Mundo precisa de 1,2 trilhão de novas árvores para conter o aquecimento global, diz estudo

Pesquisa publicada pela revista Science nesta sexta-feira (5) defende que plantio de novas árvores em locais subutilizados poderia diminuir as mudanças climáticas

Além de preservar as florestas que já existem, a melhor solução para reduzir drasticamente o excesso de dióxido de carbono na atmosfera e conter o aquecimento global é plantar árvores. Em todos os espaços possíveis do planeta que não são ocupados nem por zonas urbanas, nem destinados a agropecuária.

Isso significaria plantar 1,2 trilhão de novas mudas, um número quatro vezes maior do que a totalidade de árvores que vivem na floresta amazônica. Calcula-se que existam no planeta hoje cerca de 3 trilhões de árvores.

O plantio massivo de árvores em locais subutilizados é o principal ponto defendido por estudo que saiu na edição desta sexta-feira (5/7) da revista Science. “Seguramente podemos afirmar que o reflorestamento é a solução mais poderosa se quisermos alcançar o limite de 1,5 grau [de aquecimento global]”, afirma à BBC News Brasil o cientista britânico e ecólogo Thomas Crowther, professor do departamento de Ciências do Meio Ambiente do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, e um dos autores do trabalho acadêmico.

O limite a que ele se refere é a preocupação central do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas, cujo relatório foi lançado ano passado: limitar o aumento do aquecimento global em 1,5 grau Celsius até 2050.

Este é o primeiro estudo já realizado que demonstra quantas árvores adicionais o planeta pode suportar, onde elas poderiam ser plantadas e quanto de carbono elas conseguiriam absorver. Se todo esse reflorestamento for feito, os níveis de carbono na atmosfera poderiam cair em 25% – ou seja, retornar a padrões do início do século 20.

Desde o início da atividade industrial, a humanidade produziu um excedente de carbono na atmosfera de 300 bilhões de toneladas de carbono. De acordo com os pesquisadores, caso esse montante de árvores seja plantado, quando atingirem a maturidade conseguirão absorver 205 bilhões de toneladas de carbono. “Os 300 bilhões de toneladas extra de carbono na atmosfera existentes hoje são devidos à atividade humana”, diz o cientista. “O reflorestamento reduziria dois terços disso. Contudo, há um total de 800 bilhões de toneladas carbono na atmosfera, 500 bilhões das quais naturais.”

80 mil fotos de satélite

Desmatamento da Amazônia no Peru — Foto: WFU/Acers

Desmatamento da Amazônia no Peru — Foto: WFU/Acers

Por meio de inteligência artificial, dez variáveis de solo e clima ajudaram a determinar o potencial de arborização de cada ecossistema, considerando as condições ambientais atuais e priorizando áreas com atividade humana mínima. Por fim, modelos climáticos que projetam as mudanças do planeta até 2050 foram implementados no software, para que o resultado fosse o mais próximo do real.

Atualmente existem 5,5 bilhões de hectares de floresta no planeta – segundo a definição da ONU, ou seja, terras com pelo menos 10% de cobertura arbórea e sem atividade humana. Isso significa 2,8 bilhões de hectares com cobertura de dossel de árvores.

O estudo concluiu que há ainda um total de 1,8 bilhão de hectares de terra no planeta em áreas com baixíssima atividade humana que poderiam ser transformadas em florestas. Nesse espaço, poderiam ser plantadas 1,2 trilhão de mudas. “À medida que essas árvores amadurecem e aumentam, o número de espécimes cai. Quando chegamos às florestas maduras, as árvores realmente enormes armazenam maior quantidade de carbono e suportam grande quantidade de biodiversidade”, completa Crowther. Isso renderia 900 milhões de hectares de copas de árvores a mais – uma área do tamanho dos Estados Unidos.

As medidas são urgentes. “Todos nós sabíamos que a restauração de florestas poderia contribuiu para o clima, mas não tínhamos ainda conhecimento científico para mensurar o impacto disso. Nosso estudo mostra claramente que o reflorestamento é a melhor solução, com provas concretas que justificam o investimento”, afirma o britânico. “Se agirmos agora. Pois serão necessárias décadas para que novas florestas amadureçam e alcancem seu potencial. Ao mesmo tempo, é vital que protejamos as florestas que existem hoje e busquemos outras soluções climáticas a fim de reduzir as perigosas alterações climáticas.”

A pedido da reportagem, Bastin estimou quanto tempo seria necessário para que esse reflorestamento maciço começasse a implicar no freio ao aquecimento global: 18 anos. “Então, isso de fato ajudaria a retardar o problema, mas o mesmo tempo precisamos mudar consideravelmente nosso jeito de viver no planeta a fim de conseguir neutralizar nossas emissões de carbono”, acrescenta ele.

O sol se põe por trás de uma floresta da taiga siberiana no horizonte em Krasnoyarsk, na Rússia — Foto: Ilya Naymushin/Reuters

O sol se põe por trás de uma floresta da taiga siberiana no horizonte em Krasnoyarsk, na Rússia — Foto: Ilya Naymushin/Reuters

Segundo os pesquisadores, mais da metade do potencial terrestre de reflorestamento está concentrada em seis países, nesta ordem: Rússia, com 151 milhões de hectares disponíveis; Estados Unidos (103 milhões); Canadá (78 milhões); Austrália (58 milhões), Brasil (50 milhões) e China (40 milhões).

O trabalho também mostrou o impacto que as mudanças climáticas devem ter na configuração das florestas existentes. Com o aquecimento global, é provável que haja um aumento na área de florestas boreais em regiões como a Sibéria. Contudo, a média de cobertura de árvores nesse tipo de ecossistema é de apenas 30% a 40%. No caso de florestas tropicais, que normalmente têm de 90% a 100% de cobertura de árvores, as alterações climáticas têm trazido efeitos devastadores.

O estudo foi bem-recebido por especialistas ambientais que tiveram acesso prévio ao material. “Finalmente, uma avaliação precisa do quanto de terra podemos e devemos cobrir com árvores, sem interferir na produção de alimentos ou espaços de habitação humana”, pontua a diplomata Christiana Figueres, ex-secretária executiva da Convenção do Clima da ONU. “É um modelo para governos e para o setor privado.”

“Agora temos evidências definitivas da áreas de terra potencial para o reflorestamento, onde elas poderiam existir e quanto carbono poderiam armazenar”, avalia o engenheiro civil René Castro, especialista em desenvolvimento sustentável e diretor-geral do Departamento de Clima, Biodiversidade, Terra e Água da FAO, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação.

“As florestas são um dos nossos maiores aliados no combate às mudanças climáticas, com resultados mensuráveis. O desmatamento não apenas contribui para uma perda alarmante da biodiversidade, mas limita nossa capacidade de armazenar carbono”, completa ele.

Desmatamento na Amazônia: nas florestas tropicais, que têm de 90% a 100% de cobertura de árvores, as alterações climáticas têm trazido efeitos devastadores — Foto: Douglas Daly/BBC News Brasil

Desmatamento na Amazônia: nas florestas tropicais, que têm de 90% a 100% de cobertura de árvores, as alterações climáticas têm trazido efeitos devastadores — Foto: Douglas Daly/BBC News Brasil

O ambientalista Will Baldwin-Cantello, conselheiro-chefe para florestas da organização WWF (World Wide Fund for Nature), enfatiza o papel das florestas “contra a mudança climática”. “Sem elas, perderemos a luta para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 grau”, diz. “Por isso é crucial atuarmos para restaurar as florestas enquanto reduzimos drasticamente as emissões globais de carbono.”

“Só falta vontade política de lutar pelo nosso mundo”, conclui.

Plante você mesmo

Crowther enfatiza que todos podem contribuir para esse processo. “Embora ações de governos sejam essenciais para aproveitar ao máximo a oportunidade, estamos diante de uma solução climática na qual todos podemos nos envolver e causar um impacto tangível”, defende. “Você pode cultivar árvores, doar para organizações de reflorestamento ou ao menos investir seu dinheiro com responsabilidade em empresas que tomam medidas quanto à mudança climática.”

No site Crowther Lab, há uma ferramenta que permite que o usuário olhe para qualquer ponto da Terra e identifique áreas passíveis de reflorestamento.

“Defendemos que qualquer um pode se envolver. Mas, para fazer isso de maneira correta, é preciso entender as condições do solo e os tipos de árvores que podem existir em cada região”, comenta o cientista. “Por isso, desenvolvemos uma ferramenta de mapeamento, disponível em nosso site, onde qualquer pessoa pode ampliar sua área e se informar sobre que tipos de árvores plantar e quanto carbono elas podem capturar. Tais informações ecológicas são fundamentais. Vamos fazer o reflorestamento global de forma eficaz.”

O Crowther Lab também traz listas de organizações comprometidas com o reflorestamento e apoia a criação de uma coalização global para tornar os esforços mais eficientes.

Fonte: G1

Código Florestal Brasileiro, um obstáculo para a produção agrícola ou um diferencial de mercado?

Em artigo, o consultor em gestão da sustentabilidade da Fundação Espaço ECO, Tiago Egydio Barreto, comenta os desafios trazidos pelas mudanças climáticas

As mudanças climáticas podem ser consideradas um dos principais desafios de nível planetário que põem em dúvida o modelo atual de vida de nossa sociedade. Esse fenômeno é entendido como as alterações no clima de todo o planeta Terra, causadas pelas atividades humanas que emitem CO2 e outros gases do efeito estufa (GEE) para a atmosfera. Essas alterações têm consequências diretas no nosso dia a dia, causando, por exemplo, alterações nos padrões de temperatura e eventos climáticos de alta intensidade, como secas, inundações e picos de temperaturas altas e baixas.

Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC – sigla em Inglês), já foi registrada uma elevação média de 0,8 oC na temperatura do planeta, e é imprescindível cessar as emissões de gases de efeito estufa até 2100 para estabilizar o aquecimento global em 2 oC. Uma mudança climática acima desse patamar pode colocar em risco toda a vida no planeta.

tiago-egydio-barreto-fundacao-espaco-eco (Foto: Divulgação/FEE)

Essa preocupação global gerou a formulação de um compromisso com esforço coletivo para a redução das emissões de carbono que foi assinado em 2015, na Conferência das Partes (COP 21), por 195 países, ficando conhecido como Acordo de Paris. Seu objetivo é manter o aumento da temperatura global abaixo dos 2 °C e, se possível, limitar a 1,5 °C. Cada país que ratificou o acordo assumiu metas que foram chamadas de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC – sigla em Inglês). Atualmente, as emissões globais estão próximas de 37 gigatoneladas/ano de GEE (fonte: https://www.globalcarbonproject.org/carbonbudget/).

As metas assumidas por cada país no Acordo de Paris começam a ser válidas em 2020. O Brasil, que está entre as dez nações que mais emitem gases de efeito estufa, comprometeu-se a reduzir suas emissões em 37% em relação a 2005. A data-limite para isso é 2025, com indicativo de reduzir 43% das emissões até 2030. A principal fonte das emissões do Brasil é a mudança e conversão de uso do solo em virtude do desmatamento ilegal de nossos remanescentes de vegetação nativa (Cerrado e Floresta Amazônica), que corresponde a aproximadamente 46% do total. No setor produtivo, a atividade que mais tem contribuído para a emissão dos gases de efeito estufa é a atividade agropecuária, com aproximadamente 23% do total das emissões do país, segundo dados do observatório do clima.

Diante desse cenário, referente às emissões brasileiras oriundas das atividades agropecuárias, permito realizar algumas observações que buscam avaliar alguns aspectos de mercado e as leis ambientais do Brasil.

Quanto ao mercado, cada vez mais o tema da sustentabilidade permeia os diferentes setores produtivos. Parte disso se deve ao tema de emissões de GEE. Hoje, é comum encontrarmos na internet textos sobre economia de baixo carbono. Isto é, ao meu ver, esperado, visto que quase a totalidade dos países ratificaram o Acordo de Paris e se comprometeram com suas NDCs.

Na prática, segundo dados do Banco Mundial, 51 países já possuem seus mecanismos de precificação de carbono, e isso quer dizer que o custo das consequências das mudanças climáticas, que outrora não era contabilizada no balanço do custeio dos países e empresas, passará a ser valorada, e as fontes emissoras dos GEE passarão a ter suas emissões reguladas, seja por impostos ou por sistema de comércio de emissões, dado o marco legal de 2020, em que começará a entrar em vigor o Acordo de Paris. Ou seja, o custo do carbono entrará no orçamento das empresas e governos, de forma oficial, nesses países.

Olhando para o setor do agronegócio brasileiro, que produz riquezas, mas também é uma importante fonte de emissão de GEE, ressalto a importância das leis ambientais brasileiras para apoiar no equilíbrio dessa relação entre produtividade e sustentabilidade ambiental. Em específico, refiro-me ao Código Florestal – leis federais 12.651 e 12.727, de 2012 –, que propõe um zoneamento da propriedade rural. Entre as categorias previstas está a Reserva Legal, que determina um percentual de área que pode variar de 20% a 80% e deve ser destinada à conservação ambiental, com possibilidade de exploração sustentável dos recursos naturais.

Na prática, isso quer dizer que os produtores rurais que atendem a esse requisito legal devem contabilizar as emissões de seu negócio, reduzindo o que é sequestrado de carbono, considerando sua área de Reserva Legal. Outros países adotam sistemas diferentes para impor regras para o uso da terra na propriedade rural, mas pode ser dito que o modelo de Reserva Legal previsto na lei ambiental do Brasil é um caso diferenciado, quando comparado com os de outros países.

Cerca de 55% do território brasileiro ainda é coberto por algum tipo de vegetação nativa, e boa parte desse montante está localizada nas propriedades rurais – o que reforça o protagonismo do produtor rural para a conservação da biodiversidade e dos recursos naturais. Outros países, como a Rússia, possuem maiores áreas territoriais cobertas por áreas naturais. Contudo, é importante discernir que boa parte da Rússia não possui condições climáticas adequadas para o desenvolvimento de práticas agrícolas, e no Brasil temos um cenário oposto, em que teoricamente não há restrições climáticas para o desenvolvimento de agricultura, do norte ao sul do país.

O Brasil tem como base de sua produção agrícola as commodities, principalmente relacionadas ao cultivo de cereais e à pecuária. Esses produtos seguem mercados cada vez mais exigentes quanto à qualidade e aos critérios de produção socioambientais. Neste momento da nossa história, em que os mercados estão cada vez mais conectados e o carbono virou uma “moeda”, em vez de considerar a área de Reserva legal como uma barreira para aumentar a produtividade, ela pode ser vista como uma oportunidade única para atender às exigências de mercado e configurar a produção de commodities agrícolas do Brasil como uma das mais sustentáveis do mundo.

Para ilustrar essa colocação, pego um caso real. O óleo de palma e o óleo de palmiste são originados da extração do óleo existente na fruta e na semente dos dendezeiros e são os óleos mais consumidos no mundo. A produção desse cultivar está concentrada principalmente em dois países: Indonésia e Malásia. Visto que, ao longo do tempo, muitas áreas de vegetação nativa nesses países foram convertidas para o cultivo do dendezeiro, a biodiversidade local tornou-se vulnerável, e espécies entraram na lista de ameaça de extinção, como os orangotangos. Além disso, o cultivo dos dendezeiros ocorre normalmente em turfeiras, solos ricos em estoque de carbono. Assim, as emissões de GEE também viraram um ponto de atenção. Dadas essas e outras questões que envolvem a produção do óleo de palma e palmiste, houve uma reação e mobilização de mercado, e as empresas que demandam essas matérias-primas precisavam garantir as boas práticas nos seus processos produtivos. Assim, nesse caso, a certificação da produção dos respectivos óleos com critérios socioambientais adequados foi a solução para garantir que as grandes empresas atendessem às exigências dos consumidores e outros elos da cadeia de valor.

Ocorre que no Brasil também há produção de dendezeiros, porém é pouco expressiva, considerando a demanda e a produção mundial. Aqui, a produção ocorre principalmente no estado do Pará, e os produtores do dendezeiro devem seguir o Zoneamento Econômico Ambiental, que determina as regras para o plantio dessa cultura, como a proibição de conversão de floresta nativa para o plantio e o uso de áreas de pastagens degradadas para esse fim, além de respeitar o percentual exigido de Reserva Legal, que, nesses casos, é de 50% da área da propriedade.

Observa-se que essas regras ambientais vão ao encontro da proposta da certificação do óleo de palma e palmiste, por garantir uma pegada ambiental positiva em relação às emissões de carbono e à conservação da biodiversidade. Atualmente, as empresas compradoras desses óleos possuem metas quanto ao consumo de matérias-primas certificadas, e a demanda possivelmente será de 100% em um futuro próximo. Em um mundo cada vez mais conectado, as “vozes” dos diferentes elos da cadeia de valor fazem com que os mercados se atentem a elas para suas tomadas de decisão. Esse contexto se aplica a outras commodities agrícolas, como a soja. A plataforma Trase (Transparency for Sustainable Economies) monitora anualmente as áreas de plantio de soja no Brasil, identificando possíveis locais que foram desmatados, plantados em terras indígenas ou Unidades de Conservação, apoiando o mercado a atender às suas demandas e às exigências da cadeia de valor.

Nota-se que a questão de conservar áreas naturais vai além de exigências legais. Os acordos globais e o posicionamento do mercado indicam a direção a seguir de muitos setores produtivos, e é notório que o tema de conservação de florestas nativas é tendência em sustentabilidade. Todas as grandes empresas possuem metas de redução de CO2. A lei ambiental brasileira firma-se como uma oportunidade, e não como um obstáculo, trazendo um diferencial para nossa agricultura. Que cadeias produtivas poderiam se beneficiar com esse posicionamento? Em que mercados o Brasil deveria investir mais e como se posicionar?

Fonte: Globo Rural

Documentário mostra pessoas impactadas pelas mudanças climáticas

O Amanhã é Hoje foi lançada na conferência das Nações Unidas sobre o clima, a COP 24, realizada em dezembro do ano passado na Polônia

Uma agricultora, uma chefe de brigada de incêndio, um comerciante, uma artesã, um produtor de ostras e uma microempresária. Cada um de uma região do Brasil: Santos (SP), Itajaí (SC), Parque Estadual Ilha do Cardoso (SP), Nova Friburgo (RJ), TErra Indígena Krikati (MA), São José do Egito (PE). O que eles têm em comum? São impactados diariamente com ações das mudanças climáticas. Em 23 minutos, o documentário O Amanhã é Hoje possui linguagem acessível e mostra como impacta a vida dessas pessoas, o meio ambiente e a economia.

