Cientistas estudam papel da Floresta Amazônica no clima do planeta

Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) coordena mapeamento da Amazônia por terra e por ar. Equipamento gera imagens em três dimensões com alta precisão

Cientistas brasileiros estão fazendo um mapeamento detalhadíssimo da Amazônia por terra e pelo ar para avaliar o papel da floresta no clima do planeta. O repórter Fabiano Villela mostra o que os pesquisadores já descobriram no Pará.

Já pensou em conhecer a maior floresta tropical do planeta da cabeça aos pés? O desafio começa em um pequeno avião, onde o passageiro é uma supermáquina: o computador vai na parte de trás, embaixo uma lente que o técnico controla por meio de um monitor. Durante o voo, o sensor dispara mais de cem mil feixes de laser por segundo sobre a floresta, gerando imagens em três dimensões com alta precisão.

É uma espécie de tomografia da Amazônia. Nos laboratórios do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que coordena o projeto, é possível notar a diferença do sensor em relação a outros métodos de captura de dados.

“Isso aqui é uma imagem de satélite, do espectro visível, que mostra um rio. Basicamente a gente tem um curso d’água correndo do Sul para o Norte e toda uma área verde. Só que, quando a gente analisa isso usando outros tipos de imagens de satélite, a gente vê que, na realidade, ali não é só uma área verde. A gente vai ver que só tem floresta e, na realidade, não é só isso”, explicou o analista de dados do Inpe Mauro Assis.

A principal vantagem desse tipo de mapeamento é que ele é capaz de reproduzir imagens de todos os ângulos. Além da copa das árvores, o equipamento também registra o tamanho das folhas, dos galhos, dos troncos e até mesmo o relevo do solo. Essa base de dados gigantesca permite aos pesquisadores calcular a biomassa da Floresta Amazônica, ou seja, quanto pesa toda essa vegetação.

São 80 bilhões de toneladas. Metade de todo esse material existente na floresta é carbono, que as árvores absorvem para se desenvolver. Com o corte da mata, esse carbono é liberado e se transforma em dióxido de carbono, o CO2. O gás forma uma espécie de cobertura no globo terrestre e provoca o aquecimento do planeta.

“Quando a gente queima madeira, a gente sabe que sobra um carvãozinho, e o resto vai como calor e como fumaça, então isso leva CO2 para a atmosfera. Então, o mapa que a gente fez contribui, e muito, numa estimativa melhor de quanto, por exemplo, o Brasil emite quando desmata a Amazônia”, avaliou Jean Ometto, coordenador de pesquisa do Inpe.

“No caso do Brasil, 42% de toda a poluição que é causada, que pode influenciar o clima, é por causa do desmatamento. É o dobro de que todo o setor de energia, que inclui queimar combustível fóssil, os veículos que usam combustível, e é nove vezes a todo o setor industrial, a todas as indústrias do Brasil”, afirmou Paulo Barreto, pesquisador do Imazon.

A última estimativa de desmatamento da Amazônia feita pelo Inpe indica que houve uma perda de 7.900 quilômetros quadrados de floresta entre agosto de 2017 e julho de 2018. Isso é cinco vezes o tamanho da cidade de São Paulo e foi a taxa mais alta desde 2008.

Pedro Henrique de Morais, operador técnico, é testemunha de problemas como esse. Ele acompanhou a maioria dos mil voos realizados para produzir as imagens em três dimensões. Mesmo diante das ameaças, o que mais me impressionou foi a beleza da floresta.

Ativistas protestam contra desmatamento da Amazônia em Berlim

Movimento Extinction Rebellion se une a cientistas e exige de UE que importações brasileiras sejam vinculadas a proteção ambiental e dos direitos humanos. Manifestantes contestam acusações de ministro do Meio Ambiente.Ativistas do movimento ambiental Extinction Rebellion (Rebelião da Extinção) protestaram nesta segunda-feira (29/04) em Berlim contra o desmatamento da Amazônia. A manifestação apoiou os mais de 600 cientistas europeus que pediram para a União Europeia vincular as importações oriundas do Brasil à proteção do meio ambiente e dos direitos humanos.

“Compramos muitos produtos vindos do Brasil e temos a responsabilidade de dizer aos nossos líderes que não queremos esses produtos associados a danos ambientais ou abusos de direitos humanos do outro lado do mundo. Além disso, temos que tomar uma posição, principalmente, em relação ao impacto do desmatamento nas mudanças climáticas”, afirmou a zoóloga Claire Wordley, da Universidade de Cambridge, que organizou o protesto.

“Queremos lembrar os países europeus de suas responsabilidades. A UE tem uma ótima legislação para padrões ambientais e de direitos humanos, mas no momento eles são somente aplicados nos países europeus”, destacou Wordley, que também é uma das signatárias da carta apoiada por mais de 600 cientistas europeus, publicada na semana anterior na revista científica Science.

No manifesto, os pesquisadores pediram à União Europeia que faça um esforço maior para evitar importações do Brasil oriundas de regiões desmatadas ou de conflito agrário. No documento, o grupo destaca ainda a importância da Amazônia no combate ao aquecimento global.

Realizado diante do Portão de Brandemburgo, o protesto reuniu cerca de 40 pessoas, segundo a estimativa da polícia. Além de bandeiras com o símbolo da Extinction Rebellion, os ativistas levaram cartazes com dizeres: “Sem levante, sem futuro”, e fotografias de indígenas e da Floresta Amazônica.

Durante o ato, os ativistas destacaram a importância da Amazônia para o clima global e acusaram o presidente Jair Bolsonaro de promover uma política de destruição ambiental e de ameaça aos direitos dos povos indígenas. Os manifestantes também contestaram as alegações do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que, em entrevista à GloboNews, disse que o manifesto não tinha credibilidade e que escondia uma guerra comercial com o Brasil, além de supostos interesses econômicos dos cientistas.

“Não fazemos ideia quais seriam os interesses econômicos que o ministro falou que temos. Publicamos a carta porque estamos preocupados com a situação no Brasil. Estamos fazendo isso para o nosso futuro e para o futuro dos brasileiros, especialmente os indígenas”, ressaltou Wordley.

Ao comentar a alegação de Salles de que o Brasil seria um exemplo de preservação do meio ambiente, Wordley argumentou que os impactos negativos do desmatamento da Amazônia já pode ser sentido e que eles podem piorar se o desmatamento continuar. “As políticas precisam ser muito mais duras do que estão sendo. Não podemos mais arcar com a destruição da Amazônia e também de outros ecossistemas no Brasil”, afirmou.

A pesquisadora destacou que a iniciativa dos cientistas europeus não é para banir as importações oriundas do Brasil, mas para estimular um comércio responsável e sustentável, que não gere danos ambientais e abusos de direitos humanos. “Não queremos comer desmatamento no jantar”, disse.

Após a leitura da carta, os manifestantes homenagearam os ativistas ambientais mortos no Brasil. Foram lidos os nomes de ambientalistas assassinados no ano passado e de indígenas mortos nos últimos anos.

Recentemente, o movimento parece ter conseguido um associado ilustre. Um grafite atribuído ao artista britânico Banksy com mensagem de apoio à causa foi descoberto num dos cruzamentos mais movimentados de Londres.

Fonte: Terra

Boletim do desmatamento da Amazônia Legal (janeiro 2019) SAD

Em janeiro de 2019, o SAD detectou 108 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal, um aumento de 54% em relação a janeiro de 2018, quando o desmatamento somou 70 quilômetros quadrados. Em janeiro de 2019, o desmatamento ocorreu no Pará (37%), Mato Grosso (32%), Roraima (16%), Rondônia (8%), Amazonas (6%) e Acre (1%).

