Como neutralizar as emissões de carbono, segundo estes 5 países

O que nações da Europa e das Américas já começaram a fazer para se tornarem países mais sustentáveis

Não são poucos os países que começam a se comprometer em zerar suas emissões de CO2 nos próximos anos. A ambição faz parte do discurso de  potências européias e também de pequenos notáveis latino-americanos. Mas como tornar o sonho realidade? O que precisa ser feito para, de fato, reduzir e até zerar as emissões de gases poluentes na atmosfera? O Fórum Econômico Mundial apresentou o plano de 5 países que estão comprometidos em transformar o discurso em ação.

1. Irlanda

Dublin, na Irlanda (Foto: Thinkstock)

Até 2030 espera-se que 70% da energia seja renovável, meta a ser alcançada por meio de ações de incentivo da microgeração de energia. Assim, cidadãos devem, por exemplo, passar a usar painéis solares que permitam que cada casa gere toda a energia que consome (e ainda venda o excedente). No mesmo período, a Irlanda pretende banir do país itens de plástico de uso único, como canudos e copos.

Outras apostas são: o plantio de 8 mil hectares de floresta por ano e ações de conscientização nos órgãos públicos, que, também anualmente, devem adotar ao menos uma medida para combater o aquecimento global.

2. Reino Unido
O Big Ben e o Parlamento britânico em Londres, Reino Unido (Foto: Shutterstock)

O Reino Unido já é o líder mundial em energia eólica offshore, mas para cumprir sua ambiciosa meta de levar a emissão de gases do efeito estufa a zero até 2050 será preciso ir além — e, segundo o chanceler Phillip Hammond, investir algo em torno de £1 trilhão.

As medidas planejadas pelo governo envolvem não só a redução, mas também a compensação das emissões. Por isso, faz parte do plano plantar cerca de 11 milhões de árvores até 2022, além de destinar recursos para a captura de carbono e para a aquisição de tecnologias de combate à mudança climática.

3. Costa Rica

Costa Rica prédios litoral cidade (Foto: Adrianna Calvo/Pexels)

A Costa Rica também pretende zerar as emissões de gases do efeito estufa até 2050. Para tanto, o foco principal é o transporte. O país planeja a criação de uma nova linha de trem elétrico, que deve circular na capital,  San José, e a transição de todos os ônibus e táxis do país para modelos elétricos. O governo também deve trabalhar para reverter o desmatamento.

4. Chile
Chile (Foto:  Marcelo Hernandez/LatinContent/Getty Images)

O país sul-americano é outro que promete neutralizar suas emissões de carbono até o meio do século. O trabalho deve começar pela geração de energia. A proposta é fechar as primeiras oito usinas de carvão do país até 2024, e todas as outras nos próximos 21 anos. Um desafio enorme, uma vez que, excluídas as hidrelétricas, o carvão  gerou mais energia do que todas as outras fontes de energia do país em 2016.

O governo chileno também quer que todas as indústrias sejam neutras em emissão até 2050, gerando apenas a quantidade de CO2 que puderem absorver.

5. Suécia

Estocolmo, capital da Suécia; país um dos países mais abertos da OCDE a imigrantes com alta escolaridade ou empreendedores (Foto: Getty Images via BBC News Brasil)

Frequentemente apontada como líder na geração de energia renovável, a Suécia já gera mais da metade da sua eletricidade a partir de fontes renováveis, segundo dados do Eurostat. Mas o país nórdico não deve parar por aí. Entre outras ações há, por exemplo, uma política de embaixadores. São mais de 200 “consultores de energia e clima” que se espalham pelo país oferecendo aconselhamento gratuito e imparcial sobre como tornar tudo mais sustentável, como a substituição de janelas ou das luzes, por exemplo.

O plano da Suécia, como em outros países do mundo, é se tornar um país neutro em carbono até 2050.

Fonte: Época Negócios

Dave Matthews Band é designada embaixadora em prol do meio ambiente, pela ONU

A Dave Matthews Band e seu parceiro sem fins lucrativos, Reverb, têm trabalhado juntos um conjunto ambicioso de esforços ambientais para mobilização dos fãs do DMB em todo o mundo. Entrando no 15º ano da parceria DMB / Reverb, elas calcularam o impacto de suas ações e divulgaram um relatório com as conquistas de 20 turnês, 578 shows e 10 milhões de fãs:

-121.000.000 libras de CO2 eliminadas

-478.000 garrafas plásticas de uso único eliminadas em shows

-731.000 ações de fãs em shows

– 2 milhões de dólares arrecadados pelos torcedores por causas ambientais

-477.000 galões de biodiesel produzido localmente usado em veículos da frota de turismo

-338.000 galões de reciclagem recolhidos

-138.000 libras de resíduos alimentares compostados

– 2.100 fazendas familiares suportadas

– 24.500 horas de voluntariado

-1.000 organizações sem fins lucrativos sediadas na Eco-Village

“É uma época desesperadora, e todos nós precisamos trabalhar juntos para termos esperança no futuro, esperança para nossos filhos e esperança para o planeta”, declarou Matthews.

Para cada show das turnês norte-americanas da banda, a Reverb projeta um programa abrangente de sustentabilidade que analisa a pegada ambiental global e trabalha com membros da banda e da equipe para mitigar o impacto ambiental das turnês. Esforços incluem o abastecimento de caminhões e ônibus com biodiesel, fornecimento de alimentos agrícolas locais para restauração, redução de plástico de uso único, compostagem e reciclagem nos bastidores e compensação das emissões de carbono, ajudando a financiar a criação de projetos como energia solar e eólica.

“A indústria da música precisa de artistas que lideram pelo exemplo, e The Dave Mathews Band realmente estabeleceu o padrão ouro para tours ecológicos”, disse Adam Gardner, fundador da Reverb e membro da banda Guster. “Somos gratos por trabalhar com artistas como Dave Matthews Band, que engajam, educam e mobilizam sua base de fãs na luta contra a mudança climática”. Ele envia uma mensagem importante para os decisores políticos em todo o mundo: “A hora de agir é agora.”

Níveis de CO2 na atmosfera crescem pelo sétimo ano consecutivo

Dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA), mostram queo nível de gás carbônico na atmosfera da Terra cresceu pelo sétimo ano consecutivo. No último mês de maio, os níveis médios de emissão foram de 414,7 partes por milhão ( ppm), a maior marca desde 1958.

As informações, que foram coletadas do observatório Mauna Loa Atmospheric Baseline, do Havaí, indicam ainda que houve do ano passado para para cá um aumento de 3,5 partes por milhão (ppm) nas emissões de CO2, um dos principais gases responsáveis pelo efeito estufa.

“Essas medições são referentes à atmosfera real. Elas não dependem de nenhum modelo, mas nos ajudam a verificar as projeções, que tem subestimado o ritmo crescente das mudanças climáticas observadas”, escreveu em comunicado Pieter Tans, cientista da Global Monitoring Division da NOAA.

Os picos de emissão de CO2 ocorrem geralmente em maio e após meses nos quais são feitas plantações de soja que liberam o gás na atmosfera. Dados coletados ao longo dos anos no Mauna Loa Atmospheric Baseline revelam médias de aumento das emissões anuais que foram de 0,7 ppm até 1,6 ppm, na década de 1980. Esse número caiu em 1990 (1,5ppm) para aumentar ainda mais na última década, quando as emissões médias variaram de 2,2ppm para 400 ppm ( maio de 2014).

Com o aumento das emissões de gás carbônico e outros gases do efeito estufa, o aquecimento global tem alcançado um nível crítico: o Painel Internacional de Mudanças Climáticas alerta que apenas um aumento de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais antes de 2100 pode significar riscos sérios à vida. Já um relatório publicado pelo Centro Nacional de Descoberta do Clima da Austrália prevê ainda que as mudanças climáticas podem levar o colapso da humanidade até 2050.

Fonte: Galileu

Aquecimento global: perguntas e respostas

‘Aquecimento global: perguntas e respostas’ constitui um levantamento do Ciência e Clima a respeito da pesquisa em ferramentas de busca dos internautas brasileiros. Identificamos as perguntas mais comuns na internet quando o assunto é aquecimento global.

A partir daí, elaboramos esse pequeno guia composto por 14 perguntas e respostas. Ainda não sabe o que é o aquecimento global? Ouviu falar de controvérsia? Agora ficou fácil tirar suas dúvidas. Siga os links do texto para ver informações mais detalhadas, ou então explore os artigos do site.