O documentário mostra a jovem indígena que tornou-se brigadista voluntária depois de um incêndio florestal sem precedentes; a pequena agricultora que enfrentou seis anos de seca; a comunidade caiçara centenária obrigada a mudar de território em razão da força do mar; o comerciante que viu seu negócio ser destruído pelas chuvas e deslizamentos que ceifaram centenas de vidas no Rio de Janeiro; o produtor de ostras penalizado pelo aumento da temperatura do mar; a mulher que perdeu dois carros, em uma cidade litorânea, para as ressacas que avançam na costa brasileira.

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a temperatura do planeta pode aumentar 1,5° C nos próximos 30 anos. A ONG alemã Germanwatch informou em seu relatório que o Brasil é um dos 18 países que mais perdem dinheiro com as mudanças climáticas. Para falar desse assunto, sete organizações da sociedade civil se uniram para mostrar as histórias de vidas impactadas pelas mudanças climáticas. Foram estas: Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Artigo 19, Conectas Direitos Humanos, Engajamundo, Greenpeace, Instituto Alana e Instituto Socioambiental.

Além da produção do documentário, especialistas da área também realizaram dois relatórios técnicos, que apontam os riscos iminentes para as pessoas e o planeta. Os artigos são do professor de Economia da Universidade de São Paulo Ricardo Abramovay, do pesquisador Carlos Souza, do Imazon, e do climatologista José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Os documentos mostram como o desmatamento, em especial da Amazônia, agrava os impactos do clima na produção agropecuária, no fornecimento de água do país, na emissão de gases de efeito estufa, nos incêndios florestais, entre outros, afetando ainda mais brasileiros.

“O próprio nome do filme fala que o amanhã é hoje. Então, a discussão que temos atualmente ela existe e já está acontecendo. E precisa de algo para reverter agora”, afirma Fabiana Alves, responsável pela campanha de clima e energia da Greenpeace. Ela ainda comenta que as organizações produtoras da iniciativa estudam e atuam no tema já faz algum tempo e decidiram desde julho do ano passado fazer uma produção usando a história de pessoas impactadas diretamente com esse fenômeno.

Segundo Fabiana, a ideia central foi alertar as pessoas sobre o que está acontecendo aqui, não somente no derretimento das calotas polares e países que estão passando por furacões, mas por meio de seca na Amazônia, a diminuição da produção na agricultura. “Nós quisemos mostrar e chamar atenção das pessoas e aproximar essa realidade que também é brasileira. Teremos que mitigar e reduzir essas emissões, por meio de demandas e de novos hábitos”, ressalta.

A equipe das organizações envolvidas conversaram e levantaram vários personagens. Toda produção foi feita em conjunto e pensar o país com pessoas de diferentes localidades e estilos de vida distintos. “A ideia da mudança climática não tem fronteira, ela atinge a todos. É claro que num país como tem desigualdades vai atingir os mais pobres. De qualquer maneira a população indígena, as pessoas que moram no litoral do Brasil são afetadas por enchentes. Esse perigo é para todos e por todo tipo de governo”.

Fabiana considera que é importante sair da linguagem difícil sobre esse tema. “As mudanças acontecem, não estamos falando do clima que vemos no jornal diariamente. É um aumento de temperatura ao longo dos anos, que está tornando o planeta Terra inabitado”, alerta. A responsável por campanhas de energia e clima do Greenpeace ainda compartilha que IPCC da ONU informa por meio de uma cartilha o que ocorrerá no mundo com aumento de 1,5° C na média da temperatura e é visível que a consequência será catastrófica. “Tentamos mostrar por meio dessas pessoas os números na realidade: quem são e o que estão sofrendo com as secas severas ou quem está passando com as inundações e perdendo vidas? Também estamos falando de perda de patrimônio. São pessoas que estão perdendo na produção. São aqueles que estão lutando contra o fogo. As pessoas já estão sentindo o aumento da temperatura no seu dia a dia”.

Assista aqui e leia os artigos produzidos: https://www.oamanhaehoje.com.br/

Fonte: Senac Setor3

A relação entre aquecimento global, doenças e mortes

Matéria na Revista Poli nº 63 traz relação entre aquecimento global, doenças e mortes

De um dia para o outro, 52 ursos polares famintos apareceram em uma cidade na Rússia. Aconteceu em fevereiro, quando ainda é inverno no hemisfério Norte. Após decretar estado de emergência, as autoridades de Belushya Guba fizeram o que estava ao seu alcance: ergueram cercas no entorno de escolas e parques, escoltaram pessoas de um canto a outro. Acuados, os habitantes da cidadezinha, localizada em um arquipélago no Ártico, foram além: tentaram espantar os animais com tiros de advertência e bombas caseiras. A invasão gerou imagens com um quê de ficção científica.

Em novembro do ano passado, a formação de plataformas de gelo no mar aconteceu no ritmo mais lento jamais registrado. Essas plataformas são usadas pelos ursos para caçar focas. As mudanças climáticas que afetam o habitat desses grandes mamíferos também interferem em relações complexas, menos perceptíveis a olho nu. Mas transformações que acontecem na diminuta escala dos mosquitos já estão causando estragos em todo o planeta. Fazem parte de um amplo repertório de consequências do aquecimento global para a saúde humana.

O nexo

Há 18 anos, o vínculo entre as mudanças climáticas e a saúde foi declarado um consenso científico pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). Em 1990, a relação ainda não era tão clara. O IPCC fora criado apenas dois anos antes pelas Nações Unidas. O Painel, atualmente formado por 195 cientistas, recebe contribuições de milhares de pesquisadores ao redor do mundo. “O IPCC acompanha todos os estudos publicados sobre as mudanças climáticas e compila esse conhecimento em relatórios com o objetivo de subsidiar os governos na tomada de decisões”, explica Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima.

A primeira tarefa do IPCC foi reunir evidências que convencessem a comunidade internacional de algo que já vinha sendo estudado desde o século 19: a relação entre o aumento das temperaturas no planeta e as atividades humanas. Em 1896, o sueco Svante Arrhenius publicou um trabalho seminal – pelo qual ganhou o prêmio Nobel de química – em que mostrou que a queima de combustíveis fósseis, como carvão e petróleo, liberava gás carbônico, aquecendo a atmosfera terrestre. A metáfora do “efeito estufa” foi criada nessa época para explicar o comportamento de gases capazes de reter calor tal qual o vidro em uma estufa. Rittl destaca a importância de pesquisas que conseguem retraçar milênios de história a partir da análise da composição de camadas de gelo e troncos de árvores, mostrando quais eram os gases prevalentes no meio ambiente em cada período. Em paralelo, estações meteorológicas em todo o planeta vão indicando, ano após ano, alta nas temperaturas médias registradas no globo.

Na segunda metade do século passado, acumularam-se evidências de que a partir da Revolução Industrial houve um expressivo aumento na concentração dos chamados gases do efeito estufa (além do dióxido de carbono, metano, clorofluorcarbonetos, óxido nitroso, etc.). Desde 1880, a temperatura terrestre aumentou 0,8o C, segundo a NASA, a agência espacial dos Estados Unidos. Dois terços desse aumento aconteceram a partir de 1975, em um ritmo que variou de 0,15o C a 0,2o C a cada década. “O aumento da temperatura provoca o derretimento mais acelerado das massas de gelo, o que leva à elevação dos níveis dos oceanos. Mas a mudança também causa eventos climáticos extremos. Assistimos à intensificação seja de chuvas e tempestades, seja de secas e estiagens. As consequências para os seres humanos estão sendo sentidas”, resume Rittl.

O segundo relatório do IPCC, de 1995, já explicava que as mudanças no clima podem afetar a saúde humana tanto de forma direta (como nas mortes causadas por ondas de calor e de frio, furacões, inundações e incêndios florestais, por exemplo) quanto de maneira indireta, quando alterações ambientais têm repercussões capazes de modificar padrões de incidência de certas doenças, ou mesmo impactar a disponibilidade e a qualidade de comida e de água. Mas foi em 2001 que o tema entrou definitivamente na agenda. “Acima de tudo, a mudança climática vai aumentar ameaças à saúde humana, especialmente nas populações de baixa renda, predominantemente nos países tropicais e subtropicais”, alertou o terceiro relatório do IPCC, com 1.166 menções à saúde, três vezes mais do que o documento anterior.

Desde então, o nexo entre clima e saúde foi reforçado. Em 2004, a Organização Mundial da Saúde (OMS) conferiu às mudanças climáticas o status de fator de risco quantificável, assim como problemas investigados há muito mais tempo pela epidemiologia, como deficiência de vitaminas, colesterol alto e tabagismo. Dez anos depois, foi possível divulgar os primeiros números graças aos avanços nos modelos estatísticos. Separar o joio do trigo é o diferencial dessas complexas equações, que levam em conta dados ambientais, socioeconômicos e sanitários.

Levando em consideração fatores que também impactam a saúde, como PIB e escolaridade, a OMS estima que as mudanças climáticas serão a causa principal de 250 mil mortes anuais entre 2030 e 2050. Esses cinco milhões de óbitos, porém, são uma projeção considerada conservadora pelo próprio organismo, já que decorrem de apenas quatro problemas de saúde para os quais há modelos globais: desnutrição infantil (95 mil mortes por ano), malária (60 mil), diarreia em menores de 15 anos (48 mil) e exposição de idosos às ondas de calor (38 mil). “Para desenvolver um modelo climático é preciso dispor de uma série histórica com medidas da temperatura, velocidade do vento, umidade relativa do ar, pressão atmosférica, etc. Para fazer as previsões de doenças, porém, é preciso dispor de outras informações. Os bancos de dados de mortalidade são os mais confiáveis. Por isso, até agora, as previsões se limitam a projetar mortes e não adoecimentos”, explica Sandra Hacon, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz). Em 2016, um novo estudo publicado no periódico The Lancet concluiu que 529 mil adultos podem morrer até 2050 em consequência da redução na disponibilidade de comida decorrente das mudanças climáticas.