As florestas degradadas na Amazônia Legal somaram 11 quilômetros quadrados em janeiro de 2019 e ocorreram no Mato Grosso (55%), Pará (27%), Amazonas (9%) e Rondônia (9%). Não houve detecção de degradação florestal em janeiro de 2018.

Geografia do Desmatamento

Em janeiro de 2019, a maioria (67%) do desmatamento ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse. O restante do desmatamento foi registrado em assentamentos (21%), Terras Indígenas (7%) e Unidades de Conservação (5%).

Baixe aqui o infográfico

Fonte: Imazon

Deus acima de (quase) todos

Não precisa espionar o papa, presidente; basta impor um pouquinho de lei e ordem na Amazônia

“Agora nós falamos em Deus”, escreveu o chanceler brasileiro Ernesto Araújo, num famoso artigo em que atribui a crise brasileira ao fato de as pessoas não conversarem sobre o Altíssimo em público. A julgar pelo noticiário recente, o próximo édito do nosso ministro terá como título: “Agora nós espionamos Deus”. Ou pelo menos um de seus representantes na Terra, o papa Francisco.

Reportagem do jornal O Estado de S.Paulo no último dia 10 mostrou como o general Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, iniciou uma cruzada para “neutralizar” o Sínodo da Amazônia, um encontro de bispos católicos convocado pelo papa para discutir a situação da floresta e de seus povos, em outubro.

Segundo o jornal, arapongas da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) estão sendo mobilizados para monitorar reuniões de paróquias em preparação para o Sínodo. A tese dos militares é que a Igreja Católica é um refúgio da “esquerda” e uma espécie de braço celestial do PT, pronta para usar o palco internacional para criticar a política de Jair Bolsonaro para a Amazônia. Diante da repercussão do caso, o GSI soltou uma nota tranquilizadora, só que não: “não estamos espionando a Igreja Católica”. Dá quase para ver a piscadinha marota do Didi Mocó lendo o comunicado.

Se fossem um pouquinho menos ideológicos e um pouquinho menos obcecados em encontrar perigosos comunas armando uma revolução atrás de cada moita, os militares entenderiam que ninguém precisa espionar os padres. Afinal, o que a Igreja e o papa querem para a Amazônia é basicamente a mesma coisa que Bolsonaro prometeu instituir no país: lei e ordem. As agendas do quartel e da Santa Sé são bastante convergentes.

A pergunta que ronda os solidéus dos bispos, e que deveria igualmente tirar o sono dos militares, é por que a Amazônia vive à margem da lei. A região Norte foi a que teve o maior crescimento no número de homicídios na última década, segundo o Atlas da Violência do IBGE.

A violência no campo, em decorrência de conflitos por terra, retornou a patamares da década de 1980; em 2017, segundo a Comissão Pastoral da Terra, Rondônia e Pará concentraram 54% dos 70 assassinatos no campo no Brasil. A Abin empregaria melhor seus agentes no mapeamento desses conflitos e na prevenção dessas mortes.

O crime organizado está por trás de uma fatia significativa do desmatamento na floresta. Em 2018, 59% do desmatamento ocorreu em áreas privadas ou em áreas públicas griladas. Há quadrilhas especializadas em roubo de madeira e quadrilhas especializadas em invadir terra pública, com ajuda da melhor tecnologia de sensoriamento remoto, pôr a floresta abaixo —usando trabalho escravo—, forjar títulos e vender a área para pecuaristas e agricultores que sempre poderão alegar que não sabiam de nada.

O desmatamento gera emissões de carbono —46% das emissões do Brasil em 2017 vieram da destruição das florestas—, que por sua vez agravam o aquecimento do planeta, pondo em risco o que o papa chamou de “casa comum”. Como já disse o ecólogo Tom Lovejoy, esta é verdadeira internacionalização da Amazônia: transformar a floresta em fumaça, que polui o mundo todo.

E, o que é pior, sem gerar riqueza. O PIB do agronegócio brasileiro subiu 75% e a produção de carne e soja na Amazônia cresceram no período em que o desmatamento na floresta caiu 80%, entre 2004 e 2012. O presidente Bolsonaro, em sua investida míope e mal assessorada contra terras indígenas e proteção ambiental, não está ajudando o agronegócio; está criando-lhe um problema sério de imagem. Os generais, que tiveram mais estudo sobre estratégia que o capitão, deveriam aconselhá-lo melhor.

A Igreja tem justa preocupação com o desmatamento, que é uma agenda para além de inclinações ideológicas. O carbono, afinal, não é de esquerda, nem de direita. Como o aquecimento da Terra acarreta problemas sérios de segurança nacional e internacional —cada um dos generais que está no Governo lê atentamente estudos sobre o tema produzidos pelo Pentágono—, o desmatamento deveria estar também no alto da lista das preocupações dos militares. Aliás, como o general Heleno vai também lembrar, o desmatamento na Amazônia começou a cair em 2005, quando o Exército ocupou o sul do Pará após o assassinato da irmã Dorothy Stang.

As organizações criminosas que promovem a devastação da Amazônia são um desafio permanente à soberania do Brasil sobre vastas porções da floresta e ameaçam cerca de 70 milhões de hectares de terras pertencentes ao Estado brasileiro e ainda não destinadas. O Ibama e a PF certamente adorariam ter a ajuda da Abin para desbaratar essas quadrilhas.

Por fim, grande parte das mazelas da Amazônia tem a mesma origem que as chagas do resto do Brasil e também preocupa a Santa Madre: a corrupção. Além de ser o lubrificante da atividade criminosa do roubo de terras e de madeira, a corrupção tem-se revelado peça central do planejamento de infraestrutura esdrúxula na Amazônia, como as usinas do Madeira e de Belo Monte.

Jair Bolsonaro foi eleito por um contingente significativo de brasileiros que queriam dar um basta à corrupção e ao crime. Combater esses males no restante do país e deixar a Amazônia entregue a eles não faz nenhum sentido. As Forças Armadas conhecem o valor estratégico da Amazônia. Deveriam unir-se ao papa e a toda a sociedade na busca de soluções para seu desenvolvimento sustentável em vez de ressuscitar antigas paranoias.

Fonte: El País

Torre do clima

Para fazer ciência na Amazônia, além de enfrentar longos desafios logísticos, também é preciso subir degraus. Muitos deles. Quase 1,5 mil e, se possível, de uma só vez. O esforço vale a pena, pois tem levado a descobertas sobre o impacto tanto das mudanças climáticas na Amazônia quanto da floresta no clima de todo o planeta.

A escadaria está na Torre Alta da Amazônia (ATTO, na sigla em inglês), com 325 metros de altura. A copa das árvores chega geralmente até 40 metros de altura, ou um oitavo da torre ATTO. A torre fica a 150 km de Manaus (AM), na Estação Científica do Uatumã. É lá que cientistas instalam equipamentos capazes de captar informações sobre os fluxos de troca entre a floresta e a atmosfera.

São análises de concentrações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, do balanço de radiação e de fluxos de ozônio e aerossóis – partículas líquidas ou sólidas em suspensão no ar -, entre outros indicadores importantes para que se forme um panorama da importância da floresta amazônica.

A Amazônia desempenha um papel importante nos ciclos biogeoquímicos globais de gases de efeito estufa.

“A floresta controla o balanço de energia, o fluxo de calor latente e sensível, o vapor d’água e os núcleos de condensação de nuvem que vão intensificar o seu ciclo hidrológico. E isso só é possível se houver uma extensão muito grande de floresta contígua. Quando ela é fragmentada, deixa de ter essa propriedade,” explica o professor Paulo Artaxo, da USP.