1. O que é o aquecimento global?

Outra variação desse tipo de pergunta: O que significa o aquecimento global?

Gráfico do aumento da temperatura global entre 1900 e 2017
Reconstrução da evolução da temperatura média global entre 1900 e 2017. Os dados são apresentados tomando-se como referência a média da temperatura entre 1981 e 2010. É possível ver a tendência de aquecimento global no aumento da temperatura em cerca de 1ºC. Fonte: NOAA.

Segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, na sigla em inglês -, o aquecimento global se refere ao aumento gradual, observado ou projetado, da temperatura superficial global, enquanto consequência do acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera.

Assim, a expressão aquecimento global descreve a tendência de aumento da temperatura média global, calculada anualmente a partir de medições da temperatura do ar e da água superficial dos oceanos. A temperatura média global serve como um dos indicadores da quantidade de energia presente no sistema climático.

Consulte a página sobre aquecimento global para saber mais.

Ligado à Organização das Nações Unidas – ONU, o IPCC coordena a elaboração de relatórios periódicos revisando toda a pesquisa científica mundial a respeito do aquecimento global e das mudanças climáticas. É a principal referência científica sobre o tema. Consulte a página sobre o IPCC para saber mais. Para acessar o último relatório do IPCC, clique aqui.

2. Como ocorre o aquecimento global?

Outras variações desse tipo de pergunta são: O que causa o aquecimento global? Como o aquecimento global é formado? Como funciona o aquecimento global? Como o aquecimento global é causado? Como surgiu o aquecimento global? Como se criou o aquecimento global? Por que o aquecimento global acontece? Qual a causa do aquecimento global?

Ilustração da causa do atual aquecimento global
A ilustração apresenta uma simplificação da causa do atual aquecimento global. Fonte: Ciência e Clima.

O aquecimento global é um indicador de que o sistema climático está acumulando quantidades maiores de energia. Quanto mais energia acumulada, mais quente fica, e por isso sobe a temperatura média global. A ciência considera que a causa do atual aquecimento global é o acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera.

O sol é a fonte de toda a energia presente no sistema climático terrestre. Parte da energia solar absorvida pelo sistema climático é emitida de volta ao espaço pela atmosfera. Mas a quantidade de energia emitida pela atmosfera depende da concentração de gases de efeito estufa.

Quanto maior a concentração, maior o efeito estufa. Com a intensificação do efeito estufa, aumenta a capacidade da atmosfera de evitar a emissão de energia para o espaço. Os gases do efeito estufa funcionariam como uma espécie de cobertor, evitando a perda de calor. Dessa forma, mais energia acaba sendo acumulada no sistema climático.

Consulte a página sobre o efeito estufa para saber mais a respeito da causa do aquecimento global.

3. Quando o aquecimento global começou?

Gráfico da concentração de CO2 1700-2018
Reconstrução das concentrações atmosféricas de CO2 entre 1700 e 2018. Considera-se que o aquecimento global começou no fim do século 19 (um pouco antes de 1900) devido ao aumento das concentrações, provocada pelas emissões crescentes a partir da Revolução Industrial. Gráfico: SCRIPPS – Universidade de São Diego.

Conforme ressalta a associação científica Royal Society, do Reino Unido, considera-se que o atual aquecimento global começou no final do século 19. Mas não existe uma data precisa de quando o aquecimento teve início.

As evidências levantadas pela ciência mostram que a concentração atmosférica de CO2, o principal gás de efeito estufa, começou a subir no século 19 – a partir do ano 1800. Nesse período ocorreu a Revolução Industrial, utilizando combustíveis fósseis como fonte de energia.

Nos 10 mil anos anteriores ao século 19, as concentrações de CO2 permaneceram na faixa de 260 a 280 partes por milhão – ppm. A partir de então, em função das emissões humanas de gases de efeito estufa, as concentrações passaram a crescer, levando ao aquecimento do planeta.

Entretanto, ainda existe debate no meio científico a respeito de quando o aquecimento global começou. Por exemplo, estudo de um time de cientistas de universidades da Austrália e dos Estados Unidos sugeriu que, em vez do final, o aquecimento global teve início na metade do século 19 – por volta de 1850.

Ao analisar registros paleoclimáticos posteriores ao ano de 1500, e apoiado em um modelo climático, o estudo identificou um aumento persistente da temperatura dos oceanos tropicais e do ar no Hemisfério Norte a partir da metade do século 19. Os cientistas concluíram que o aumento era efeito das emissões do início da Revolução Industrial.

Deve-se ressaltar que outro ponto de discussão no meio científico é a contribuição da variabilidade natural do sistema climático para a tendência de aquecimento observada até a década de 1940. Por um lado, há defensores da hipótese de que oscilações climáticas internas do sistema climático responderam por parte do aumento da temperatura média global.

De outro lado, pesquisas sugerem que as oscilações naturais internas do sistema climático não exerceram qualquer influência. Para essa linha de pensamento, o aumento da temperatura média global registrado desde o início do século passado se deve exclusivamente à intensificação do efeito estufa provocado pelas emissões humanas.

Mais informações sobre o estudo: Abram, Nerilie J., et al. “Early onset of industrial-era warming across the oceans and continents.” Nature 536.7617 (2016): 411.

4. Quem descobriu o aquecimento global?

Gráfico temperatura
Gráfico do estudo de Callendar aponta para o aumento da temperatura média global entre 1880 e meados da década de 1930. Fonte: Weart (2018), a partir de Quarterly J. Royal Meteorological Society 64, 223 (1938).

O primeiro pesquisador a identificar em um artigo científico a tendência de aumento das temperaturas globais foi o britânico Guy Stewart Callendar. Engenheiro e climatologista amador, ele publicou os levantamentos realizados e suas conclusões no ano de 1938.

Trabalhos anteriores haviam coletado medições de temperatura ao redor do Hemisfério Norte, em especial no leste da América do Norte e no oeste da Europa. Um breve debate havia surgido sobre a possibilidade das temperaturas estarem aumentando, o que era considerado como parte de um ciclo natural.

Utilizando registros da temperatura de diversas estações, Callendar detectou que a temperatura média havia subido nos 50 anos anteriores ao estudo. Ele sugeriu que as emissões de dióxido de carbono – CO2 -, originadas da queima de combustíveis fósseis, estariam por trás de uma grande parte do aquecimento.

Todavia, a hipótese de uma tendência de aquecimento global devido às emissões humanas de gases de efeito estufa não encontrou abrigo entre meteorologistas e climatologistas da época. Os dados climatológicos disponíveis sofriam de severas limitações, como falta de padronização e de organização.

Além disso, a comunidade científica da época atribuiu o aumento de temperatura observado à flutuação natural, ou então à alterações na circulação atmosférica.

Fontes: Weart S. 2008. The Discovery of Global Warming. Harvard University Press: Cambridge, MA. A versão online, revista e ampliada, pode ser acessada aqui. Hawkins, E., & Jones, P. (2013). On increasing global temperatures: 75 years after Callendar. Quarterly Journal of the Royal Meteorological Society139(677), 1961-1963.

5. Qual a relação entre o aquecimento global e o efeito estufa?

Outra variação desse tipo de pergunta: qual a diferença entre aquecimento global e efeito estufa?

Ilustração aquecimento global e efeito estufa
Quando o efeito estufa da atmosfera fica mais forte, acontece o aquecimento global. Fonte: Ciência e Clima.

Aquecimento global e esfeito estufa são expressões que se referem a duas coisas diferentes, mas interligadas. O aquecimento global constitui a tendência de longo prazo de aumento da temperatura média global. Ele é apenas um indicador, elaborado pela ciência, de que o sistema climático terrestre está acumulando energia.

Por sua vez, o efeito estufa consiste na propriedade física da atmosfera terrestre de reter energia, evitando que ela seja perdida para o espaço. Quanto mais intenso o efeito estufa, maior a quantidade de energia retida pela atmosfera.

O aumento da temperatura média global registrado desde 1900 – o aquecimento global atual – ocorre porque o sistema climático tem acumulado energia. Mais energia se traduz em mais calor, por isso sobe a temperatura global.

E o motivo porque o sistema climático tem acumulado energia é a intensificação do efeito estufa da atmosfera, como resultado do crescimento das concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa.