No Brasil

Mesmo com números alarmantes, especialistas se preocupam com o fato de a saúde ainda não ser uma vertente importante da cobertura da mídia sobre o aquecimento global. Mas os esforços para que essa relação seja cada vez mais conhecida estão crescendo. Lançado em 2016, o projeto Countdown, promovido pelo Lancet, pretende monitorar as evidências que relacionam mudanças climáticas e saúde humana até 2030. Para atuar como uma espécie de IPCC da saúde, a revista envolveu 27 instituições acadêmicas espalhadas pelos cinco continentes, além da ONU e de outras agências intergovernamentais. Na última edição, lançada no final de novembro de 2018, foram divulgados os 41 indicadores que serão acompanhados pelos próximos anos. “A saúde das nações nos próximos séculos depende, fundamentalmente, da resposta às mudanças climáticas”, alerta o relatório.

O Brasil foi um dos nove países que mereceu um resumo especial, escrito por pesquisadores da Fiocruz, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Tanto no relatório global quanto no brasileiro, o problema das ondas de calor mereceu grande destaque. Sandra Hacon, que foi uma das editoras do texto, explica que uma onda de calor é quando a temperatura se mantém, por alguns dias, acima da média histórica dos últimos 30 anos. “Esse fenômeno, que está se tornando mais frequente, provoca reações no organismo humano”, diz. Estudos mostram que essas ondas estão associadas à piora das condições cardíacas e problemas no fígado decorrentes da desidratação. No ano passado, foram a causa de 1,5 mil mortes na França, que registrou o segundo verão mais quente de sua história. Contudo, o exemplo mais extremo aconteceu no verão de 2003, quando 44 mil pessoas morreram na Europa. O relatório do Lancet mostra que as ondas de calor estão se espalhando. Entre 2000 e 2017, 157 milhões de pessoas passaram a ficar expostas a elas. No Brasil, os últimos dados são de 2015 e mostram que as ondas de calor foram mais longas do que em anos anteriores. A temperatura do verão brasileiro vem ultrapassando a média mundial, e chegou a um pico de 1o C a mais naquele ano.

A variação da temperatura foi responsável por 3,5% das internações hospitalares no país no período que vai de 2000 a 2015. O achado é de um estudo publicado no ano passado na revista científica Environment International citado no relatório brasileiro. Os pesquisadores coletaram dados de internações e variações na temperatura de 1.814 municípios. Os problemas respiratórios foram os mais frequentes. As crianças abaixo de cinco anos, as mais afetadas: houve o dobro de internações nessa faixa etária em comparação a idosos e cinco vezes mais do que em adultos. As cidades mais atingidas ficam no Centro-Oeste e no interior do Nordeste do país.

Pequenas variações nas temperaturas e nos padrões de chuvas podem resultar em grandes mudanças para a saúde pública, alerta o Lancet.  Exemplo disso é a dengue. A combinação de calor e chuva que favorece o ciclo de vida dos vetores da doença, os mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, está presente em mais lugares. Além disso, esses insetos viram sua capacidade vetorial aumentar nesta década devido à mudança de temperatura. Isso quer dizer que eles têm tido mais sucesso em transmitir a dengue para humanos. O ápice desse processo se deu em 2016, mas a tendência deve continuar, de acordo com os pesquisadores. Desde que a doença começou a ser monitorada, em 1950, houve um aumento de 9,1% na capacidade vetorial do Aedes aegypti e de 11,1% na do albopictus. No Brasil, esse aumento foi de 5,8% e 11,2%, respectivamente.

O relatório brasileiro inclui um alerta sobre os impactos para a saúde da destruição da Amazônia. Em 2016, metade do total das emissões brasileiras de gases de efeito estufa teve origem no desmatamento da maior floresta tropical do mundo, que tem 60% de sua área em território nacional. A pecuária tem sido o principal motor desse processo. Entre 1990 e 2016, a criação de gado cresceu 6,7% ao ano na Amazônia brasileira, quando o crescimento médio no resto do país ficou bem abaixo disso, em 0,57%. Além disso, as queimadas geram internações hospitalares devido a problemas circulatórios e respiratórios, especialmente entre pessoas acima de 60 anos e crianças abaixo de cinco.

Hoje, os cientistas estimam que entre 15% e 17% da área da floresta foi desmatada. Projeções indicam que a região amazônica pode ficar de 1º C a 2º C mais quente do que a média mundial no período que vai de 2060 a 2080. “O aumento de temperatura vai exacerbar os efeitos da poluição atmosférica no organismo humano”, diz Sandra.

De acordo com ela, o SUS não tem se mostrado preparado para lidar com os problemas relacionados às mudanças climáticas. A começar pela coleta de informações. A notificação compulsória de doenças respiratórias no período de queimadas só foi implementada em Rio Branco, no Acre, nota a pesquisadora, que prepara o texto sobre saúde da  4ª Comunicação Nacional do Brasil à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima . “Estamos elaborando modelos estatísticos mais robustos, vamos trabalhar com febre amarela, dengue, leishmaniose, doenças cardiovasculares e respiratórias. Mas ainda é pouco. Para ampliar o leque, precisamos de mais informações”, diz. E questiona: “Os profissionais dos serviços de saúde precisam ser capacitados para registrar as informações, precisam compreender a importância de fazer esse registro, que é fundamental para que avancemos no diagnóstico dos impactos das mudanças climáticas. Mas estamos assistindo a um sucateamento da atenção básica. Como avançar diante dos retrocessos?”

calor

Pane nos sistemas

Um artigo publicado em janeiro deste ano no periódico New England Journal of Medicine (NEJM) destaca o impacto do aquecimento global sobre os sistemas de saúde. Isso porque os países terão de lidar, a um só tempo, com um aumento na carga de doenças (e, consequentemente, com o incremento da demanda por atendimentos e tratamentos) e com problemas de infraestrutura.

Isso ficou claro no ano passado, durante o grande incêndio florestal que castigou a costa oeste dos Estados Unidos em novembro. O hospital Feather River foi atingido pelo fogo, colocando pressão sobre outras unidades de saúde. No hospital da Universidade da Califórnia, que normalmente admite dois pacientes por dia, chegaram 12 pessoas extremamente feridas de uma só vez. “A disrupção do sistema climático, outrora uma preocupação de ordem teórica, está acontecendo diante dos nossos olhos – com um custo crescente cobrado por inundações, secas, incêndios florestais e aumento dos casos de infecções transmitidas por insetos”, resumiu o editorial do NEJM. Além de 85 mortes decorrentes do incêndio, o saldo negativo também incluiu o fechamento temporário do Feather River, anunciado em meados de fevereiro deste ano.

Mas o que se pode fazer diante do aquecimento global? A primeira linha de ação diz respeito à redução da emissão dos gases causadores do efeito estufa e é objeto de grandes negociações internacionais, como o Acordo de Paris. Lançado em 2015, o tratado tem como meta evitar que interferências humanas sobre o sistema climático global ultrapassem os chamados limites perigosos. O compromisso, que já foi assinado por 185 países, entre eles o Brasil, fixou o aumento da temperatura até 2100 “bem abaixo” dos 2o C e, se possível, a 1,5o C em comparação com os níveis pré-industriais.

Mas tão importante quanto a limitação desses poluentes, conhecida como mitigação, é a adaptação para lidar com as mudanças climáticas. Isso porque os efeitos adversos do aquecimento serão sentidos mesmo se as emissões de gases do efeito estufa cessarem hoje. Só o dióxido de carbono pode ficar na atmosfera por muitos séculos. “As atuais políticas de saúde não foram criadas à luz das mudanças climáticas. Precisam ser modificadas”, diz o editorial do NEJM.

Em 2008, a Organização Mundial da Saúde aprovou uma resolução em que os países-membros se comprometeram a proteger a saúde humana das mudanças climá-ticas. “O risco apresentado diante da intensidade do evento e das vulnerabilidades, além de comprometer seriamente os resultados já obtidos na saúde pública, pode ultrapassar a capacidade de resposta e recuperação do Sistema Único de Saúde”, alertou, por sua vez, um relatório da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) em 2009.

Naquele ano, foi lançada por aqui uma Política Nacional sobre Mudança do Clima. Nela, o Brasil estabeleceu o compromisso nacional voluntário de reduzir as emissões de gases do efeito estufa entre 36,1% e 38,9% até 2020. “A movimentação do país – que fazia parte do grupo de nações em desenvolvimento, para o qual não havia metas de redução – foi fundamental para o avanço das negociações que levaram ao Acordo de Paris”, lembra Carlos Rittl. E a saúde foi uma das quatro áreas contempladas (as outras eram indústria, mineração e transporte).

Em 2013, foi lançado o Plano Setorial da Saúde para Mitigação e Adaptação à Mudança do Clima. Orçado em R$ 767,5 milhões, visava fortalecer a capacidade de resposta dos serviços de saúde a partir de quatro eixos de intervenção: vigilância; atenção; promoção e educação; e pesquisa. O documento tinha vigência até 2015 e deveria ser revisto de dois em dois anos, até 2020, quando deveria ser implementado por estados e municípios. A Poli perguntou ao Ministério da Saúde se havia um balanço da implementação do Plano e se o documento tinha sido revisto ou atualizado. Através de sua assessoria de imprensa, a Pasta respondeu que as evidências científicas e ações propostas no documento de 2013 serviram de base para a elaboração, em 2016, do caderno setorial da saúde no âmbito do Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima, e que este é o documento de referência mais atual do Ministério. Ainda de acordo com a Pasta, a revisão do Plano Nacional está prevista para acontecer em 2019.