Amazônia e clima global

A análise de dados coletados na torre ATTO e em outros locais da Amazônia permitiu ao projeto GoAmazon (Green Ocean Amazon Experiment) fazer descobertas importantes sobre a dinâmica da floresta amazônica e sua relação com as mudanças climáticas. A partir de dados obtidos na torre, pesquisadores descobriram que o processo de aquecimento global pode ser ainda mais intenso do que o previsto originalmente caso não se consiga frear o desmatamento.

O grupo de pesquisadores reproduziu matematicamente as condições atmosféricas atuais do planeta, incluindo concentrações de aerossóis, compostos orgânicos voláteis antropogênicos e biogênicos, ozônio, CO2, metano e também os demais fatores que influenciam na temperatura global. De acordo com o estudo, essa maior intensidade de aquecimento está relacionada principalmente às mudanças nas emissões de BVOCs (compostos orgânicos voláteis biogênicos) pelas florestas tropicais.

Outro estudo reforçou a importância da Amazônia na regulação química da atmosfera. Pesquisadores do GoAmazon descobriram que a floresta amazônica emite três vezes mais isopreno do que o estimado anteriormente. A substância é um dos principais precursores do gás ozônio.

Um terceiro trabalho mostrou que na floresta tropical as partículas ultrafinas de poluição emitidas pelas cidades – e que costumam ser desprezadas para o impacto da poluição urbana – afetam substancialmente a formação das nuvens de tempestade na Amazônia. Os resultados obtidos ajudam na compreensão de como a poluição urbana afeta os processos relacionados à formação de tempestades na Amazônia.

“É um quebra-cabeça e nós tentamos justamente identificar novas peças para contar a história completa”, disse Luciana Varanda, professora da Unifesp e integrante do GoAmazon.

Torre ATTO

Em funcionamento desde 2015, a construção da torre custou – 8,4 milhões, financiados metade pelo governo alemão e pelo Instituto Max Planck e a outra metade pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC) do Brasil, com recursos da Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep). Agências de fomento estaduais, como a Fapesp (São Paulo), a Fapeam (Amazonas) e a Funpar (Paraná), financiam projetos de pesquisa na torre.

Na reserva existem ainda outras duas torres mais baixinhas, com 80 metros cada, usadas para o estudo de gases e aerossóis. Nelas é possível ter uma perspectiva mais próxima do dossel e não sobre a floresta, como ocorre com a torre ATTO.

Fonte: Inovação Tecnológica

Leonardo DiCaprio denuncia aumento do desmatamento na Amazônia

Após Gisele Bündchen declarar à ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que quem desmata é mau brasileiro, o ator norte-americano chama atenção para o grave problema ambiental

O ator Leonardo DiCaprio fez da brincadeira Desafio dos 10 anos (“10 Years Challenge”) do Instagram um alerta ambiental de interesse mundial. Em vez de postar fotos suas mostrando o quanto sua fisionomia mudou em dez anos, preferiu colocar lado a lado fotos da floresta amazônica que não deixam dúvida sobre o avançado processo de desmatamento.

Foi a segunda vez nesta semana que uma celebridade internacional manifestou publicamente sua preocupação com a questão. Na quarta-feira (16), a modelo Gisele Bündchen disse que “maus brasileiros são aqueles que desmatam”, em resposta à ministra da Agricultura Tereza Cristina.

Em programa de rádio, a “musa do veneno” – apelido que ganhou dos próprios ruralistas por deixar o Pacote do Veneno pronto para votação no plenário da Câmara o projeto que libera geral a importação, registro e uso de agrotóxicos – disse que quando Gisele diz “que estamos desmatando o mundo reverbera”.

Em sua página oficial na rede Instagram, o ator vencedor do Oscar publicou imagens do satélite Landsat para mostrar o desmatamento em Rondônia entre 2006 e 2018. Em seu comentário, destaca que a região está entre as que mais perderam cobertura florestal na Amazônia brasileira.

A manifestação de DiCaprio é também um alerta para a política ambiental do governo de Jair Bolsonaro (PSL), que passou para os ruralistas o controle sobre terras, demarcações e política fundiária, colocando mais lenha na fogueira dos conflitos agrários no país, que matam indígenas, trabalhadores rurais e assentados. Além disso, considera medidas contra o aquecimento global uma questão secundária, já que não passa de “invenção de marxistas”.

O ator tem mais de 25 milhões de seguidores no Instagram e arrancou 100 mil likes em menos de uma hora de publicação. Ou seja, repercussão internacional imediata.

Em 1998, DiCaprio criou a Leonardo DiCaprio Foundation (LDF). Entre as ações financiadas estão projetos de proteção de florestas.

Foto: Reprodução/Instagram

Fonte: Revista Forum

A Amazônia se aproxima do ponto de ruptura, diz Carlos Nobre

O climatologista reflete sobre os desafios de preservação da floresta e a necessidade de uma agropecuária de carbono neutro

Polêmicas em relação ao meio ambiente marcaram a campanha, a transição e o início do governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro. Apoiado pela Frente Parlamentar da Agropecuária, o capitão reformado do Exército questionou os compromissos estabelecidos pelo Acordo de Paris e alinhou-se a um discurso negacionista reforçado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O argumento é de preservar a “soberania nacional”, ao mesmo tempo em que se atribui um “viés ideológico” a instituições ambientais independentes, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Além, é claro, da desistência de sediar a Conferência do Clima da ONU em 2019, a COP-25.

Após ser indicado para ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles declarou que o aquecimento global é uma questão secundária. Em 19 de dezembro de 2018, a Justiça de São Paulo condenou Salles por improbidade administrativa, acusado pelo Ministério Público de fraudar o Plano de Manejo de Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê, em 2016, quando era secretário do Meio Ambiente do estado. Já o novo chanceler Ernesto Araújo acredita que os estudos e a política em relação às mudanças climáticas são influenciados por um “marxismo cultural”.

Bolsonaro colocou a comunidade ambiental em alerta já no primeiro dia de governo. Em decreto publicado no Diário Oficial da União, o presidente encarregou o Ministério da Agricultura de identificar, delimitar e demarcar terras indígenas (antes sob responsabilidade da Fundação Nacional do Índio, Funai) e quilombolas (até então feitas pela Fundação Palmares).

A pasta também controlará os licenciamentos ambientais, as políticas de reforma agrária e o Serviço Florestal Brasileiro, órgão com fins, por exemplo, de recuperar vegetações nativas e auxiliar processos de concessão das matas.

Carlos Nobre participa do seminário Prontos para o tempo, preparados para o clima. O climatologista alerta que, caso a lei do “Velho Oeste” volte ao Brasil – com invasão de terras indígenas e públicas–, o meio ambiente pode ser muito prejudicado.

Tais funções serão realizadas pela Secretaria Especial de Assuntos Fundiários, sob o controle de Luiz Antônio Nabhan Garcia. Ele é presidente da União Democrática Ruralista (UDR) e, ao Estadão, avisou que demarcações serão “passadas a limpo”, a exemplo da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima.

“Se a ideia de desmatar o quanto quiser e de invadir terras públicas prosperar, eu vejo com grande preocupação a questão do respeito com os compromissos ambientais”, observa o climatologista Carlos Nobre. O cientista paulistano pesquisa mudanças climáticas e Amazônia há mais de quatro décadas.