6. Qual a relação entre o aquecimento global e o CO2?

Gráfico CO2, temperatura e glaciação
Reconstrução das concentrações atmosféricas de CO2 (linha roxa), da temperatura média global (linha verde) e do volume de gelo (linha vermelha). Durante as glaciações, as concentrações de CO2 e a temperatura diminuem. O volume de gelo sobe. Fonte: Sigman & Boyle (2000).

O dióxido de carbono – CO2 – é o principal entre todos os tipos de gás de efeito estufa. Como explica a Administração Nacional do Oceano e da Atmosfera dos EUA – NOAA, na sigla em inglês -, em comparação com os outros gases, como o metano ou o óxido nitroso, o CO2 absorve menos calor por molécula.

Todavia, além de bem mais abundante, o CO2 permanece por períodos de tempo muito superiores na atmosfera. Ele também absorve comprimentos de onda de energia térmica que não são absorvidos pelo vapor d’água, intensificando o efeito estufa de uma forma única.

Assim, do desequilíbrio energético total provocado por todos os gases de efeito estufa emitidos pelas atividades humanas, estima-se que o CO2 responda por quase dois terços.

Os registros paleoclimáticos mostram uma correspondência entre o aumento e a diminuição da temperatura média global, o ciclo das glaciações, e o aumento e a diminuição das concentrações atmosféricas de CO2. Mesmo em períodos mais antigos da história geológica da Terra, registra-se uma co-relação entre a temperatura média global e a concentração de CO2.

Consulte a página sobre os gases de efeito estufa para saber mais a respeito do CO2.

7. Se existe aquecimento global, existe resfriamento global?

Outras variações desse tipo de pergunta: O que é resfriamento global? Quando o resfriamento global acontece?

Gráfico temperatura últimos 60 milhões de anos e projeções
Reconstrução da temperatura global dos últimos 60 milhões de anos. Observa-se que o sistema climático se encontrava em uma tendência de resfriamento. As projeções do cenário de altas emissões de gases de efeito estufa indicam como as atividades humanas reverteram essa tendência, e o risco do sistema se aquecer em um curtíssimo período de tempo. Fonte: Lurcock, P. C., & Florindo, F. (2017).

Ao longo da história geológica do planeta, o sistema climático atravessou tanto períodos de aquecimento quanto de resfriamento global. De fato, reconstruções da era Cenozóica, abrangendo os últimos 60 milhões de anos, mostram que, antes da Revolução Industrial, o sistema climático se encontrava em uma tendência de resfriamento, com episódios esporádicos de aquecimento global.

No início do Cenozóico,  durante a época chamada de Paleoceno, estima-se que a temperatura média global era 8ºC mais alta do que no período pré-industrial. Os pólos estavam livres de gelo – não haviam calotas polares na Antártica e na Groenlândia.

A partir daí, modificações nos componentes do sistema climático levaram a uma queda continuada da temperatura média global. Entre as modificações, incluem-se a transformação de partes dos continentes, o surgimento da corrente oceânica ao redor da Antártica, e a redução das concentrações atmosféricas de dióxido de carbono – CO2.

A tendência de resfriamento, com duração de milhões de anos, sofreu quatro principais interrupções esporádicas. Nesses episódios (indicados pelas setas no gráfico acima), o sistema climático reverteu temporariamente para um estado de aquecimento global – usualmente, acompanhado por um crescimento do CO2 atmosférico.

No contexto do Cenozóico, as emissões humanas de gases de efeito estufa marcam o fim da tendência natural de resfriamento. E se as emissões persistirem no mesmo patamar, as projeções apontam que a temperatura poderá retornar, em poucos séculos, a níveis ocorridos milhões de anos atrás.

Representaria uma transformação ambiental de enorme magnitude, em velocidades sem precedentes na história do planeta.

8. O desmatamento pode causar aquecimento global?

Outras variações desse tipo de pergunta: O aquecimento global está ligado ao desmatamento? Como o desmatamento pode influenciar o aquecimento global?

Desmatamento em terra indígena
Parcela desmatada em terra indígena. Foto: IBAMA/ Felipe Werneck.

O desmatamento pode levar ao aquecimento global. O motivo é que as florestas armazenam carbono nas plantas e solos. O desmatamento – usualmente acompanhado de queimadas – levam à liberação do carbono para a atmosfera na forma de dióxido de carbono – CO2.

Estimativas do IPCC de 2010 calculavam que as floresta e outros usos da terra respondiam por 11% das emissões totais anuais de gases de efeito estufa. E, desde 1750, as emissões cumulativas seriam cerca de metade das emissões globais.

As emissões de CO2 do desmatamento contribuem para o crescimento das concentrações atmosféricas do gás. E, com isso, para a intensificação do efeito estufa e para o aquecimento global.

Mas os efeitos do corte das florestas vão bem além da liberação de CO2 para a atmosfera. A retirada da vegetação altera o clima local, Se ocorrer em larga escala e magnitude, a alteração local pode exercer pequena influência na temperatura média global, especialmente no caso das florestas tropicais.

Além disso, o desmatamento reduz a quantidade de compostos orgânicos voláteis na atmosfera, um tipo de gás produzido naturalmente pelas florestas. Os compostos orgânicos voláteis interagem com outros elementos químicos e afetam a concentração de gases de efeito estufa e de aerossóis. A redução pode levar ao aquecimento.

Finalmente, os ecossistemas terrestres representam um fundamental sumidouro de carbono. Eles absorvem parte das emissões humanas de gases de efeito estufa, minimizando o aumento das concentrações atmosféricas. Dessa forma, contribuem para retardar a taxa atual de aquecimento global.

Com o desmatamento, esse serviço de sequestro de carbono fica cada vez mais prejudicado.

9. A agropecuária tem ligação com o aquecimento global?

Pasto e gado
Foto: Flickr/ Mariano Mantel.

Sim, a agropecuária tem ligação com o aquecimento global. A atividade agropecuária responde por emissões de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono – CO2 -, o metano – CH4 – e o óxido nitroso. Como resultado, sobem as concentrações atmosféricas desses gases, intensificando o efeito estufa e levando ao aquecimento global.

É o caso, por exemplo, do Brasil. Dois setores interligados respondem pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa do país: a agropecuária e a mudança de uso da terra e floresta – em particular, o desmatamento.

Em 2017, o país emitiu 2,071 bilhões de toneladas brutas de gás carbônico equivalente – CO2eq. Desse total, o setor da agropecuária respondeu por aproximadamente 24%, ou  495 milhões de toneladas de CO2eq.

Além disso, a agropecuária consiste no principal fator de desmatamento, provocando, indiretamente, grandes quantidades de emissões de CO2.

Para informações mais detalhadas, o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticaspublicou em 2015 relatórios específicos sobre as emissões dos dois setores, agropecuária e mudança do uso da terra.

10. Quais são as consequências do aquecimento global?

Outras variações desse tipo de pergunta: O que o aquecimento global pode causar? Por que o aquecimento global é um problema? Por que o aquecimento global é ruim? Por que o aquecimento global é preocupante? Como o aquecimento global afeta nossas vidas?

Gráfico consequências do aquecimento
Cinco áreas de preocupação quanto aos riscos introduzidos pelo aquecimento global. Comparação entre cenários de limitação do aquecimento em 1,5ºC e 2ºC até 2100. A escala vai de risco nenhum (cor branca) até risco muito alto (cor roxa). Fonte: adaptado da figura SPM.2 do IPCC.

O aquecimento global é um indicador de que o sistema climático terrestre está acumulando energia. Como consequência do aquecimento global – isto é, do acúmulo de energia -, os componentes do sistema climático, suas características e dinâmicas, alteram-se.

O último relatório do IPCC, publicado em 2013, abordou as diversas modificações observadas até aquele ano. Por exemplo, no caso da atmosfera, incluía o aumento da intensidade e frequência de eventos de temperatura máxima diária, da probabilidade de ocorrência de ondas de calor, ou a mudança na padrão das chuvas em algumas regiões.

A Criosfera consiste em outro componente do sistema climático que apresenta mudanças significativas. Verifica-se uma redução acentuada do gelo marinho do Ártico, a perda de volume e massa das calotas polares, a retração global das geleiras de montanha, e a redução da área coberta de neve durante a primavera no Hemisfério Norte.

O oceano experimenta um aumento do nível médio do mar, mudanças na salinização e nas correntes oceânicas.