No âmbito internacional, o elo entre saúde e mudanças climáticas está mais forte do que nunca – apesar de o contexto não ser favorável de muitas formas. Em 2017, ao mesmo tempo em que o presidente Donald Trump anunciou a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, os médicos de lá responderam com a criação de um consórcio para debater a saúde e o clima que reúne 500 mil profissionais. Um ano antes, foi fundada a Aliança da Saúde para a Mudança Climática no Reino Unido, congregando entidades profissionais e instituições de saúde. Aliás, o NHS, sistema público de saúde do Reino Unido, já conseguiu reduzir suas emissões de gases do efeito estufa em 11% entre 2007 e 2015.

“Hoje, somando todas as contribuições voluntárias de redução de emissões aprovadas pelos países que já ratificaram o Acordo de Paris, a gente chegaria ao final do século com emissões em torno de 2,7o C em comparação com níveis pré-Revolução Industrial”, diz Carlos Rittl. Como desde 2017 as emissões de gases de efeito estufa voltaram a subir (a previsão é que atinjam o maior recorde em seis décadas em 2019), não estão descartados cenários piores, com altas de 3o C, 4o C e até 5o C em 2100.

Em outubro do ano passado, o IPCC lançou um relatório para mostrar que há grandes diferenças mesmo entre os cenários ‘otimistas’ do Acordo. Segundo o documento, que afirma que a janela para atingir a meta de 1,5o C está se fechando, um aumento de 2o C apresenta maiores riscos para a saúde humana, com mais mortes e doenças relacionadas às mudanças climáticas, como aquelas transmitidas por vetores. O Aedes aegypti e albopictus – que transmitem além da dengue, zika, chikungunya e febre amarela – são citados como exemplo no relatório. Os cientistas afirmam que a diferença de meio grau é suficiente para aumentar consideravelmente o número desses insetos, além de franquear ao Aedes ainda mais territórios compatíveis com suas necessidades. Em 2020, os países terão oportunidade de rever suas metas. “Para cima”, frisa Rittl.

Em dezembro passado, a OMS lançou, com entidades que representam cinco milhões de médicos, enfermeiros e outros profissionais espalhados por 120 países, um relatório especial sobre a saúde na Conferência das Partes da Convenção do Clima das Nações Unidas, a COP 24. Nele, o setor é considerado estratégico para pressionar pelo alcance das metas de redução na emissão de gases do efeito estufa presentes no Acordo de Paris. Até por razões econômicas. “É mais barato implantar as medidas de mitigação do que arcar com os gastos para tratar doenças”, destaca o documento, que afirma que o tratamento de enfermidades relacionadas à poluição do ar custará duas vezes mais do que a transição para um modelo de desenvolvimento alternativo aos combustíveis fósseis.

Fonte: EcoDebate

Cientistas têm 99% de certeza que humanos causaram o aquecimento global

ão é novidade que o homem tem uma grande parcela de culpa em relação ao aquecimento global e a mudança climática. De acordo com estudo publicado na revista Nature Climate Change, as certezas desse fato aumentaram e acredita-se que há uma chance em um milhão de que a mudança climática está sendo causada por qualquer outro fator além da ação dos seres humanos.

Os cientistas chegaram à conclusão a partir da análise de uma base de dados de satélites que estão coletando informações há mais de 40 anos. O trabalho foi pensado para investigar três conjuntos de dados anteriores, inclusive o conhecimento presente no relatório Charney. Publicado em 1979, o estudo feito pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos foi um dos primeiros estudos sobre dióxido de carbono e mudança climática.

No estudo, os pesquisadores contam que atingiram o “padrão ouro” no nível de certeza de que os humanos são responsáveis pelas mudanças climáticas e o aquecimento global. “A humanidade não pode ignorar esses sinais claros”, conclui o relatório.

Outras pesquisas já comprovaram que o planeta está esquentando e que os desastres naturais vêm se tornando mais comuns. Isso acontece porque, entre outras coisas, os humanos estão queimando combustíveis fósseis e cortando árvores que absorvem CO2 — dessa forma, os gases ficam “presos” em nossa atmosfera, que fica muito quente. O derretimento das calotas polares, o aumento do nível do mar e das temperaturas do globo são algumas das outras mudanças perceptíveis diariamente.

O último relatório publicado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reforça a necessidade de as modificações acontecerem o quanto antes. Segundo a organização, caso as temperaturas continuem subindo, o planeta Terra poderá passar por consequências ainda mais devastadoras.

Fonte: Galileu

Passos do Acordo de Paris

O Brasil não pode e não deve ficar fora do esforço mundial para a contenção do aquecimento global

A 24.ª Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (COP-24), realizada em Katowice, na Polônia, obteve êxito em sua maior empreitada, concluindo o Acordo do Programa de Trabalhos de Paris, que é o “livro de regras” a respeito do funcionamento do Acordo de Paris, que tenta conter o aquecimento global em 1,5°C até o final do século. Trata-se de um passo importante para a implantação do acordo, assinado há três anos por 195 países e que é decisivo para o futuro do planeta.

“Estamos aqui para articular a ação global contra mudanças climáticas. Nenhum governo sozinho pode resolver esse problema. É hora de dar vida ao Acordo de Paris”, declarou o presidente da COP-24, Michal Kurtyka.

Dada a gravidade do assunto e das críticas ao acordo feitas por alguns países, especialmente pelos Estados Unidos, havia forte apreensão quanto ao resultado da COP-24. Ao fim, depois de estender a duração da cúpula por mais um dia, conseguiu-se chegar ao texto final.

O “livro de regras” descreve a forma como os países devem medir as emissões de gases com efeito estufa e como devem reportá-las ao resto do mundo. Também obriga cada país a revelar o que está fazendo para reduzir as emissões.

Alguns pretendiam que a COP-24 ampliasse as metas de redução das emissões nos próximos anos. No entanto, não houve acordo a esse respeito. Também não foi aprovada a proposta brasileira para criar um mecanismo de incentivo de ações da iniciativa privada relativas à diminuição do aquecimento global.

No texto final da COP-24 foi incluída uma referência ao último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), objeto de controvérsia no evento. Estados Unidos, Rússia, Arábia Saudita e Kuwait rejeitaram as conclusões do estudo. O documento estima que, se for mantido o ritmo de emissões, o planeta poderá, por volta de 2040, já ter atingido 1,5°C de aquecimento. Até o final do século, a temperatura poderá subir até 3°C. O estudo é um forte alerta para a importância de conter o aquecimento no limite pretendido pelo Acordo de Paris.

Outro tema discutido na COP-24 foi o financiamento das ações que podem reduzir o aquecimento, como a proteção de ecossistemas que absorvem gases causadores do efeito estufa, além do fortalecimento de iniciativas de adaptação e de redução da vulnerabilidade aos efeitos das mudanças climáticas. Em 2015, fixou-se a meta de doação de pelo menos US$ 100 bilhões por ano de países desenvolvidos para as nações de menor renda. No início da COP-24, o Banco Mundial anunciou um plano de investimento de US$ 200 bilhões para financiar ações de combate à mudança climática, como projetos de agricultura inteligente e a criação de sistemas de proteção social relacionada aos efeitos da mudança climática.

O Brasil apresentou no evento 42 projetos de empresas e da sociedade civil que promovem baixas emissões de CO2. “Isso é muito inovador. Não vimos nenhum país trabalhando nessa linha, com número de casos tão vasto e tão diverso”, afirmou Thiago Mendes, secretário de Mudança do Clima e Florestas do Ministério do Meio Ambiente. O governo brasileiro também apresentou dados referentes à redução do desmatamento no País dos últimos dez anos. “Mesmo tendo variações, caímos de mais de 20 mil m² (desmatados) para 7,9 mil m² por ano”, disse Mendes.

Na COP-24, definiu-se que o Chile sediará a próxima cúpula, uma vez que o Brasil desistiu de abrigar o evento. Na ocasião, o então presidente eleito Jair Bolsonaro disse que “houve participação minha nessa decisão” de retirar a candidatura do País. A possibilidade de o País sair do acordo do clima chegou a ser mencionada.

É preciso pôr em prática o Acordo de Paris. Além de ser decisivo para as próximas gerações, o acordo traz uma agenda de oportunidades para o País, como afirmaram recentemente 180 empresas e entidades ligadas ao agronegócio e à defesa do meio ambiente. O Brasil não pode e não deve ficar fora do esforço mundial para conter o aquecimento global.

Fonte: O Estado de S.Paulo

Relatório aponta conexões diretas entre eventos extremos e mudança do clima

Clima alterado por ação humana teve ligação com diversas secas, inundações e ondas de calor em 2017, segundo estudo

As mudanças climáticas causadas pela ação humana são a causa mais provável das inundações e secas severas, aquecimento anormal dos oceanos e ondas de calor extremas observadas em várias partes do mundo em 2017, de acordo com um novo estudo publicado nesta segunda-feira (10) pela Sociedade Meteorológica Americana (AMS, na sigla em inglês).