Em 1975, após se formar em engenharia eletrônica no Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA), Nobre mudou-se para Manaus para trabalhar no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Entre 1977 e 1982, fez doutorado em meteorologia no Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT), orientado pelo professor Jeff Charney, pioneiro nas pesquisas sobre o aquecimento global. Após os estudos, Nobre tornou-se cientista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Em paralelo aos trabalhos no Inpe, Nobre deu sequência às pesquisas acadêmicas. Em 1988, como pesquisador da Universidade de Maryland, realizou um estudo inédito sobre os impactos climáticos dos desmatamentos na Amazônia. Em 1991, levantou a possibilidade de a Amazônia deixar de ser floresta para virar uma savana, em um cenário de alta no desmatamento e na temperatura global.

Em 2007, Nobre foi um dos autores do relatório sobre o aquecimento global do Painel Intergovernamental em Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), agraciado com o prêmio Nobel da Paz. Entre outras funções, Nobre é membro da Academia Brasileira de Ciências e foi secretário nacional do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Desde maio de 2018, tornou-se pesquisador colaborador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, cujo objetivo é estabelecer caminhos de desenvolvimento sustentável para o Brasil até 2050.

Na entrevista a seguir, Nobre analisa a postura brasileira no âmbito ambiental; os compromissos do Acordo de Paris; o aumento do risco de savanização da Amazônia; a influência da bancada ruralista no Congresso para afrouxar legislações ambientais; e seu projeto de desenvolvimento sustentável batizado de Terceira Via Amazônica.

“Se a ideia de desmatar o quanto quiser e de invadir terras públicas prosperar, eu vejo com grande preocupação a questão do respeito com os compromissos ambientais.” POR CARLOS NOBRE

No final dos anos 1970, o aquecimento global entrou em pauta na comunidade científica. Desde então, qual tem sido o papel do Brasil?

O Brasil tem uma posição “esquizofrênica”. Diplomaticamente, possui um papel muito importante desde que hospedou a Rio-92. Em 1997, o país propôs o mecanismo de desenvolvimento limpo noProtocolo de Kyoto, que teve efeito a partir de 2005, quando assinado pelos países responsáveis por 55% das emissões mundiais. Depois, hospedou a Rio+20. Hoje, é o país com as mais ambiciosas metas de redução de emissões colocadas em 2015 no Acordo de Paris. No entanto, da Rio-92 até 2005, apresentava uma postura interna muito atrasada, com o propósito de expansão indefinida e irrefreável da fronteira agrícola e do desmatamento.

Na questão dos recursos fósseis, a contradição continua até hoje. Ao avaliar o grande potencial das reservas do pré-sal, o Brasil parte para uma política de uso do combustível fóssil de maneira muito mais intensiva, enquanto diminui a velocidade com que substitui a gasolina pelo bioetanol. Por outro lado, em 2004, o país lançou como política pública o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia Legal, o PPCDAm. Seu enorme impacto talvez seja o que mais projetou o Brasil no cenário político e diplomático mundial em muitas décadas. Com a redução do desmatamento em mais de 70%, o Brasil se tornou um modelo para todos os países tropicais e foi seguido no restante dos países da Amazônia, na África e no Sudeste Asiático.

Apesar disso, nos últimos anos estacionamos com as quedas do desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Felizmente elas não atingiram os níveis absurdos de 2005, mas ainda mostraram aumento. Tínhamos alcançado um número de 4.500 km2desmatados na Amazônia, porém já voltamos para quase 8.000 km2 de derrubadas. Portanto, não cumprimos a nossa meta estabelecida em lei em 2010, que as limitavam a 3.900 km2 na Amazônia.

UMA NOVA ESPÉCIE É DESCOBERTA POR DIA NA REGIÃO DA AMAZÔNIA
Estudo feito pela WWF e o Instituto Mamirauá, relatou que 381 novas espécies foram encontradas entre 2014 e 2015.

Em 1988, o senhor analisou de forma pioneira os impactos climáticos do desmatamento na Amazônia. Em 1991, levantou a hipótese da savanização deste bioma. Alguns impactos previstos naquela época já foram sentidos pela floresta?

Nosso conhecimento avançou muito mundialmente. Quando produzi os primeiros estudos, entre 1988 e 1991, aquilo era uma hipótese. Naquela época, os desmatamentos na Amazônia brasileira estavam na faixa de 8%, 9%. Hoje, chegaram a 20%. A hipótese era de que, se a floresta toda fosse desmatada, aconteceria a savanização. Agora, já temos algumas suspeitas de que o processo esteja em curso. O principal fator de preocupação é o aumento da duração da estação seca no sul e no sudeste da Amazônia. Nos últimos 30 anos, a estação seca está em média seis dias mais longa por década. A mais duradoura passou de meio mês. Se continuar assim, aquela região acabará virando uma savana bem degradada.

Alguns lugares do Cerrado têm o mesmo nível de chuva da região de Santarém, na Amazônia – anualmente, um total de 1.800 mm. Se chove o mesmo volume, por que em um lugar se tem floresta e no outro, cerrado? Na região de Santarém a chuva é bem distribuída o ano todo e a estação seca é muito curta. No Cerrado, a precipitação é muito concentrada na estação chuvosa, e depois essas regiões passam por três, quatro meses de chuva zero, enquanto em Santarém chove 80, 100 mm na estação seca. Essa é a grande diferença. Estudos de ecologia começam a mostrar um aumento da mortalidade de algumas espécies de árvores. Então, estamos realmente muito próximos desse ponto de ruptura.

Com nossa política do uso da terra no Brasil, podemos evitar dois dos três fatores que levam à savanização. Primeiro, temos que zerar o desmatamento rapidamente. Na COP-24 na Polônia, o grupo do qual faço parte, chamado Coalizão Brasil, lançou um documento mostrando que podemos zerar o desmatamento em todos os biomas, por meio de uma agricultura muito mais produtiva. Segundo ponto: reduzir o uso do fogo na agricultura, que tem aumentado o risco da savanização. Temos visto muito mais incêndios florestais hoje do que dez, 20 anos atrás. O terceiro fator está fora do nosso controle: o aquecimento global. Mesmo se reduzirmos a zero as emissões do Brasil, ainda dependemos que o resto do mundo faça o mesmo.

Nos nossos cálculos, se o aquecimento na Amazônia passar de 4ºC – já chegou a 1,5ºC –, teremos essa grande mudança do bioma para a savana. Seria um caso extremo, no qual as emissões continuariam como estão por 40, 50 anos. Recentemente, escrevemos um alerta na Science Advances de que não deveríamos deixar o desmatamento passar de 20%, 25% na Bacia Amazônica como um todo. Já chegou a 17% na internacional; na parte brasileira, a 20%.

Por dois fatores importantes. Durante a estação que chove menos, a gramínea [vegetação típica das pastagens] diminui bastante sua vapotranspiração, ou seja, o vapor de água lançado para a atmosfera cai pela metade. Já a floresta acessa aquela água que caiu durante a estação chuvosa e foi para o fundo, por meio das raízes profundas. Há décadas observamos que as florestas transpiram mais na estação seca do que na chuvosa. E o fluxo de vapor d’água é muito importante para contribuir para a formação de chuva.

Outro fator importante é que a floresta tem uma superfície bem rugosa para o fluxo de vento. O topo da gramínea não é homogêneo, portanto o vento também sobe e desce, mas com variação muito pequena. A floresta tem uma irregularidade da superfície maior, que chamamos de rugosidade. O vento não consegue ficar horizontal. Passa por cima de uma árvore muito alta, depois cai. Isso gera muita turbulência com a superfície, que mistura o ar e facilita a transpiração e a diminuição da temperatura. O sol aqueceu o topo, os galhos, as folhas de uma árvore. O vento pega aquele ar quente e joga para cima. Aí vem um ar um pouco mais frio, que será aquecido de novo.