As projeções das consequências do aquecimento global no Brasil apontam para impactos significativos. Segundo relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas – PBMC, de 2013, o Nordeste é a região mais vulnerável do país. No futuro, o clima semiárido regional poderá se transformar em árido, prejudicando severamente a agricultura, a disponibilidade de água e a saúde da população.

Haverá mudança na temperatura e nas chuvas em diversos pontos do país. Mesmo em áreas que não registrem alteração do total anual de precipitação, elas devem ocorrer de modo mais concentrado. Poderá aumentar a frequência de eventos extremos, agravando os problemas em grandes cidades do Brasil, como o Rio de Janeiro e São Paulo.

A agricultura representa um dos setores econômicos brasileiros mais vulneráveis aos impactos do aquecimento global. Crescerão as limitações relacionadas à deficiência hídrica. Poderá ser inviabilizada a realização de certos tipos cultivos em regiões de baixa latitude e altitude do país, além de reduzir a área disponível para plantas de clima temperado.

Consulte a página sobre aquecimento global para mais detalhes a respeito de suas consequências. E também o artigo ‘10 consequências do aquecimento global‘.

11. Como o aquecimento global interfere no clima?

Gráfico expansão de área da América do Sul com aumento da temperatura
Expansão da área geográfica da América do Sul com temperatura média de 18ºC. Fonte: Figura SEF.3/ Relatório PBMC.

O sistema climático terrestre, seus componentes, processos e dinâmicas estão mudando em resposta à energia adicional acumulada. Um dos indicadores de que sobe a quantidade de energia no sistema é o aquecimento global – o aumento da temperatura média global.

Como consequência, os fenômenos meteorológicos, que definem as condições cotidianas do Tempo, também se modificam. Por exemplo, a frequência e a intensidade da precipitação, dos dias de calor e de frio intensos, ou dos eventos climáticos extremos – como as secas. Apesar de variações regionais, a tendência é que áreas úmidas se tornem mais úmidas, e áreas secas, ainda mais secas.

No caso do Brasil e da América do Sul, entre as mudanças citadas em relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas – PBMC, inclui-se o aumento de noites quentes e diminuição de noites frias, reduzindo a amplitude diurna da temperatura, principalmente durante a primavera e no outono.

Desde 1948, verifica-se o aumento da temperatura durante o verão, de forma mais acentuada nas zonas tropicais do que nas subtropicais da América do Sul. Também se observa uma tendência positiva de crescimento da temperatura média no continente.

Entre 1949 e 2009, registrou-se uma expansão das áreas do continente que experimentaram temperaturas médias maiores do que 18ºC entre setembro e novembro.

12. Como o aquecimento global pode interferir no nível de água dos oceanos?

Gráfico do aumento do nível do mar desde 1880
Reconstrução do aumento do nível médio do mar desde 1880. Fonte: Agência Ambiental Européia.

Em resposta ao aquecimento global – ao acúmulo de energia pelo sistema climático terrestre -, o oceano está acumulando calor e o gelo da criosfera está derretendo. Esses dois fatores fazem com que o nível médio do mar aumente.

Através do ganho de calor do oceano, o nível médio do mar aumenta por causa do efeito da expansão térmica da água. Por sua vez, o derretimento de geleiras e calotas polares transfere a água dessa regiões, até então imobilizada na forma de gelo, para o oceano.

Em 2016, segundo informações da Agência Ambiental Européia, o nível médio do mar havia subido 20 centímetros em relação ao início do século 20. Estima-se que no século passado o nível cresceu a uma média anual de 1,2 a 1,7 mm, com grande variação entre uma década e outra.

Mas desde 1993 o aumento do nível médio do mar se acelerou, passando para aproximadamente 3 mm por ano.

A tendência continuará ao longo do presente século. Projeções indicam um aumento provável de 0,28 a 0,61 m para o cenário de baixas emissões, e na faixa de 0,52 a 0,98 m para o cenário de altas emissões.

Todavia, elevações significativamente maiores do nível médio do mar não podem ser descartadas. Existe o risco de que alcancem a faixa de 1,5 a 2,5 m até 2100, o que acarretaria graves impactos para zonas costeiras em todo o mundo.

13. Como limitar o aquecimento global?

Outras variações desse tipo de pergunta: Como evitar o aquecimento global? Como impedir o aquecimento global? Como diminuir o aquecimento global? O que fazer contra o aquecimento global?

Gráfico cenários de mitigação do aquecimento global
O gráfico apresenta cenários de mitigação do aquecimento global, limitando o aumento da temperatura a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais. As emissões de gases de efeito estufa devem ser zeradas até 20150. Fonte: figura SPM3.A/ IPCC SR 1,5ºC.

Para limitar, evitar ou diminuir o aquecimento global, existe uma única saída: zerar a emissão de gases de efeito estufa pelas atividades humanas. Em especial, as emissões de dióxido de carbono – CO2. Eliminando as emissões, a concentração atmosférica deixará de subir, interrompendo a intensificação do efeito estufa.

Talvez não exista tarefa mais difícil do que essa. Isso porque as emissões de CO2 ocorrem como resultado da queima de combustíveis fósseis – óleo, gás natural e carvão. A base energética do mundo moderno – capitalista e industrial – foi construída em torno da disponibilidade e uso dos combustíveis fósseis.

Eles representam uma forma barata, fácil e acessível de gerar energia. O mundo ainda continua dependente dos combustíveis fósseis para acender as luzes, para fazer funcionar máquinas e equipamentos, e para o transporte. Países ricos em reservas ou em processo de industrialização ainda apostam no carvão para gerar energia.

Outra fonte humana de gases de efeito estufa é o desmatamento e as atividades agropecuárias. Zerar as emissões humanas de gases de efeito estufa demandaria eliminar o desmatamento. E também transformar a agropecuária neutra em carbono.

14. O aquecimento global é um tema controverso?

Outras variações desse tipo de pergunta: Existe debate científico sobre o aquecimento global? O aquecimento global é mito ou verdade? O aquecimento global é uma farsa?

Comissão do senado discute o aquecimento global
Membros da administração pública constituem um dos atores de promoção do negacionismo científico. Exemplo foi uma audiência pública conjunta das Comissões de Relações Exteriores e Defesa Nacional – CRE – e de Meio Ambiente – CMA – do congresso federal. Fonte: Geraldo Magela/ Agência Senado.

Pode-se dizer que a controvérsia em torno do aquecimento global se verifica somente junto à opinião pública, em especial em países anglo-saxões. O motivo é a atuação de pessoas e grupos negacionistas, cujo objetivo é promover a desinformação. Trata-se de uma controvérsia fabricada.

Desde a década de 1950, o número de evidências do aquecimento global registradas pela ciência tem crescido exponencialmente. E o conhecimento científico sobre o tema é resumido e ganha publicidade periodicamente, através dos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, na sigla em inglês.

Os relatórios reúnem e sintetizam a literatura científica produzida sobre dezenas de tópicos relacionados ao aquecimento global e às mudanças climáticas. Centenas de cientistas elaboram e revisam os relatórios, cujo objetivo é justamente apresentar o conhecimento e os debates da ciência.

O negacionismo não representa uma vertente do debate científico – se assim fosse, participaria e estaria presente nos relatórios do IPCC. Pelo contrário, o negacionismo tem como ponto de partida o anti-cientificismo. Nega-se o conhecimento científico, minando ou postergando a implementação de políticas ambientais.

Uma pesquisa sobre o negacionismo identificou quatro grandes argumentos utilizados pelos negacionistas. O primeiro nega que o aquecimento global esteja acontecendo. O segundo sugere que o atual aquecimento não pode ser resultado das emissões humanas. Há ainda o argumento de que o aquecimento não provocará impactos, e, finalmente, o argumento de que não exista um consenso a respeito.

Os atores por trás do ataque à ciência abrangeriam um pequeno grupo de cientistas – em geral, de áreas afins -, membros da administração pública, algumas organizações políticas e religiosas, e empresas privadas. Os dois últimos grupos, intimamente ligados à interesses econômicos, representam um dos principais focos de negacionismo nos Estados Unidos.

Evidências mostram a atuação de empresas de óleo e gás do país, bem como de concessionárias de energia, em iniciativas direcionadas para desinformar o público a respeito do tema.

Fonte: Ciência e Clima

Código Florestal Brasileiro, um obstáculo para a produção agrícola ou um diferencial de mercado?