O relatório “Explicando os Eventos Extremos de 2017 na Perspectiva das Mudanças Climáticas” reúne 17 análises feitas por 120 cientistas de 10 países, com revisão por pares, sobre as condições meteorológicas extremas observadas em seis continentes e nos oceanos Atlântico e Pacífico.

A lista de eventos climáticos extremos provavelmente causados pelas mudanças climáticas induzidas pelo homem inclui ondas de calor na Europa, China e Coréia do Sul, secas nos Estados Unidos, fortes chuvas na América do Sul e Bangladesh e seca severa na África Oriental. Segundo o estudo, uma onda de calor marinha na costa da Austrália seria “virtualmente impossível” sem a mudança climática causada pelo homem.

Evidência científica

Em entrevista coletiva, um dos autores do estudo, Martin Hoerling, meteorologista da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (Noaa, sigla em inglês), afirmou que o conjunto de análises reforça a conexão estreita entre as mudanças climáticas e os eventos climáticos extremos que vêm sendo registrados. Segundo ele,

A evidência científica apoia com confiança que a atividade humana está influenciando uma variedade de eventos extremos atualmente, com grandes impactos econômicos ao redor do mundo.

Para Hoerling, os resultados confirmam as conclusões do primeiro relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima das Nações Unidas (IPCC), lançado em 1990, que já “previa mudanças radicais no padrão climático observado no século 20.”

O estudo envolveu o uso de observações históricas e simulações em modelos matemáticos com o objetivo de determinar até que ponto as mudanças climáticas podem ter influenciado eventos extemos específicos.

Mensagem da ciência

O relatório está em sua sétima edição e, pela segunda vez, os cientistas identificaram uma série de eventos meteorológicos que “não poderiam ter acontecido sem o aquecimento do clima por meio de mudanças induzidas por humanos”. Segundo os autores, 70% dos 146 resultados de pesquisa publicados no relatório identificaram uma ligação substancial entre um evento extremo e a mudança do clima.

Jeff Rosenfield, pesquisador da AMS e editor-chefe do Boletim da AMS, que publicou o relatório, afirmou:

Esses estudos de atribuição estão nos dizendo que uma Terra em aquecimento continuou a nos enviar, em 2017, eventos climáticos novos e mais extremos. A mensagem da ciência é que nossa civilização está cada vez mais fora de sincronia com nosso clima em mutação. 

De acordo com o estudo, chuvas extremas registradas entre abril e maio de 2017 no Rio Uruguai – cuja inundação causou prejuízos estimados em US$ 102 milhões –, têm o dobro de probabilidade de ocorrência ligada às alterações do clima.

Ondas de calor

As mudanças climáticas triplicaram as chances de ocorrência de ondas de calor como as de 2017 na Europa e na região do Mar Mediterrâneo, em comparação à probabilidade estimada em 1950. Segundo o estudo, de agora em diante, as chances de ocorrência desse tipo de onda de calor é de 10% a cada ano.

Durante o verão do ano passado, na Itália e nos Bálcãs houve temperaturas de 40 °C por vários dias. Recordes de temperatura foram quebrados no sul da França, na Córsega e na Croácia, com temperaturas noturnas acima de 30 °C.

As ondas de calor recorde registradas em 2017 no centro e no leste da China já foram raras, segundo o relatório, mas agora a previsão é que elas voltem a ocorrer pelo menos uma vez a cada cinco anos, em decorrência das mudanças climáticas. Durante a onda de calor, muitas estações meteorológicas registraram 15 a 25 dias com temperaturas acima de 35 °C, com algumas tendo visto temperaturas recordes em julho, como um novo recorde de 40,9 °C.

A seca extrema registrada em 2017 no norte dos Estados Unidos foi cinco vezes mais provável por conta das mudanças climáticas, que teriam alterado o equilíbrio entre as chuvas e a evapotranspiração da umidade do solo. A seca provocou incêndios florestais generalizados e comprometeu os recursos hídricos, destruindo propriedades e afetando negativamente a atividade agropecuária.

Chuvas intensas

O nordeste do Bangladesh sofreu inundações em 2017 com chuvas intensas de seis dias antes do início das monções. Nesse caso, a probabilidade de ligação com as mudanças climáticas é de até 100%, segundo o relatório.

As chuvas intensas que destruíram milhares de casas no sudeste da China em junho do ano passado também tiveram o dobro de chances de ocorrência por conta das mudanças climáticas, segundo o estudo. Essas chuvas causaram a 34 mortes e deixaram 800 mil desabrigados. Cerca de 32 mil casas desmoronaram e 41 mil foram gravemente danificadas.

As chuvas que causaram enchentes no Peru em março de 2017 foram influenciadas por um ciclo natural de aquecimento das águas do Oceano Pacífico, segundo o estudo, mas as mudanças climáticas induzidas pela ação humana aumentaram as chances de ocorrência desses eventos extremos em pelo menos uma vez e meia.

Temperatura do mar

A temperatura extremamente alta da superfície do mar na costa da África dobrou a probabilidade de ocorrência das secas extremas observadas no leste do continente em 2017. Por conta dessas secas, 6 milhões de pessoas enfrentaram escassez de alimentos na Somália. As análises mostraram que o aquecimento extremo do oceano não poderia ter ocorrido com o clima global que existia antes da Revolução Industrial.

No Mar da Tasmânia, ao leste da Austrália, os recordes de temperatura da superfície do mar registrados em 2017 e 2018 “seriam virtualmente impossíveis sem o aquecimento global” induzido pela ação humana, segundo o estudo.

O estudo também mostrou que os recordes de perda de gelo no Mar do Ártico, decorrente das mudanças climáticas, influenciaram o déficit recorde de chuvas em grande parte da Europa ocidental em dezembro de 2016. A chuva total e a queda de neve foram as menores em 116 anos.

Fonte: Direto da Ciência

Aquecimento global: 7 gráficos que mostram em que ponto estamos

Representantes de quase 200 países estão reunidos na Polônia para conversar sobre mudança climática – com o objetivo de dar vida nova ao Acordo de Paris.

A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que a meta do Acordo de Paris, assinado em 2015, de limitar o aumento da temperatura média global “abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais” corre o risco de não ser alcançada porque as principais economias, incluindo os Estados Unidos e a União Europeia, estão aquém de suas promessas.

Ao mesmo tempo, os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) – principal órgão internacional sobre aquecimento global – argumentaram no mês passado que o compromisso de 2°C do Acordo de Paris não seria suficiente. Na verdade, o aumento da temperatura média global precisava ser mantido abaixo de 1,5 °C em relação ao período pré-industrial.

Mas, afinal, o quão quente o planeta ficou e o que podemos fazer em relação a isso?

1. O mundo está ficando mais quente

O planeta está agora quase um grau mais quente do que estava antes do processo de industrialização, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

A temperatura média global nos primeiros 10 meses de 2018 ficou 0,98ºC acima dos níveis de 1850-1900, segundo cinco relatórios de dados globais mantidos de forma independente.

Anos em comparação à média do século 20

Os 20 anos mais quentes foram registrados nos últimos 22 anos, sendo que 2015 a 2018 ocupam os quatro primeiros lugares do ranking, diz a OMM.

Se essa tendência continuar, as temperaturas poderão subir de 3 a 5 graus até 2100.

Um grau pode não parecer muito, mas, segundo o IPCC, se os países não tomarem uma atitude, o mundo enfrentará mudanças catastróficas – o nível do mar vai subir, a temperatura e a acidez dos oceanos vão aumentar e a nossa capacidade de cultivar alimentos como arroz, milho e trigo estaria ameaçada.

2. O ano de 2018 bateu todos os tipos de recordes

Neste ano foram registradas temperaturas altas em diversos lugares do mundo em meio a um período de clima quente excepcionalmente prolongado.

Grandes porções do hemisfério norte presenciaram uma sucessão de ondas de calor que atingiu Europa, Ásia, América do Norte e norte da África – resultado de fortes sistemas de alta pressão que criaram uma “redoma de calor”.

No período indicado no mapa abaixo (maio a julho de 2018), os pontos amarelos mostram onde o recorde de calor foi quebrado em determinada data, os rosas apontam os lugares mais quentes no mês em questão, e os vermelhos escuros representam os locais mais quentes desde que os registros começaram.

As temperaturas mais altas destas regiões

Datas

Fonte: Robert A. Rohde/Berkeley Earth. Mapa criado em Carto

A preocupação é que essas ondas de calor e frentes frias estejam sendo bloqueadas – represadas em regiões por longos períodos – com maior frequência devido às mudanças climáticas, levando a eventos climáticos extremos.

3. Não estamos no caminho certo para atingir as metas de mudança climática

Se somarmos todas as promessas para reduzir as emissões de gases que provocam efeito estufa pelos países que assinaram o Acordo de Paris, o mundo ainda esquentaria em mais de 3°C até o fim deste século.

Média de aquecimento global projetada para 2100Presentational white space

Nos últimos três anos, os climatologistas mudaram a definição do que acreditam ser o limite “seguro” da mudança climática.

Por décadas, os pesquisadores argumentaram que o aumento da temperatura global devia ser mantido abaixo de 2°C até o fim deste século para evitar consequências mais graves.

Os países que assinaram o acordo de Paris se comprometeram a manter as temperaturas “bem abaixo dos 2°C em relação aos níveis pré-industriais e a buscar esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C”.

Mas os cientistas concordam agora que, na verdade, precisamos manter os aumentos de temperatura abaixo de 1,5°C.

