às 24 novas concessões de terminais de ônibus urbanos da cidade de São Paulo.

Mariana Matera Veras, pesquisadora do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), lamenta que o impacto à saúde não seja levado em consideração em questões como essa, de incrementação no sistema de mobilidade.

A pesquisadora lembra que era esperado que toda a frota de ônibus de São Paulo utilizasse combustíveis menos poluentes até 2018, porém uma nova proposta quer postergar essa medida em uma década.

A especialista alerta ainda que os padrões de qualidade do ar adotados no Brasil e em São Paulo estão defasados e ela não percebe nenhuma esforço para que estes sejam atualizados. Mariana Veras destaca também que, além do problema da poluição, há uma série de questões atreladas ao tempo que se passa no trânsito, como falta de horários para exercícios físicos e atividades de lazer e descanso, que podem trazer sérias consequências.

Jornal da USP, uma parceria do Instituto de Estudos Avançados, Faculdade de Medicina e Rádio USP, busca aprofundar temas nacionais e internacionais de maior repercussão e é veiculado de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 9h30, com apresentação de Roxane Ré.

Para ouvir a reportagem clique aqui.

Fonte: Jornal da USP

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