Em artigo, o consultor em gestão da sustentabilidade da Fundação Espaço ECO, Tiago Egydio Barreto, comenta os desafios trazidos pelas mudanças climáticas

As mudanças climáticas podem ser consideradas um dos principais desafios de nível planetário que põem em dúvida o modelo atual de vida de nossa sociedade. Esse fenômeno é entendido como as alterações no clima de todo o planeta Terra, causadas pelas atividades humanas que emitem CO2 e outros gases do efeito estufa (GEE) para a atmosfera. Essas alterações têm consequências diretas no nosso dia a dia, causando, por exemplo, alterações nos padrões de temperatura e eventos climáticos de alta intensidade, como secas, inundações e picos de temperaturas altas e baixas.

Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC – sigla em Inglês), já foi registrada uma elevação média de 0,8 oC na temperatura do planeta, e é imprescindível cessar as emissões de gases de efeito estufa até 2100 para estabilizar o aquecimento global em 2 oC. Uma mudança climática acima desse patamar pode colocar em risco toda a vida no planeta.

tiago-egydio-barreto-fundacao-espaco-eco (Foto: Divulgação/FEE)

Essa preocupação global gerou a formulação de um compromisso com esforço coletivo para a redução das emissões de carbono que foi assinado em 2015, na Conferência das Partes (COP 21), por 195 países, ficando conhecido como Acordo de Paris. Seu objetivo é manter o aumento da temperatura global abaixo dos 2 °C e, se possível, limitar a 1,5 °C. Cada país que ratificou o acordo assumiu metas que foram chamadas de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC – sigla em Inglês). Atualmente, as emissões globais estão próximas de 37 gigatoneladas/ano de GEE (fonte: https://www.globalcarbonproject.org/carbonbudget/).

As metas assumidas por cada país no Acordo de Paris começam a ser válidas em 2020. O Brasil, que está entre as dez nações que mais emitem gases de efeito estufa, comprometeu-se a reduzir suas emissões em 37% em relação a 2005. A data-limite para isso é 2025, com indicativo de reduzir 43% das emissões até 2030. A principal fonte das emissões do Brasil é a mudança e conversão de uso do solo em virtude do desmatamento ilegal de nossos remanescentes de vegetação nativa (Cerrado e Floresta Amazônica), que corresponde a aproximadamente 46% do total. No setor produtivo, a atividade que mais tem contribuído para a emissão dos gases de efeito estufa é a atividade agropecuária, com aproximadamente 23% do total das emissões do país, segundo dados do observatório do clima.

Diante desse cenário, referente às emissões brasileiras oriundas das atividades agropecuárias, permito realizar algumas observações que buscam avaliar alguns aspectos de mercado e as leis ambientais do Brasil.

Quanto ao mercado, cada vez mais o tema da sustentabilidade permeia os diferentes setores produtivos. Parte disso se deve ao tema de emissões de GEE. Hoje, é comum encontrarmos na internet textos sobre economia de baixo carbono. Isto é, ao meu ver, esperado, visto que quase a totalidade dos países ratificaram o Acordo de Paris e se comprometeram com suas NDCs.

Na prática, segundo dados do Banco Mundial, 51 países já possuem seus mecanismos de precificação de carbono, e isso quer dizer que o custo das consequências das mudanças climáticas, que outrora não era contabilizada no balanço do custeio dos países e empresas, passará a ser valorada, e as fontes emissoras dos GEE passarão a ter suas emissões reguladas, seja por impostos ou por sistema de comércio de emissões, dado o marco legal de 2020, em que começará a entrar em vigor o Acordo de Paris. Ou seja, o custo do carbono entrará no orçamento das empresas e governos, de forma oficial, nesses países.

Olhando para o setor do agronegócio brasileiro, que produz riquezas, mas também é uma importante fonte de emissão de GEE, ressalto a importância das leis ambientais brasileiras para apoiar no equilíbrio dessa relação entre produtividade e sustentabilidade ambiental. Em específico, refiro-me ao Código Florestal – leis federais 12.651 e 12.727, de 2012 –, que propõe um zoneamento da propriedade rural. Entre as categorias previstas está a Reserva Legal, que determina um percentual de área que pode variar de 20% a 80% e deve ser destinada à conservação ambiental, com possibilidade de exploração sustentável dos recursos naturais.

Na prática, isso quer dizer que os produtores rurais que atendem a esse requisito legal devem contabilizar as emissões de seu negócio, reduzindo o que é sequestrado de carbono, considerando sua área de Reserva Legal. Outros países adotam sistemas diferentes para impor regras para o uso da terra na propriedade rural, mas pode ser dito que o modelo de Reserva Legal previsto na lei ambiental do Brasil é um caso diferenciado, quando comparado com os de outros países.

Cerca de 55% do território brasileiro ainda é coberto por algum tipo de vegetação nativa, e boa parte desse montante está localizada nas propriedades rurais – o que reforça o protagonismo do produtor rural para a conservação da biodiversidade e dos recursos naturais. Outros países, como a Rússia, possuem maiores áreas territoriais cobertas por áreas naturais. Contudo, é importante discernir que boa parte da Rússia não possui condições climáticas adequadas para o desenvolvimento de práticas agrícolas, e no Brasil temos um cenário oposto, em que teoricamente não há restrições climáticas para o desenvolvimento de agricultura, do norte ao sul do país.

O Brasil tem como base de sua produção agrícola as commodities, principalmente relacionadas ao cultivo de cereais e à pecuária. Esses produtos seguem mercados cada vez mais exigentes quanto à qualidade e aos critérios de produção socioambientais. Neste momento da nossa história, em que os mercados estão cada vez mais conectados e o carbono virou uma “moeda”, em vez de considerar a área de Reserva legal como uma barreira para aumentar a produtividade, ela pode ser vista como uma oportunidade única para atender às exigências de mercado e configurar a produção de commodities agrícolas do Brasil como uma das mais sustentáveis do mundo.

Para ilustrar essa colocação, pego um caso real. O óleo de palma e o óleo de palmiste são originados da extração do óleo existente na fruta e na semente dos dendezeiros e são os óleos mais consumidos no mundo. A produção desse cultivar está concentrada principalmente em dois países: Indonésia e Malásia. Visto que, ao longo do tempo, muitas áreas de vegetação nativa nesses países foram convertidas para o cultivo do dendezeiro, a biodiversidade local tornou-se vulnerável, e espécies entraram na lista de ameaça de extinção, como os orangotangos. Além disso, o cultivo dos dendezeiros ocorre normalmente em turfeiras, solos ricos em estoque de carbono. Assim, as emissões de GEE também viraram um ponto de atenção. Dadas essas e outras questões que envolvem a produção do óleo de palma e palmiste, houve uma reação e mobilização de mercado, e as empresas que demandam essas matérias-primas precisavam garantir as boas práticas nos seus processos produtivos. Assim, nesse caso, a certificação da produção dos respectivos óleos com critérios socioambientais adequados foi a solução para garantir que as grandes empresas atendessem às exigências dos consumidores e outros elos da cadeia de valor.

Ocorre que no Brasil também há produção de dendezeiros, porém é pouco expressiva, considerando a demanda e a produção mundial. Aqui, a produção ocorre principalmente no estado do Pará, e os produtores do dendezeiro devem seguir o Zoneamento Econômico Ambiental, que determina as regras para o plantio dessa cultura, como a proibição de conversão de floresta nativa para o plantio e o uso de áreas de pastagens degradadas para esse fim, além de respeitar o percentual exigido de Reserva Legal, que, nesses casos, é de 50% da área da propriedade.

Observa-se que essas regras ambientais vão ao encontro da proposta da certificação do óleo de palma e palmiste, por garantir uma pegada ambiental positiva em relação às emissões de carbono e à conservação da biodiversidade. Atualmente, as empresas compradoras desses óleos possuem metas quanto ao consumo de matérias-primas certificadas, e a demanda possivelmente será de 100% em um futuro próximo. Em um mundo cada vez mais conectado, as “vozes” dos diferentes elos da cadeia de valor fazem com que os mercados se atentem a elas para suas tomadas de decisão. Esse contexto se aplica a outras commodities agrícolas, como a soja. A plataforma Trase (Transparency for Sustainable Economies) monitora anualmente as áreas de plantio de soja no Brasil, identificando possíveis locais que foram desmatados, plantados em terras indígenas ou Unidades de Conservação, apoiando o mercado a atender às suas demandas e às exigências da cadeia de valor.