Se colocar uma floresta e uma pastagem na Amazônia, lado a lado, com a mesma chuva e o mesmo clima, a temperatura máxima da floresta será de 2ºC a 3ºC menor que a da pastagem. E a evaporação da floresta será de 30% a 50% superior. Essas fontes geram as chuvas principalmente na estação seca. São precipitações locais, de 2 mm a 5 mm, mas muito frequentes e importantes para a manutenção da floresta.

Que impactos esse ponto de inflexão traria não apenas para a Amazônia, mas para o Brasil?

O ponto de ruptura para a savanização da Amazônia não aconteceria da noite para o dia, mas de uma década a outra. Estimamos que, uma vez ultrapassado o limite do desmatamento, leva-se entre 20 e 50 anos para ocorrer essa substituição. E a savana virá de forma irreversível, porque será o bioma em equilíbrio para o novo clima. Ao diminuir as chuvas locais, reduzirá também a vazão dos rios.

Em um total desmatamento da Amazônia, ou seja, na substituição de floresta por pastagem, há boas evidências de que haveria uma alteração das chuvas no inverno no sul da Bacia do Prata, no sul do Paraguai e do Uruguai, no sul do Brasil e no centro-leste da Argentina. Nessas regiões, há uma correlação de fluxo do vapor d’água que sai da Amazônia e segue ao sul, paralelo aos Andes, e abastece os sistemas de chuva.

Ainda não sabemos o impacto no Sudeste. Durante o verão, temos uma estação chuvosa muito pronunciada, sendo que 65% do vapor d’água vem do Atlântico. Uma parte menor vem da Amazônia. Pode até ter impacto, porque a mudança das chuvas da Amazônia, com o desmatamento, altera as circulações tropicais. O efeito nessa relação seria menor, mas pode existir, porque as chuvas de verão diminuiriam. Mas ainda há incerteza científica, pois os modelos computacionais não concordam totalmente. Precisamos avançar nesse conhecimento científico.

“Devemos nos tornar muito mais rigorosos em exigir nossos direitos. Se houver movimentos no Congresso para mudar a legislação ambiental e enfraquecer a regulamentação que torna ilegal desmatamentos e queimadas, a população tem que reagir.” POR CARLOS NOBRE

Como o senhor observa os compromissos assumidos no Acordo de Paris mundialmente, assim como especificamente os do Brasil?

Primeiro, os compromissos até 2030 levariam o planeta a aumentar sua temperatura na faixa de 2,8ºC a 3,3ºC até o final do século, e continuaria subindo. As metas estão muito longe de garantir que ficaremos dentro dos 2ºC, muito menos de 1,5ºC. Alguns países estão nas trajetórias das contribuições nacionalmente determinadas, inclusive os Estados Unidos. Por mais que o presidente Donald Trump tenha ameaçado tirar o país do Acordo de Paris, as emissões americanas diminuíram em 2017 na mesma taxa dos últimos dez anos e estudos preliminares afirmam que a redução continuou em 2018.

As metas do Brasil para 2025 e 2030 são as mais ambiciosas entre os países em desenvolvimento: até 2025, 37% de redução das emissões em relação a 2005 e 43% de redução até 2030. Estados Unidos, China (a maior emissora) e Índia, a terceira, colocaram metas relativas. Até 2030, apenas prometem parar o aumento das emissões.

Enquanto os desmatamentos despencavam, o Brasil praticamente garantia sua trajetória correta. Mas depois de 2014 os desmatamentos estacionaram e, nos últimos anos, voltaram a aumentar. Já as emissões por queima de combustíveis fósseis aumentaram um pouco. Em 2014 e 2015, as secas interromperam a operação de muitas hidrelétricas, então as termelétricas entraram em máxima potência. As usinas eólicas têm se inserido muito rapidamente, mas ainda em um percentual pequeno no quadro de energia total – nem 10% da eletricidade. Já é importante, mas não o suficiente para garantir que as emissões provocadas pelos setores de energia e transportes sinalizassem uma tendência de queda.

Os desafios são maiores em outras áreas, como a redução das emissões na agricultura. A boa notícia é que elas vêm subindo em uma proporção menor do que o aumento do PIB agrícola. Em outras palavras, o setor econômico agropecuário está ficando mais eficiente, emite menos para produzir a mesma quantidade de produtos. Então, o Brasil pode cumprir seus compromissos até 2025, 2030? Pode, se reduzir drasticamente os desmatamentos.

No discurso de campanha, o presidente eleito Jair Bolsonaro sinalizava tirar o país do Acordo de Paris, pois, na opinião dele, os compromissos iam contra a “soberania nacional”. Que impactos sociais, ambientais e econômicos uma possível saída do Brasil do Acordo de Paris poderia trazer?

Olha, de fato essa possibilidade já foi descartada pela equipe do novo governo. Mas me pergunto se haverá alguma vacilação do governo para atingir as metas. Nos Estados Unidos, a vacilação do presidente Trump não teve muito impacto, porque lá o principal fator de emissão é a queima de combustíveis fósseis (80%). Nos EUA, já começou uma onda muito forte de substituição por fontes renováveis – eólica e solar. É um movimento enorme na economia americana, que gera centenas de milhares de empregos por ano e os preços são competitivos. Liderados pela Califórnia e por Nova York, 17 estados americanos assinaram compromissos rigorosos.

No Brasil é diferente, porque aqui 65% das emissões vêm de desmatamentos e agricultura. Então, temos que reduzir os desmatamentos e tornar nossa agricultura mais neutra. Se houver sinalização de que o “Velho Oeste” voltará a imperar no Brasil, se a ideia de desmatar o quanto quiser e de invadir terras públicas prosperar, eu vejo com grande preocupação a questão do respeito aos compromissos ambientais.

É lógico que o governo federal é muito importante para isso, mas temos instituições independentes. Se o Brasil quiser alguma perspectiva de melhora nos próximos anos e décadas, precisa respeitar a lei, a partir do Ministério Público, das atividades da Polícia Federal desbaratando quadrilhas, crime organizado e corrupção em todos os níveis (empresarial, governamental), que estão na raiz da invasão de terras públicas, do desmatamento, do roubo de madeira. Então, independente do presidente, do governo e dos ministros, temos que observar que o Brasil já adquiriu certa estatura de órgãos independentes que realizam sua missão de acordo com o que reza a Constituição.

E dependemos muito da população. Devemos nos tornar muito mais rigorosos em exigir nossos direitos. Se houver movimentos no Congresso para mudar a legislação ambiental e enfraquecer a regulamentação que torna ilegal desmatamentos e queimadas, a população tem que reagir. Se os deputados não seguirem a vontade da maioria, o que é essencial em uma democracia, a população não só não deve reelegê-los daqui a quatro anos, mas também tem que cobrar. Isso é muito importante e não tem ideologia. Não é uma questão ideológica, de direita, de esquerda, de centro… É uma vontade muito manifesta da população brasileira que o Congresso tem que respeitar.

O ministro do Meio Ambiente lançou recentemente os números do desmatamento em 2017, mostrando um aumento de quase 14% em relação ao período anterior. Ele falou que quase todo aquele desmatamento era ilegal, sem autorização nem em áreas onde a derrubada é permitida por lei. Quer dizer, existe um clima de grande ilegalidade por trás dos desmatamentos e das queimadas, e é isso que realmente temos que combater.

O governo de transição tem mostrado ceticismo em relação às mudanças climáticas. Por exemplo, o futuro chanceler Ernesto Araújo acredita que o aquecimento global é um complô global marxista. O que o senhor pensa sobre esse cenário?