4. Os maiores emissores são a China e os EUA

Os países que emitem mais gases de efeito estufa são, de longe, a China e os EUA. Juntos, eles são responsáveis por mais de 40% do total global de emissões, de acordo com dados de 2017 do Centro Comum de Pesquisa da Comissão Europeia e da Agência Holandesa de Avaliação Ambiental (PBL).

Os maiores emissores de gases de efeito estufa

A política ambiental dos EUA mudou sob o governo de Donald Trump, que adotou uma agenda pró-combustíveis fósseis.

Depois de tomar posse, o presidente americano anunciou a retirada do país do Acordo de Paris.

Na ocasião, Trump disse que queria negociar um novo acordo “justo” que não prejudicasse as empresas e trabalhadores americanos.

5. As áreas urbanas são particularmente ameaçadas

Quase todas as cidades – 95% delas – que enfrentam riscos climáticos graves estão na África ou na Ásia, segundo um relatório da Verisk Maplecroft, consultoria de estratégia e risco.

E são as cidades com crescimento mais rápido que estão correndo mais risco, incluindo megacidades como Lagos, na Nigéria, e Kinshasa, na República Democrática do Congo.

Cerca de 84 das 100 cidades que mais crescem no mundo enfrentam riscos “extremos” de aumento das temperaturas e de fenômenos climáticos extremos.

Cidades em rápida expansão enfrentam piores riscos climáticos

6. O gelo do Ártico também está ameaçado

A extensão do gelo do mar do Ártico diminuiu nos últimos anos. Em 2012, chegou ao nível mais baixo já registrado.

Gelo do mar Ártico diminuiu

As geleiras vêm sendo reduzidas há décadas, com a aceleração do derretimento desde o início dos anos 2000, de acordo com o Comitê de Auditoria Ambiental do Parlamento do Reino Unido.

O Oceano Ártico pode ficar sem gelo no verão antes de 2050, a menos que as emissões sejam reduzidas, acrescenta o comitê.

A OMM descobriu que a extensão do gelo do Ártico em 2018 estava muito menor do que o normal.

7. Todo mundo pode fazer mais para ajudar

Enquanto os governos precisam implementar grandes mudanças, os indivíduos também podem fazer sua parte.

Os cientistas dizem que todos nós temos de adotar “mudanças rápidas, abrangentes e sem precedentes” no nosso estilo de vida, a fim de evitar danos mais severos ao clima.

O IPCC diz que precisamos comprar menos carne, leite, queijo e manteiga; comer mais alimentos sazonais de origem local – e desperdiçar menos; dirigir carros elétricos, mas caminhar ou pedalar distâncias curtas; pegar trens e ônibus em vez de aviões; substituir viagens de negócios por videoconferências; usar varal em vez de máquina de secar roupa; aprimorar o isolamento térmico das casas; demandar produtos de consumo com baixo teor de carbono.

Mas a melhor maneira de reduzir seu impacto ambiental no planeta é modificando sua dieta, de modo a incluir menos carne – de acordo com estudos recentes.

Carne bovina tem maior impacto climático

Os cientistas dizem que devemos consumir menos carne por causa das emissões de carbono que essa indústria produz, assim como outros impactos ambientais negativos.

Um estudo recente publicado na revista científica Science destacou uma enorme variação no impacto ambiental na produção de um mesmo alimento.

O gado de corte criado em terras desmatadas, por exemplo, produz 12 vezes mais emissões de gases de efeito estufa do que os criados em pastagens naturais.

Essencialmente, o estudo mostra que mesmo a carne com o menor impacto ambiental ainda gera mais emissões de gases de efeito estufa do que o cultivo de hortaliças e cereais de maneira sustentável.

Mas, além de alterar nossas dietas, a pesquisa indica que as práticas agrícolas precisam mudar significativamente para beneficiar o meio ambiente.

Fonte: BBC Brasil

Acordo de Paris sobre o clima: os compromissos dos países

Aprovado no fim de 2015, em vigor menos de um ano depois e ratificado por 183 países, o Acordo de Paris traçou o caminho para um mundo sustentável através de mudanças drásticas na economia global, mas sem estabelecer objetivos vinculativos.

– A meta –

O objetivo do Acordo é conter o aumento da temperatura “muito abaixo de 2ºC” em relação à era pré-industrial e “continuar se esforçando para limitar este aumento a 1,5ºC”, embora muitos especialistas tenham dúvidas de que essa meta possa ser alcançada.

Limitar o aumento a 2ºC ou 1,5°C é um objetivo muito ambicioso, dado o nível atual de emissões de gases de efeito estufa. Os especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estimam que é necessário reduzir 40% a 70% das emissões entre 2010 e 2050 para permanecer abaixo de 2°C.

O Acordo não especifica metas obrigatórias para cada país, como faz o Protocolo de Kyoto, de modo que cada nação deve determinar seus próprios objetivos de redução de emissões para 2025 ou 2030.

A busca, durante a segunda metade do século, de um equilíbrio entre a emissão e absorção de gases do efeito estufa é interpretado por alguns como o fim das energias fósseis (carvão, petróleo, gás), enquanto outros miram na captação de CO2 (técnica que ainda não está disponível) para continuar a explorar tais energias.

– O calendário –

Os planos de ação nacionais evitariam os cataclísmicos +4ºC/5°C previstos para um cenário de ausência de políticas climáticas, mas colocariam o planeta em uma trajetória ainda perigosa de +3°C.

Daí a necessidade de reforçar esses compromissos. Um amplo balanço, em uma base voluntária, está previsto para 2018.

As ONGs estão pressionando para que o maior número possível de países cumpram e revisem para cima suas ambições a partir de 2020, especialmente levando em conta que as tecnologias “verdes” serão mais acessíveis.

No Acordo, a primeira revisão obrigatória está prevista para 2025, data considerada tarde demais para respeitar a meta de 2°C.

Os países também devem comunicar em 2020 sua estratégia de desenvolvimento de baixa quantidade de dióxido de carbono para 2050.

O Acordo de Paris prevê que os países prestem contas das ações programadas e dos seus resultados. É necessário certa flexibilidade para algumas nações, em particular as mais pobres.

Mas as regras específicas de transparência ainda devem ser determinadas. Que informações devem ser incluídas nos planos nacionais e com que grau de detalhamento? Que indicadores devem ser apresentados? Este foi um dos principais temas da conferência COP22 do Marrocos.

A transparência também se aplica à ajuda financeira, e os países desenvolvidos devem comunicar “a cada dois anos” medidas adotadas para auxiliar os países em desenvolvimento.

– Ajuda aos mais pobres:

Em 2009, os países ricos prometeram que ofereceriam uma ajuda que aumentaria até atingir 100 bilhões de dólares em 2020, para financiar infraestruturas energéticas limpas e adaptações aos impactos negativos do aquecimento global.

O texto de Paris estabelece que os 100 bilhões de dólares são apenas um mínimo anual e que será estabelecido um novo objetivo para 2025.

Um roteiro publicado em outubro pela OCDE e cerca de 40 países estima que, sobre a base dos compromissos já anunciados, a ajuda atingiria 67 bilhões por ano em 2020. Em função dos efeitos do estímulo ao investimento privado, os financiamentos passariam de 77 a 133 bilhões de dólares em 2020.

O Acordo de Paris prevê um reequilíbrio entre as ajudas à redução de emissões, majoritárias, e à adaptação aos impactos do aquecimento global. Segundo a OCDE, atualmente apenas 16% da ajuda financeira é destinada à adaptação.

A soma de 100 bilhões de dólares pode ser comparada com os três a quatro bilhões de dólares necessários, segundo o think tank New Climate Economy, para assegurar uma transição para economias de “baixo carbono”, o que só poderá ser alcançado através de uma reorientação maciça das finanças.

Fonte: Istoé

IPCC indica necessidade de redução drástica das emissões até 2040

Para limitar o aumento da temperatura global em 2°C e garantir um clima minimamente estável às futuras gerações, será preciso reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa até 2040 e, a partir daí, retirar carbono da atmosfera em grandes quantidades. Esse é o principal alerta que o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) revelou.

Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e membro do IPCC, explica como o planeta chegou a esse ponto crítico em relação às mudanças climáticas e os efeitos já percebidos no Brasil e no mundo. O cientista aponta também os principais desafios dos acordos globais de clima para conseguir criar uma governança comum e evitar que o termômetro ultrapasse 2°C.

Embora as previsões sejam preocupantes, Artaxo afirma que “a ciência já tem as ferramentas para reduzir essas emissões drasticamente. O grande problema são as decisões políticas, que precisam ser feitas pelos governos de maneira a garantir a sustentabilidade da economia do planeta como um todo nas próximas décadas” Confira a entrevista completa:

Qual é a principal mensagem do novo relatório do IPCC?

A principal mensagem, sem sombra de dúvida, é de que se nós tivermos que limitar o aumento da temperatura em 2°C e se nós quisermos ter um sistema climático minimamente estável para as futuras gerações, temos que mudar radicalmente a maneira como utilizamos os recursos naturais do nosso planeta, em particular, a redução de emissões de combustíveis fósseis e a eliminação do desmatamento em regiões tropicais, em particular, na Amazônia.

Esse carácter de urgência já apareceu em relatórios anteriores do IPCC?

A cada relatório do IPCC, esse cárater de urgência vai se intensificando devido à falta de ações concretas de redução de emissão de gases de efeito estufa. Então, apesar desse caráter de urgência já ter sido mencionado em outros relatórios do IPCC, agora a urgência é muito maior. Por exemplo, as necessidades de redução de emissões imediatas hoje já são muito mais radicais do que apresentadoantes nos demais relatórios do IPCC. Basicamente, agora, a necessidade é de zerar as emissões de gases de efeito estufa até 2040 e, a partir de 2040, retirar CO2 da atmosfera em grandes quantidades com tecnologias que a gente ainda não conhece.