Nota-se que a questão de conservar áreas naturais vai além de exigências legais. Os acordos globais e o posicionamento do mercado indicam a direção a seguir de muitos setores produtivos, e é notório que o tema de conservação de florestas nativas é tendência em sustentabilidade. Todas as grandes empresas possuem metas de redução de CO2. A lei ambiental brasileira firma-se como uma oportunidade, e não como um obstáculo, trazendo um diferencial para nossa agricultura. Que cadeias produtivas poderiam se beneficiar com esse posicionamento? Em que mercados o Brasil deveria investir mais e como se posicionar?

Fonte: Globo Rural

As ideias inusitadas e radicais testadas por cientistas para conter as mudanças climáticas

Apenas cortar as emissões de carbono não será suficiente para combater as mudanças climáticas, alertam cientistas

O ritmo crescente das mudanças climáticas está levando pesquisadores a pensar em possíveis soluções inusitadas e radicais.

Cientistas de Cambridge, na Inglaterra, planejam montar um centro de pesquisa para explorar novas maneiras de conter as mudanças climáticas e regenerar a Terra.

Ele investigarão abordagens radicais como recongelar os polos do planeta, reciclar o dióxido de carbono (CO2) com a produção de combustível e estimular a produção de algas nos oceanos para remover este gás da atmosfera.

A decisão de criar o centro nasce dos temores de que as abordagens atuais não serão capazes de combater e reverter danos ao meio ambiente.

A iniciativa é a primeira desse tipo no mundo e busca gerar reduções drásticas nas emissões e na presença do CO2 na atmosfera. A iniciativa é coordenada pelo ex-assessor científico do governo britânico David King.

“O que fizermos nos próximos dez anos determinará o futuro da humanidade para os próximos 10 mil anos. Não há um grande centro no mundo que se concentre neste problema”, disse ele à BBC News.

Algumas das abordagens descritas por King são conhecidas pelo termo “geoengenharia”.

O Centro de Reparo do Clima faz parte da Iniciativa para Futuros Neutros em Carbono da universidade, liderada pela cientista Emily Shuckburgh.

Ela disse que a missão do projeto será “resolver o problema climático”. “Não podemos falhar nisso”, disse ela.

Urgência da questão ambiental nos obrigam a tentar viabilizar ideias antes impensáveis, argumentam pesquisadores (Foto: NASA, via BBC News Brasil)

O centro reunirá cientistas e engenheiros com especialistas em ciências sociais. “Este é um dos desafios mais importantes do nosso tempo, e sabemos que precisamos combatê-lo com uma combinação de diferentes recursos”, disse Shuckburgh.

Conheça a seguir algumas das propostas que serão estudadas.

Recongelar os polos do planeta
Uma das ideias mais promissoras para recongelar os polos é “iluminar” as nuvens acima deles. A idéia é bombear água do mar até os pontos mais altos de mastros de navios por meio de tubos bem finos.

Isso produziria minúsculas partículas de sal que seriam dispersadas na atmosfera para formar nuvens capazes de refletir mais a luz do Sol e, assim, reduzir a temperatura das regiões abaixo delas.

graf_clima 1 (Foto: Reprodução/BBC)
Reciclagem de CO2
Outra abordagem possível é uma variante de uma ideia chamada captura e armazenamento de carbono (CAC).

A CAC envolve a coleta de emissões de dióxido de carbono de usinas elétricas a carvão ou a gás ou usinas siderúrgicas, armazenando-as no subsolo.

O professor Peter Styring, da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, está desenvolvendo um projeto piloto de captura e utilização de carbono (CUC) com a empresa Tata Steel em Port Talbot, no sul do País de Gales, para reciclar o CO2.

graf_clima 2 (Foto: Reprodução/BBC)
Isso envolve a instalação de uma fábrica capaz de converter as emissões de carbono da empresa em combustível usando o calor residual da usina, de acordo com Styring.

“Temos uma fonte de hidrogênio, temos uma fonte de dióxido de carbono, temos uma fonte de calor e temos uma fonte de eletricidade renovável da usina”, disse ele à BBC News. “Vamos aproveitar tudo isso para fazer combustíveis sintéticos.”

Estimular a produção de algas nos oceanos
Outra ideia que o centro pode explorar inclui o estímulo à produção de algas nos oceanos para que eles possam absorver mais CO2.

Isso envolve o lançamento no mar de sais de ferro para promover o crescimento de plâncton. Experimentos anteriores mostraram, no entanto, que eles não absorvem CO2 suficiente e podem prejudicar ecossistemas.

graf_clima 3 (Foto: Reprodução/BBC)

Mas, de acordo com Callum Roberts, professor da Universidade de York, na Inglaterra, são pensadas atualmente abordagens que possam tornar essa iniciativa mais eficiente, porque a alternativa de que as mudanças climáticas gerem danos potencialmente irreversíveis é considerada inaceitável.

“No início da minha carreira, as pessoas ficavam horrorizadas e rejeitavam sugestões de soluções mais intervencionistas para regenerar recifes de corais”, disse Roberts.

“Agora, eles estão olhando desesperadas para um ecossistema que pode desaparecer até o fim do século, e, agora, todas as opções estão na mesa.”

Isso inclui a engenharia genética para criar corais resistentes ao calor ou o despejo de substâncias químicas no mar para torná-lo menos ácido.

“No momento, acho que usar a própria natureza para mitigar as mudanças climáticas é o melhor caminho. Mas considero legítimo explorar opções [mais radicais] para buscar um futuro melhor”, disse Roberts.

Pensando o impensável
Tais ideias têm muitas desvantagens em potencial e podem se revelar inviáveis.

Mas Peter Wadhams, professor de física oceânica da Universidade de Cambridge, disse que devem ser avaliadas adequadamente para ver se estas desvantagens podem vir a ser superadas, porque reduzir as emissões de CO2 por si só não será suficiente.

“Se apenas reduzirmos nossas emissões, conseguiremos apenas reduzir o ritmo do aquecimento global. Isso não é suficiente, porque já está muito quente e já temos muito CO2 na atmosfera”, disse Wadhams.

“Assim, precisamos retirar CO2 da atmosfera. Podemos reduzir seus níveis e de fato esfriar o clima, levando-o de volta ao que era antes do aquecimento global.”

Fonte: Época Negócios

Mais de 200 cidades europeias se unem pelo clima

Prefeitos de cidades europeias, incluindo Londres, Amsterdã e Paris, apelam a países-membros da União Europeia (UE) a implementar estratégia para que balanço das emissões de CO2 seja zero até 2050.

Em carta aberta, 210 prefeitos pediram aos chefes de governo e de Estado da UE, nesta terça-feira (7), que elaborem e coloquem em prática uma estratégia climática de longo prazo, durante a reunião de cúpula desta quinta-feira (9) em Sibiu, na Romênia.

A carta foi assinada pelos prefeitos de Paris, Londres, Estocolmo, Amsterdã, Oslo, Milão, Atenas e Stuttgart, entre outras cidades da Europa.

Segundo eles, a meta final dessa estratégia deve ser uma atividade econômica que, a partir de 2050, alcance a neutralidade climática, ou o balanço zerado de emissões de CO2. Os prefeitos apoiam, assim, uma proposta feita pela Comissão Europeia e pelo Parlamento Europeu, que eles chamaram de a única realizável em prol do futuro da Europa e do mundo.

“A Europa deve se tornar uma líder mundial na questão climática. As gerações futuras não vão nos perdoar se não agirmos enquanto ainda tivermos tempos”, afirmou a prefeita da Paris, Anne Hidalgo.

A meta atual da União Europeia é reduzir suas emissões de gases do efeito estufa em 40% até o ano de 2030, na comparação com 1990. Em 2020, a UE pretende definir sua estratégia climática até meados do atual século, dentro do que está previsto no Acordo de Paris.

Ontem, o presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou que vai colocar o tema na agenda de Sibiu.

Centenas de organizações não governamentais (ONGs) europeias também convocaram os líderes a agir contra as mudanças climáticas. “Lançamos um sinal de alerta em prol do clima para todos os atuais e futuros políticos europeus”, disse o diretor do Climate Action Network (CAN) Europe, Wendel Trio. Ele disse que é hora de os políticos agirem.