A preocupação existe, mas não é nova. Essas tendências de fato começaram com a luta política que a bancada ruralista do Congresso iniciou em 2010, 2011, quando fez várias moções para mudar o Código Florestal, alterado em 2012. É um movimento para enfraquecer controles de legislação ambiental.

A maior preocupação que tenho é o fato de que a lei, com o novo Código Florestal, perdoou a ilegalidade de todos os desmatamentos até julho de 2008. Se de tempos em tempos, de dez em dez anos, passar uma lei que torne legal um desmatamento originariamente feito de forma ilegal, isso transmite para o setor agressivo, conservador, atrasado da agropecuária a noção de que não existe legislação. Que eles podem invadir terra pública, que podem desmatar, que podem roubar madeira. Que um dia aquilo tudo será perdoado, as multas irão desaparecer, as terras serão legalizadas… Ou seja, é uma sinalização de que não é importante nem necessário acompanhar o Código Florestal de hoje, que ainda é rigoroso em muitos aspectos. Ninguém interpretou ainda qual a força dessa bancada no novo Congresso, mas ela tem sido historicamente muito forte no Brasil. É uma fraqueza da democracia, em um país em que as leis têm uma duração curta e são modificadas por interesses de poderosos política e economicamente.

É importante dizer que o setor moderno da agricultura e da pecuária já se coloca fortemente contra o avanço do desmatamento e das queimadas, porque já se deu conta de que isso é prejudicial para os próprios negócios. Não só no sentido de diminuir a atratividade dos produtos brasileiros em mercados ambientalmente rigorosos, como o europeu, mas também porque manter o máximo possível de biomas originais traz benéficos para a produção agrícola e pecuária.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tem experimentos recentes que mostram um enorme aumento da produtividade nos sistemas chamados “integração lavoura-pecuária-floresta”. Quando se coloca um sombreamento, o gado produz muito mais leite e muito mais carne. Isso já era algo conhecido, mas agora finalmente começa a ser disseminado entre os pecuaristas e agricultores do setor moderno, que escuta a ciência e a tecnologia.

Infelizmente, temos um setor numericamente expressivo que ainda possui uma visão de expansão continuada da fronteira agrícola, sobretudo da pecuária. Estão muito mais preocupados com a posse da terra do que com uma visão empresarial de produtividade. É um pouco daquela mentalidade da colonização que ocorreu nos Estados Unidos, marcada pela força da violência, das armas, a expulsão das comunidades indígenas que eram as reais proprietárias da terra. Nesse cenário, quadrilhas criminosas tomam terras públicas e depois as vendem a pecuaristas.

O que ainda precisa mudar para impedir o desmatamento em áreas já protegidas?

Ainda temos na Amazônia algo em torno de 600 mil e 800 mil km2 de terras públicas. É importante dar uma destinação para essas áreas, com a criação de reservas protegidas e florestas nacionais, por exemplo. Caso contrário, elas se tornam alvos da grilagem, que também ocorre em áreas de proteção e reservas indígenas. A razão do sucesso da redução do desmatamento em mais de 70%, entre 2005 e 2014, é uma rigorosa política de controle, desbaratamento e desmembramento das quadrilhas organizadas responsáveis pelo roubo de madeira e pela grilagem em terras públicas. Acima de 70% dos desmatamentos são ilegais e muitos estão associados a organizações criminosas. Também precisamos dar mais ênfase na proteção das áreas já existentes, que correspondem a 50% da Amazônia brasileira, seja como áreas protegidas, reservas indígenas ou de desenvolvimento sustentável.

“Os ativos biológicos na Amazônia são muito superiores do que se substituíssem a floresta por pastagem para a pecuária, por grãos para a agricultura ou por extração de minérios.”

POR CARLOS NOBRE

O World Resources Instituteaponta que a agropecuária brasileira é responsável por 1% de todos gases de efeito estufa emitidos no mundo. Que fatores tornam essa prática tão danosa ao meio ambiente?

Esse cálculo é só da pecuária, não inclui o desmatamento. O boi, por exemplo, processa a gramínea no pré-estômago. As reações químicas de processamento da matéria orgânica geram metano e o boi arrota esse gás, o que representa a maior parte das emissões da pecuária. Existem dietas com suplementos alimentares que diminuem a produção de metano, mas não a elimina.

A partir de vários estudos, a Embrapa patenteou a “carne carbono neutro”. Você maneja a pastagem de maneira que ela absorva o carbono no solo. A gramínea cresce, as raízes também. Na estação seca as raízes morrem e aquele carbono permanece no solo. Segundo a Embrapa, no pasto super manejado há entre 2,6 a 3 cabeças de gados por hectare, enquanto a agregação de carbono ao solo é equivalente a emissão de metano de ao menos 2,6 cabeças. A ocupação média da pecuária brasileira hoje é de 1,3 cabeças de gado por hectare e no total temos 215, 216 milhões de cabeças em 1,8 milhão de km². O Ministério da Agricultura supõe que 10 milhões de pastagens já estejam mudando para esses sistemas. Se o comportamento do consumidor seguir nessa direção, poderemos ter uma pecuária muito mais produtiva e que emite muito menos.

A Embrapa calcula que, até 2025, seja possível aumentar a produção de proteína animal em 35% e, ao mesmo tempo, reduzir em 25% a área de pecuária no Brasil. Essa redução de 450 mil km² – uma cidade de São Paulo e meia – seria muito importante não só para a agropecuária, mas sobretudo para que o país cumpra a meta de restaurar 12 milhões de hectares de floresta [estabelecida no Acordo de Paris].

Qual é a ideia do seu projeto, chamado Terceira Via Amazônica?

Esse é um projeto que eu, o Ismael [irmão de Nobre, biólogo que integra a equipe de transição do presidente eleito] e outras pessoas estamos liderando. Pensando em um novo modelo de desenvolvimento para a Amazônia, seria uma economia de floresta em pé, na qual o valor maior são os produtos da biodiversidade. Pega o exemplo do açaí, um produto que há 20 anos não era nada e hoje já significa US$ 1,5 bilhão para a economia do bioma. Então, estamos propondo a Terceira Via Amazônica, ou Amazônia 4.0, número que faz referência a utilização das tecnologias modernas da quarta revolução industrial.

Como garantir que ocorra um desenvolvimento sustentável sem ameaçar nem degradar o meio ambiente?

Os ativos biológicos na Amazônia são muito superiores do que se substituíssem a floresta por pastagem para a pecuária, por grãos para a agricultura ou por extração de minérios. Mas, para isso, precisamos realmente fazer as novas tecnologias chegarem à Amazônia e adicionarem valor às cadeias produtivas. Eu dei o exemplo do açaí porque já é uma realidade, mas levantamos uma lista com mais de mil produtos com potencial, como a castanha, o guaraná, a andiroba, a copaíba, o pau-rosa. Nossa proposta também é muito preocupada com o bem-estar e a prosperidade das populações amazônicas. Não é como a mineração, em que apenas se tira o valor da Amazônia e o leva para outro lugar. Outro setor do nosso projeto é a alta tecnologia biológica. Queremos capacitar populações para que elas próprias façam o genoma das espécies que dominam, com base no conhecimento tradicional. Fariam o genoma de dezenas de milhares de espécies, e isso no futuro teria um enorme potencial econômico a partir dos recursos biológicos e genéticos.