Como a humanidade chegou a este ponto crítico?

Nós chegamos a este ponto crítico devido à ausência de ações tanto de governos, quanto de setores empresariais em contribuir para políticas de redução de emissões de gás de efeito estufa. Há mais de 25 anos o IPCC e vários outros órgãos internacionais deixam muito claro que temos que reduzir emissões o mais rápido possível e da maneira mais drástica possível. Essa questão não foi atendida até o momento e isso faz com que a urgência da redução se torne cada vez mais importante.

Por que você acredita que governos e setor empresarial não se mobilizaram o suficiente?

Eles não se mobilizaram porque evidentemente os interesses econômicos prevalecem sobre os interesses da população. Evidentemente, todos os governos e as grandes empresas sabem, há várias décadas, dos potenciais impactos das mudanças climáticas na sociedade, na economia e no meio ambiente. Os interesses econômicos das companias de petróleo falaram mais alto, no exterior. No do Brasil, os interesses econômicos do agronegócio falaram mais alto do que a necessidade de redução de emissões, que é algo quase unânime na sociedade brasileira em geral, com exceção dos pecuaristas do agronegócio. Portanto, na verdade, isso é o governo respondendo mais aos interesses de pequenos grupos econômicos do que aos interesses da população em geral.

Quais são as principais fontes de emissão de gases de efeito estufa no mundo e, especialmente, no Brasil?

No mundo, globalmente falando, as principais fontes de emissão de gás de efeito estufa são a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento. Hoje, essa proporção está em torno de 90% para queima de combustíveis fósseis e 10% para o desmatamento. No Brasil, as duas maiores fontes de emissões são o desmatamento na Amazônia e o setor agropecuário.

Quais efeitos das mudanças climáticas já são percebidos hoje no mundo e no Brasil?

O aumento médio da temperatura no Brasil, ao longo dos últimos 100 anos, já é de 1.5°C. Algumas regiões como, por exemplo, o Nordeste brasileiro, se aqueceram mais do que isso e outras regiões se aqueceram menos. O aquecimento no Brasil já está causando perturbações no ciclo hídrico, na chuva, onde nós vemos uma redução muito drástica da precipitação no Nordeste e na bacia do rio São Francisco. Há também um aumento da precipitação na bacia Prata e no sul do Brasil. Os eventos climáticos extremos, como chuvas muito pesadas, são cada vez mais frequentes em cidades como São Paulo, onde a quantidade de enchentes e chuvas acima de 100 milímetros por dia aumentaram significativamente. Isso representa uma série de aumento na frequência de desastres naturais, como o deslizamento de encostas, que acontece quase todo ano em Petropólis, por exemplo, e em áreas vulneráveis do Brasil.

Os efeitos das mudanças do clima já são muito bem documentados em todas as regiões brasileiras. No caso da Amazônia, também foi muito forte o efeito das secas de 2005 e 2010 no balanço de carbono da floresta. A floresta acabou emitindo uma quantidade grande de carbono para a atmosfera, como decorrência desses eventos climáticos extremos (secas de 2005 e 2010).

Quais as previsões desses efeitos para os próximos anos?

As projeções são razoavelmente sombrias, para ser honesto com você. Veja, se nós continuarmos a emitir combustíveis fósseis na faixa que estamos emitindo hoje, globalmente, que é de 40 giga toneladas de CO2 por ano, nós podemos esperar, ao longo dos próximos 30 ou 40 anos, um aumento adicional da temperatura de mais uns 3 ou 4°C. Isso iria desestabilizar a produção de alimentos no planeta como um todo, porque causaria alterações no padrão de chuva e redução na produtividade primária da maior parte das culturas. É preocupante, por temos que alimentar 10 bilhões de pessoas em 2050 e o clima pode ser muito menos favorável para a produção agrícola do que o que nós temos hoje.

Existe algum estudo que estime em termos econômicos, em valores, as perdas para a agricultura desse aumento de temperatura?

Sim, a EMBRAPA fez uma série de simulações de potenciais quebras de safra do café, algodão, milho e assim por diante e, obviamente, os prejuízos econômicos são muito significativos. Essas estimativas financeiras ainda têm grandes incertezas porque na verdade ninguém tem bola de cristal para saber como é que, ao longo dos próximos 10, 20 ou 30 anos nós teremos a evolução desse quadro. Mas apesar das incertezas, sabemos e temos certeza de uma coisa: os prejuízos econômicos e sociais vão ser muito grandes.

Se houvesse uma mobilização hoje de todo o setor produtivo para resolver o problema das mudanças climáticas, por onde ele deveria iniciar esse trabalho na área de agricultura e de florestas?

A primeira questão muito simples é eliminar o desmatamento ilegal. Em 2017, o Brasil desmatou cerca de 8 mil km² de florestas primárias. Mesmo nesse cenário catastrófico, ainda estamos destruindo florestas que são cruciais para o nosso próprio futuro. Temos uma necessidade urgente de redução de desmatamento na Amazônia. Além disso, temos que ampliar o uso de energia solar e eólica, em particular no Nordeste brasileiro. Há um potencial de geração de eletricidade muito grande que não é aproveitado adequadamente. Esperamos que o próximo governo brasileiro reverta esse quadro e que implemente medidas que tornem o desenvolvimento socioeconômico do Brasil sustentável.

Qual é o papel de práticas de agricultura de baixo carbono nesse contexto?

Desenvolver uma nova agricultura com baixas emissões de carbono é fundamental. Hoje, a agricultura responde globalmente por cerca de 30% das emissões de gases de efeito estufa, onde a maior parte dessas emissões se dá através do metano que é emitido na criação do gado. A agricultura de baixo carbono é fundamental também para garantir mercados futuros e o desenvolvimento econômico do Brasil.

Se o Brasil se dedicasse a acabar com o desmatamento ilegal e a investir em práticas de agricultura de baixo carbono e em outras fontes de energia (como a bioenergia, solar e eólica) seria suficiente para cumprir seu compromisso no Acordo de Paris?

Isso depende das metas que o país colocar para si mesmo. No caso da NDC brasileira do Acordo de Paris, o país se comprometeu a reduzir em 42% as suas emissões. Entretanto, o último relatório do IPCC, tentando limitar o aumento da temperatura em 1.5°C, mostra que essa redução tem que ser 80% nos próximos 20 anos e a emissão líquida de gases de efeito estufa em 2040 tem que ser zero. São metas muito ambiciosas, mas são absolutamente necessárias se a gente quiser garantir uma mínima estabilidade no sistema climático terrestre.

O que podemos esperar da próxima Conferência do Clima (COP 24) agora que já foi publicado este novo relatório do IPCC?

Agora, ficou mais claro que é absolutamente necessário aos países do nosso planeta que precisamos começar a reduzir as emissões de gases de efeito estufa o mais cedo possível, provavelmente em 2020. Isso significa que teríamos dois anos para planejar como essa redução vai ser feita e, a partir daí, começar a reduzir drasticamente, principalmente com a implantação de grandes centrais de geração de eletricidade por usinas solares e eólicas. Essa tecnologia já existe e é compatível economicamente com as tecnologias atuais. Basta vontade política para que isso seja implementado. Não precisamos de nenhum desenvolvimento tecnológico novo. A ciência já tem as ferramentas para reduzir essas emissões drasticamente. O grande problema são as decisões políticas que tem que ser feitas pelos nossos governos de maneira a garantir a sustentabilidade da economia do planeta como um todo nas próximas décadas. Existem sérias dificuldades tanto nos EUA, quanto no Brasil, quanto também em alguns países europeus, do ponto de vista de redução de emissões.

Com tantos países e setores envolvidos, como seria possível estruturar a governança de um esforço global para reduzir as emissões?

Estamos extremamente atrasados na governança porque a ONU não foi estruturada para tratar de problemas destas dimensões e não há nenhum organismo internacional com a competência e o mandato necessários para lidar com uma questão tão complexa como as mudanças climáticas globais. Isso ainda vai ter que ser construído e nós vamos ter que começar essa discussão o mais rápido possível. Quem vai punir um país que não cumpra suas metas? Quem vai coletar eventuais multas? Como será o mecanismo financeiro para adaptação dos países em desenvolvimento? São questões ainda completamente em aberto, mas urgentes que precisam de respostas urgentes.

Como você vê a posição de países como os Estados Unidos, que já anunciaram que vão sair do Acordo de Paris, e as polêmicas sobre esse tema que circularam durante as eleições brasileiras?

Os Estados Unidos são um caso diferente dos demais países porque muitos estados americanos não concordam com a política de Donald Trump e já estão implementando políticas de emissão zero de gases de efeito estufa, ao longo de 2040 e 2050, como é o caso da Califórnia e de Massachusetts.

No caso brasileiro, obviamente toda a política de redução de emissões é dada pelo governo federal. Nós vamos depender muito da sustentabilidade do próximo governo na implementação de medidas que possam reduzir as emissões brasileiras, integrar mais fortemente as metas do Acordo de Paris e reforçá-las a partir dessa próxima COP e para garantir um clima minimanente estável para o próprio Brasil. É interesse do país reduzir suas emissões de gases e garantir a sustentabilidade da economia brasileira no futuro.

Fonte: Coalizão Brasil

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