As ONGs exigem que a luta contra as mudanças climáticas seja uma prioridade na cúpula de Sibiu, assim como nos debates que antecedem as eleições europeias. A meta deve ser a redução das emissões de gases do efeito estufa até 2030. Além disso, defendem o fim dos combustíveis fósseis, mais apoio aos países em desenvolvimento para se adaptarem às mudanças climáticas, a proteção da biodiversidade e mais esforços em prol da economia circular, na qual os dejetos são reaproveitados como matéria-prima.

O presidente da Comissão das Conferências Episcopais da EU (Comece), o arcebispo de Luxemburgo, Jean-Claude Hollerich, também apoia a iniciativa. “Peço ao futuro Parlamento Europeu, à Comissão Europeia e aos países-membros que adotem medidas urgentes contra as mudanças climáticas”, afirmou.

Ele disse ser importante que a transição para uma sociedade de emissões zero seja justa. Para que as pessoas mais pobres também sejam beneficiadas, é necessária a adoção de medidas sociais e de respeito aos direitos humanos.

A tecnologia que promete remover CO2 do ar e transformar em pó

Nova tecnologia que ‘captura’ dóxido de carbono do ar ganhou investimentos de gigantes de combustível fóssil, mas também gera temor de ambientalistas

Uma tecnologia que retira dióxido de carbono do ar está recendo investimento de algumas das maiores empresas de combustível fóssil do mundo.

A Carbon Engineering, da cidade de British Columbia, no Canadá, afirma que consegue “capturar” CO2 da atmosfera de maneira eficiente e econômica.

A empresa recebeu US$ 68 milhões em investimentos da Chevron, da Occidental e da gigante de extração mineral BHP.

Mas ambientalistas temem que essa tecnologia seja usada para extrair volumes ainda maiores de petróleo.

Diante das metas internacionais de redução de gases do efeito estufa, várias empresas entraram na corrida por uma tecnologia capaz de reduzir o dióxido de carbono do ar. A empresa suíça Climeworks, por exemplo, já atua capturando CO2 do ar para usar na produção de vegetais.

Já a Carbon Engineering diz que é capaz de capturar gás carbônico do ar por menos de US$ 100 a tonelada.

O desenvolvimento de tecnologia para a remoção de dióxido de carbono passou a receber apoio da comunidade científica, depois que o último relatório do Painel Internacional de Mudança Climática defendeu a medida como forma de atingir a meta de manter em 1,5 grau Celsius o aumento da temperatura terrestre neste século.

Com os investimentos que recebeu de empresas de extração de óleo e minério, a Carbon Engineering diz que conseguirá construir a estrutura física para abrigar equipamentos de escala industrial voltados à limpeza de CO2 do ar.

Essas plantas de captura de gases poluentes seriam capazes de retirar até um milhão de toneladas de CO2 da atmosfera a cada ano.

Como o sistema funciona?

O CO2 é um poderoso gás causador do aquecimento global, mas não há muito dele na atmosfera- para cada milhão de moléculas de ar, há 410 de CO2.

O processo desenvolvido pela Carbon Engineering envolve sugar o ar e o expor a uma solução química que concentra o CO2. Processos adicionais de refinamento fazem com que o gás seja purificado de modo a ser armazenado e, posteriormente, utilizado como um combustível líquido.

Isso exige combinações químicas complexas?

Sim.

As instalações da Carbon Engineering contam com uma espécie de turbina no meio do teto, que captura ar da atmosfera.

Esse ar entra em contato com uma solução química de hidróxido. Alguns hidróxidos reagem com o dióxido de carbono, formando uma solução de carbonato.

Essa mistura é, então, tratada com hidróxido de cálcio para assumir uma forma sólida.

Infográfico mostra como é a transformação de CO2 em combustível — Foto: BBCInfográfico mostra como é a transformação de CO2 em combustível — Foto: BBC

Infográfico mostra como é a transformação de CO2 em combustível — Foto: BBC

As partículas de carbonato de cálcio são, então, submetidas a temperaturas de até 900 graus Celsius e se decompõem formando uma corrente de CO2 e óxido de cálcio.

Esse líquido que contém CO2 passa, em seguida, por uma limpeza para remover impurezas da água.

“A chave para esse processo é a concentração do CO2”, diz Jenny McCahill, da Carbon Engineering.

“Podemos armazenar o CO2 em pó ou combiná-lo com hidrogênio para formar hidrocarbonetos ou metanol.”

Sim. É um processo complexo, mas que pode ser feito.

O CO2 capturado da atmosfera é misturado com hidrogênio. Ele passa, então, por um catalisador a 900 graus Celsius, para formar monóxido de carbono.

Quando é acrescentado mais hidrogênio, o monóxido de carbono se torna gás sintético. Finalmente, esse gás é transformado em combustível sintético bruto. A Carbon Engineering diz que essa substância pode ser usada para mover diferentes tipos de motores, sem ter de passar por modificações.

“O combustível que produzimos não tem enxofre em sua composição. A queima, portanto, é mais limpa que a de combustíveis tradicionais,” diz McCahill.

“Ele pode ser usado por caminhão, carro ou aeronave.”

Por que empresas de combustível fóssil estão investindo nesse processo?

CO2 pode ser usado para extrair os últimos depósitos de óleo em poços que já ultrapassaram o período de alta produtividade.

A indústria de petróleo e gás dos Estados Unidos utiliza essa técnica há décadas.

Estima-se que a utilização de CO2 pode resultar numa extração extra de 30% de petróleo, com o benefício adicional de que, nesse processo, o dióxido de carbono fica retido permanentemente no solo.

“A tecnologia da Carbon Engeneering tem a capacidade de capturar e prover volumes elevados de CO2 atmosférico”, diz o vice-presidente da Occidental Petroleum, Richard Jackson, num comunicado.

“Ao garantir a captura e reutilização de CO2 em larga escala, essa tecnologia complementa os negócios da Occidental na extração de petróleo.”

Outro investidor da Carbon Engineering é a BHP, mais conhecida pelas atividades de extração mineral e carvão.

“A realidade é que combustíveis fósseis vão continuar por aí por algumas décadas, seja em processos industriais seja para uso em transportes”, disse Fiona Wild, diretora de mudanças climáticas e sustentabilidade da BHP.

“O que precisamos é investir em tecnologias capazes de reduzir as emissões nesses processos. Por isso estamos focando na captura e armazenamento de dióxido de carbono.”

Alguns ativistas da área ambiental estão otimistas com essa tecnologia de captura de carbono do ar, mas outros temem que ela seja usada para prolongar a era do combustível fóssil.

“É uma grande preocupação”, disse Tzeporah Berman, diretora internacional da ONG Stand, que atua na defesa do meio-ambiente.

“Precisamos trabalhar em conjunto para encontrar uma maneira de abandonar por completo os combustíveis fósseis. (A captura de CO2) Nos traz a falsa esperança de que podemos continuar a produzir e queimar combustíveis fósseis, para depois a tecnologia consertar a situação. Já passamos desse ponto.”

Outros ambientalistas temem que essa tecnologia de captura de CO2 estimule as pessoas a acharem que não precisam mais reduzir suas próprias emissões de carbono.

“Acho que há um perigo real de que as pessoas enxerguem essa tecnologia como uma solução mágica e passem a se preocupar menos em cortar suas emissões de carbono”, diz Shakti Ramkumar, estudante da Universidade de British Columbia.

“Temos a responsabilidade moral de reduzir nosso consumo em larga escala. Precisamos refletir profundamente sobre onde e como vivemos nossas vidas.”

Essa tecnologia é a ‘solução mágica’ contra o aquecimento global?

É impossível dizer se a ideia da Carbon Engineering fará grande diferença na luta contra as mudanças climáticas.

A empresa acredita que suas máquinas de captura de CO2 podem se tornar tão comuns quanto as plantas de tratamento de água- prestando um serviço valioso, embora pouco notado pelo público em geral.

Por enquanto, a companhia conseguiu dinheiro suficiente para construir a infraestrutura para sequestrar carbono do ar por menos de US$ 100 a tonelada.

Mas, será que com esses grandes investimentos da indústria de petróleo, o foco dos esforços em capturar CO2 não será direcionado à produção de mais combustível fóssil em vez de se direcionar ao controle das mudanças climáticas?

Mas, afinal de contas, as descobertas da Carbon Engineering são a “bala de prata” no controle de gases poluentes?

“Eu nunca diria a ninguém que devemos apostar todas as fichas numa mesma opção”, diz o CEO da Carbon Engineering, Steve Oldham.