Fonte: National Geographic Brasil

Professor da USP avalia que há poucas áreas protegidas fora da Amazônia

Coordenador de laboratório que investiga interface de agricultura e meio ambiente analisa impacto do Código Florestal no aumento do desmatamento

RIO — O Brasil nunca discutiu tanto as áreas protegidas quanto agora. Elas são insuficientes para ambientalistas e excessivas para ruralistas. Autor de um estudo recém-publicado sobre o risco do aumento do desmatamento legal na Amazônia associado às mudanças no Código Florestal aprovado em 2012, o professor da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo, Gerd Sparovek, diz que a proteção está aquém do necessário e do que prevê a lei.

Qual o tamanho das áreas protegidas no Brasil, incluídas unidades de conservação, terras indígenas, áreas de preservação permanente (APP) e reservas legais (RL)?

As unidades de conservação e terras indígenas somam 217 milhões de hectares. Mas a distribuição é desigual —197 milhões de hectares estão na Amazônia, o que representa 47% do bioma. Nos outros biomas, as áreas de UC e TI somadas não passam de 7% dos remanescentes. Fora da Amazônia temos poucas áreas protegidas como unidades de conservação. Nas propriedades rurais temos 14 milhões de hectares de APP com vegetação nativa e 140 milhões de hectares de reserva legal com vegetação nativa, somando 154 milhões de hectares.

O que a diz a lei?

O total exigido pelo Código Florestal de áreas de preservação permanente (APP) e reserva legal somadas é 177 milhões de hectares. Quando todo o processo de restauração e compensação estiver concluído, a área de preservação nas propriedades rurais ocupará, na média, 35% das propriedades.

Como o Código Florestal acabou por implicar na redução da vegetação protegida?

Há diversos mecanismos de redução de exigências de manutenção de vegetação nativa nas propriedades que desmataram antes de 2008. Ao todo, a redução de exigência de restauração ocorreu em 41 milhões de hectares. No entanto, a redução real de exigência para conservação será ainda maior, porque não avaliamos ainda o efeito do Art. 68 (consolidação da reserva legal no tempo, em função da época de abertura das propriedades).

Essa redução varia por bioma? 

A variação entre biomas é grande. No caso de reserva legal, o bioma mais afetado foi a Mata Atlântica (38%), seguida da Amazônia (20%). No caso de APP, os mais afetados foram Mata Atlântica (27%) seguido de Caatinga (15%).

Onde estão os maiores déficits ambientais no Brasil? 

Em APPs ( margens de rios e topos de montanhas, por exemplo ), com certeza. A restauração das APPs irá trazer um ganho ambiental enorme, principalmente na questão hídrica, como a qualidade da água e a regulação da vazão dos rios, evitando enchentes e problemas na captação. Todos serão beneficiados com isto.

Fonte: O Globo

O presidente e a Amazônia

Evaristo de Miranda, doutor em Ecologia

As eleições presidenciais trouxeram debates e polêmicas também sobre ocupação e preservação da Amazônia. Visões alarmistas denunciaram a iminente devastação florestal, o abandono das políticas de conservação e a agropecuária como vetor de devastação. Até a revista britânica The Economist vaticinou sobre o tema. Mas qual a situação efetiva da proteção e da preservação da vegetação nativa no bioma Amazônia? Qual o papel das políticas públicas na manutenção das florestas? Qual a parte do mundo rural na preservação?
Pesquisa recente da Embrapa traz respostas objetivas a essas indagações e aponta o real desafio amazônico do novo presidente da República.

A proteção da vegetação nativa – No Brasil, o bioma Amazônia ocupa cerca de 4,2 milhões de quilômetros quadrados, praticamente a metade do País (49,4%). Ele engloba Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima, além de parte de Mato Grosso, Maranhão e Tocantins.

As unidades de conservação de proteção integral, como estações ecológicas e parques nacionais, são 204 no bioma Amazônia e totalizam uma área superior a 76 milhões de hectares. Elas recobrem 18% do bioma, excluem a presença humana e não admitem nenhuma atividade produtiva. Reservas extrativistas e de desenvolvimento sustentável não fazem parte desse conjunto de proteção integral.

Também há 330 terras indígenas legalmente atribuídas no bioma Amazônia, sob a gestão da Funai. Elas totalizam quase 107 milhões de hectares e recobrem 25,4% do bioma.

Existem sobreposições entre as 534 áreas atribuídas a meio ambiente e povos indígenas. Descontadas as sobreposições, elas totalizam 171,5 milhões de hectares de áreas protegidas e 40,8% do bioma.

As áreas militares, cadastradas com florestas nacionais, totalizam cerca de 2,7 milhões de hectares e 0,6% do bioma Amazônia. No total, unidades de conservação integral, terras indígenas e áreas militares protegem hoje 174,2 milhões de hectares ou 41,4% do bioma.

A preservação da vegetação nativa – Até o advento do Cadastro Ambiental Rural (CAR), a contribuição dos agricultores, pecuaristas e extrativistas à preservação ambiental na Amazônia era subestimada e pouco conhecida. Criado e exigido pelo Código Florestal (Lei 12.651/12), esse registro eletrônico obrigatório tornou-se um relevante instrumento de planejamento agrícola e socioambiental.

Até agosto de 2018, no bioma Amazônia registraram-se no CAR mais de 468 mil imóveis rurais, incluindo reservas extrativistas e de desenvolvimento sustentável. A Embrapa Territorial analisou esse big data geocodificado. E mapeou com dez metros de detalhe a área dedicada à preservação da vegetação nativa em terras extrativistas e de agropecuária, em cada imóvel rural, município, microrregião, estado e no bioma (www.embrapa.br/car). Uma área total de 103,1 milhões de hectares está dedicada à preservação da vegetação nativa pelo mundo rural. Isso corresponde a 24,6% do bioma Amazônia e a 64% da área dos imóveis. Ou seja, o mundo rural preserva, em meio às suas atividades produtivas, um quarto do bioma Amazônia e dois terços de seus imóveis.

Um bioma protegido e preservado – Em resumo, as 534 áreas de proteção mais estrita (unidades de conservação integral e terras indígenas) totalizam 171,5 milhões de hectares e alcançam 40,8% do bioma Amazônia. Com as áreas militares essa porcentagem chega a 41,4%. Em mais de 468 mil imóveis rurais, pelos dados do CAR, as áreas dedicadas à preservação da vegetação nativa totalizam 103,1 milhões de hectares ou 24,6% do bioma.

O total de áreas legalmente protegidas e preservadas, devida e detalhadamente mapeadas, é de 277,3 milhões de hectares, 66,1% ou dois terços da Amazônia. Para o mundo rural e para os órgãos governamentais, isso implica um grande custo operacional e patrimonial, ainda por calcular.

Sem descontar áreas urbanas e de mineração, cuja dimensão é muito pequena em relação ao total da região, existem ainda cerca de 83,8 milhões de hectares passíveis de ocupação no bioma Amazônia. Em sua maioria, são áreas inundáveis, superfícies hídricas do Rio Amazonas e terras pouco propícias ao extrativismo e à agropecuária, sem acesso logístico. Em boa parte, trata-se de terras devolutas.

O real desafio – Mesmo diante da hipótese muito pouco provável de uma futura ocupação integral dessas áreas pelo mundo rural, o Código Florestal já impõe o limite de 20% para uso e exploração (desmatamento legal). A área de reserva legal prevista para a vegetação nativa é de 80%. Assim, cerca de adicionais 67 milhões de hectares, ou 16% da região, já estão prévia e legalmente destinados à preservação, por exigência do Código Florestal.