“Mas é positivo o fato de que temos a tecnologia pronta, disponível, preparada para ser usada e sem efeitos colaterais químicos.”

Estudos recentes afirmam que espécies que vivem no Ártico, como o urso polar, focas e crustáceos, precisam se adaptar ao constante degelo ou podem desaparecer para sempre devido ao aumento da temperatura do planeta. — Foto: Danile Beltra/Greenpeace/AFPEstudos recentes afirmam que espécies que vivem no Ártico, como o urso polar, focas e crustáceos, precisam se adaptar ao constante degelo ou podem desaparecer para sempre devido ao aumento da temperatura do planeta. — Foto: Danile Beltra/Greenpeace/AFP

Estudos recentes afirmam que espécies que vivem no Ártico, como o urso polar, focas e crustáceos, precisam se adaptar ao constante degelo ou podem desaparecer para sempre devido ao aumento da temperatura do planeta. — Foto: Danile Beltra/Greenpeace/AFP

Fonte: G1

2018 registra 4ª maior alta de CO2 na atmosfera

Um sinal de que o mundo não está agindo para frear as emissões de CO2 e mitigar as mudanças climáticas, como prevê acordo global pelo clima

A concentração de gases do efeito estufa liberados na atmosfera da Terra durante o ano 2018 atingiu o quarto maior nível já observado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês), desde que os registros começaram, há 60 anos.

Os cientistas medem regularmente a abundância de dióxido de carbono (CO2) em amostras atmosféricas coletadas no Observatório Mauna Loa, no Havaí.

Segundo uma nova análise do observatório, a concentração de CO2 subiu 2,87 partes por milhão (ppm) ao longo do ano passado, saltando de uma média de 407,0 ppm em 1º de janeiro de 2018 para 409,9 ppm em 1º de janeiro de 2019.

Três dos quatro maiores aumentos anuais registrados ocorreram nos últimos quatro anos (de 2015 a 2018), um sinal de que o mundo não está agindo para frear as emissões de CO2 e mitigar as mudanças climáticas, como prevê o Acordo do Clima de Paris.

O aumento observado em 2018 ficou atrás apenas do salto recorde de 2016 de 3,01 ppm, do aumento quase recorde de 2,98 ppm em 2015 e da alta de 2,93 ppm em 1998.

Quanto mais demorarmos para frear as emissões, mais difícil será lidar com os impactos ambientais de um planeta aquecido, de secas severas a inundações extremas.

Pelo Acordo de Paris, assinado em 2015, os países signatários devem atingir a meta de limitar o aquecimento do Planeta a no máximo 2 graus Celsius (ºC) até o final do século, acima do níveis pré-industriais, ou no cenário ideal, a 1,5 ºC.

Sem trégua: gráfico mostra concentrações crescentes de dióxido de carbono na atmosfera (em partes por milhão).

Sem trégua: gráfico mostra concentrações crescentes de dióxido de carbono na atmosfera (em partes por milhão). (NOAA/Reprodução)

Por que isso é importante?

A cada ano, as atividades humanas produzem mais CO2 do que os processos naturais podem absorver. Isso significa que o valor líquido de dióxido de carbono atmosférico nunca diminui. Assim, o acúmulo anual do gás segue subindo a medida que população mundial queima mais e mais combustíveis fósseis, como carvão e petróleo para geração de energia.

O dióxido de carbono é, de longe, o mais importante entre os gases de efeito estufa, tanto na quantidade total quanto na taxa de aumento. Nas últimas duas décadas, a taxa de aumento de CO2 foi aproximadamente 100 vezes mais rápida do que os aumentos ocorridos de forma natural durante a última era glacial (entre 11.000 de 17.000 anos atrás).

“A alta acelerada de CO2 na atmosfera hoje em dia é dominada por atividades humanas”, disse Tans. “Não é de causas naturais”.

Transição energética estagnada

Os novos dados sobre o aumento das concentrações de CO2 coincidem com a divulgação de um estudo preocupante do Forum Econômico Mundial, que alerta: a transição energética global estagnou, em parte devido ao uso contínuo de energia a carvão em todo o mundo e ao lento progresso dos países em eficiência energética.

A constatação é do relatório “Promovendo a energia eficaz de Transição”, divulgado nesta segunda-feira (25). Limitar o aquecimento global depende de uma transição rápida de combustíveis fósseis para fontes de energia mais sustentáveis, como eólica e solar.

Mas enquanto Europa e América do Norte se distanciam do carvão, muitos países na Ásia continuam a depender dessa fonte poluente para atender à crescente demanda por energia de suas populações.

Fonte: Exame

Torre do clima

Para fazer ciência na Amazônia, além de enfrentar longos desafios logísticos, também é preciso subir degraus. Muitos deles. Quase 1,5 mil e, se possível, de uma só vez. O esforço vale a pena, pois tem levado a descobertas sobre o impacto tanto das mudanças climáticas na Amazônia quanto da floresta no clima de todo o planeta.

A escadaria está na Torre Alta da Amazônia (ATTO, na sigla em inglês), com 325 metros de altura. A copa das árvores chega geralmente até 40 metros de altura, ou um oitavo da torre ATTO. A torre fica a 150 km de Manaus (AM), na Estação Científica do Uatumã. É lá que cientistas instalam equipamentos capazes de captar informações sobre os fluxos de troca entre a floresta e a atmosfera.

São análises de concentrações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, do balanço de radiação e de fluxos de ozônio e aerossóis – partículas líquidas ou sólidas em suspensão no ar -, entre outros indicadores importantes para que se forme um panorama da importância da floresta amazônica.

A Amazônia desempenha um papel importante nos ciclos biogeoquímicos globais de gases de efeito estufa.

“A floresta controla o balanço de energia, o fluxo de calor latente e sensível, o vapor d’água e os núcleos de condensação de nuvem que vão intensificar o seu ciclo hidrológico. E isso só é possível se houver uma extensão muito grande de floresta contígua. Quando ela é fragmentada, deixa de ter essa propriedade,” explica o professor Paulo Artaxo, da USP.

Amazônia e clima global

A análise de dados coletados na torre ATTO e em outros locais da Amazônia permitiu ao projeto GoAmazon (Green Ocean Amazon Experiment) fazer descobertas importantes sobre a dinâmica da floresta amazônica e sua relação com as mudanças climáticas. A partir de dados obtidos na torre, pesquisadores descobriram que o processo de aquecimento global pode ser ainda mais intenso do que o previsto originalmente caso não se consiga frear o desmatamento.

O grupo de pesquisadores reproduziu matematicamente as condições atmosféricas atuais do planeta, incluindo concentrações de aerossóis, compostos orgânicos voláteis antropogênicos e biogênicos, ozônio, CO2, metano e também os demais fatores que influenciam na temperatura global. De acordo com o estudo, essa maior intensidade de aquecimento está relacionada principalmente às mudanças nas emissões de BVOCs (compostos orgânicos voláteis biogênicos) pelas florestas tropicais.

Outro estudo reforçou a importância da Amazônia na regulação química da atmosfera. Pesquisadores do GoAmazon descobriram que a floresta amazônica emite três vezes mais isopreno do que o estimado anteriormente. A substância é um dos principais precursores do gás ozônio.

Um terceiro trabalho mostrou que na floresta tropical as partículas ultrafinas de poluição emitidas pelas cidades – e que costumam ser desprezadas para o impacto da poluição urbana – afetam substancialmente a formação das nuvens de tempestade na Amazônia. Os resultados obtidos ajudam na compreensão de como a poluição urbana afeta os processos relacionados à formação de tempestades na Amazônia.

“É um quebra-cabeça e nós tentamos justamente identificar novas peças para contar a história completa”, disse Luciana Varanda, professora da Unifesp e integrante do GoAmazon.

Torre ATTO

Em funcionamento desde 2015, a construção da torre custou – 8,4 milhões, financiados metade pelo governo alemão e pelo Instituto Max Planck e a outra metade pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC) do Brasil, com recursos da Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep). Agências de fomento estaduais, como a Fapesp (São Paulo), a Fapeam (Amazonas) e a Funpar (Paraná), financiam projetos de pesquisa na torre.

Na reserva existem ainda outras duas torres mais baixinhas, com 80 metros cada, usadas para o estudo de gases e aerossóis. Nelas é possível ter uma perspectiva mais próxima do dossel e não sobre a floresta, como ocorre com a torre ATTO.

Fonte: Inovação Tecnológica

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