O País já abriu mão de explorar e usar 82% do bioma Amazônia, com todas essas áreas legalmente destinadas à proteção e à preservação da vegetação nativa. Uma área maior do que a Índia! Esse fato precisa ser mais bem conhecido e reconhecido. Que outro país no mundo dedica 3,5 milhões de quilômetros quadrados à preservação? Tente alguém propor essa área em preservação aos Estados Unidos, ao Canadá, à Rússia ou à China. A proteção ambiental da Amazônia é um exemplo sem equivalente no planeta, em valores absolutos e relativos, como atestam documentos internacionais (IUCN, 2016. Protected Planet Reports).

O desafio do presidente Jair Bolsonaro não é criar mais áreas de conservação, mas, sim, fazer cumprir o Código Florestal e garantir a gestão das áreas já atribuídas, públicas e privadas. E encontrar meios de cobrar dos beneficiários, urbe et orbi, pelos serviços ambientais da preservação da nossa Amazônia. Manter a integridade desse imenso patrimônio natural, sobretudo em face de atividades ilegais, exige mais recursos e menos alarme.

*DOUTOR EM ECOLOGIA, EVARISTO DE MIRANDA É CHEFE-GERAL DA EMBRAPA TERRITORIAL

Fonte: O Estado de S.Paulo

Zerar o desmatamento na Amazônia é uma das principais contribuições que o Brasil poderá dar à luta contra o aquecimento global

Especialista defende desmatamento zero na Amazônia para combater mudanças climáticas

Zerar o desmatamento na Amazônia é uma das principais contribuições que o Brasil poderá dar à luta contra o aquecimento global. A conclusão é do brasileiro e integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), Paulo Artaxo, que apresentou neste mês (19), no Rio de Janeiro, o novo relatório do organismo. A pesquisa aborda as consequências de uma elevação mundial da temperatura acima dos 1,5º C até 2100. O teto é a aspiração mais ambiciosa do Acordo de Paris.

Em evento realizado no Museu do Amanhã pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Artaxo alertou que a alteração dos padrões climáticos já é uma realidade em território nacional. “Várias regiões, particularmente o Nordeste brasileiro e o norte de Minas, já sofreram aquecimento entre 2 a 2,5º C”, afirmou o especialista, lembrando dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) sobre o período 1981-2010.

Os valores estão acima do aumento de 1ºC da temperatura global, verificado desde 2015 em levantamentos do serviço meteorológico do Reino Unido. A oscilação mundial é um comparativo com médias dos níveis pré-industriais, antes do início do século XX.

De acordo com Artaxo, a disparidade desse índice em relação aos números do Brasil se deve ao fato de que a média global inclui as variações térmicas nas temperaturas dos oceanos, que se aquecem mais lentamente. Em ecossistemas terrestres, o calor ultrapassa a estimativa geral.

A análise do IPCC compara os impactos ambientais de um aquecimento global a 1,5ºC e a 2ºC até o final do século. Mas segundo o integrante brasileiro do painel, ambas as variações vão se traduzir em elevações mais altas da temperatura no nível nacional e local, com as médias do Nordeste, por exemplo, subindo de 2,5ºC a 3ºC. Previsões do INPE indicam um aumento ainda maior, de 4 até 7º C em diferentes partes do Brasil, num cenário em que os atuais esforços para conter o aquecimento global não fossem ampliados em todo o mundo.

Embora pareça pequena, a diferença de 0,5º C significa mudanças dramáticas para a ocorrência de fenômenos climáticos extremos, perda de biodiversidade, elevação do nível do mar e desenvolvimento econômico.

“Existem regiões do Nordeste onde a precipitação já decaiu 60%. Isso é uma alteração muito significativa para qualquer ecossistema, em particular para uma região semiárida”, acrescentou Artaxo, que também é professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP).

Na avaliação do pesquisador, as tendências de aquecimento e de diminuição das chuvas devem piorar — e o Nordeste corre o risco de se tornar uma zona desértica. O especialista ressalta ainda que as mudanças climáticas devem afetar outras partes do Brasil, como os grandes centros urbanos do Sudeste. Enchentes e estiagens, como a que atingiu São Paulo e deixou o estado em racionamento de água, vão se tornar mais frequentes.

Em nível global, manter a elevação da temperatura dentro do 1,5º C permitiria, por exemplo, salvar de 10% a 30% de todos os recifes de corais. Com o aquecimento a 2º C, essas formações naturais devem desaparecer por completo do planeta. O limite mais restritivo também impediria que o degelo da Antártida se tornasse um fenômeno anual durante o verão. Com o teto menor, os mares subiriam dez centímetros menos do que a 2º C.

Desmatamento na Amazônia

De acordo com o IPCC, restringir o aumento a 1,5º C exigirá, até 2050, uma redução a zero de todas as emissões líquidas de CO2. Atividades humanas que continuassem dispersando gases do efeito estufa teriam de ser compensadas com medidas para absorver gás carbônico, como o reflorestamento.

“Isso vale tanto para não queimar combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás natural, quanto para reduzir o desmatamento, por exemplo, da região amazônica. Esta tarefa é extremamente urgente porque não temos muito tempo para reduzir estas emissões antes de ocorrer uma catástrofe climática global”, ressaltou Artaxo.

O analista vê desafios consideráveis na implementação dessa agenda de sustentabilidade. Isso porque mesmo com a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, as emissões de gás carbônico aumentaram 2% de 2016 para 2017, chegando a 36,8 gigatoneladas anuais. Para alcançar a meta do 1,5º C, seria necessário reduzir o volume de gás carbônico lançado na atmosfera em 45% até 2030 — tendo como base os níveis de 2010.

Os compromissos de cada país signatário do Acordo de Paris tampouco seriam suficientes para conter o aquecimento global — estimado em 2,8º C até 2100 com o cumprimento das atuais promessas.

Sobre o Brasil, Artaxo enfatizou a necessidade de “colocar o desmatamento da Amazônia a zero”, uma das metas do país latino-americano junto ao documento internacional.

“Temos (também) que investir em energia eólica e energia solar particularmente no Nordeste brasileiro. O Brasil tem o compromisso de reflorestar 12 milhões de hectares no Acordo e Paris. Isso também é fundamental se nós quisermos garantir um meio ambiente saudável para a população brasileira”, disse o especialista do IPCC.

“Nós precisamos de políticas públicas sólidas, de governos que tenham políticas de Estado de longo prazo.”

Sustentabilidade nos negócios

Ana Carolina Szklo, diretora de Desenvolvimento Institucional do CEBDS, vê uma conscientização crescente do setor privado sobre a urgência das mudanças climáticas. Segundo a gestora, empresas têm tomado a dianteira e criado sistemas próprios de mitigação e compensação. É o caso de companhias que adotam estratégias de precificação interna de carbono, a fim de identificar departamentos e atividades com maior impacto ambiental.

“A equação (dos negócios) está desequilibrada porque a gente não está ainda internalizando algumas variáveis”, afirma a gestora. Segundo o CEBDS, 16 empresas brasileiras já trabalham com a precificação interna de carbono. Outras 27 declararam que utilizarão esse tipo de metodologia a partir de 2019.

Szklo aponta ainda que a sustentabilidade tem um importante valor de mercado. “Gera lucro e traz dinheiro. É bom para o meio ambiente, para as pessoas e para as empresas”, afirmou.

Também sobre o papel do setor privado no combate ao aquecimento global, o integrante do IPCC, Paulo Artaxo, disse que “construir produtos que possam ter uma durabilidade maior, que usem muito menos matéria-prima e que sejam mais eficientes do ponto de vista do uso de energia é absolutamente estratégico para o futuro do nosso planeta”.

“Do lado empresarial, nós precisamos ter as empresas menos preocupadas com o lucro no próximo balancete e muito mais preocupadas com a sustentabilidade do seu próprio negócio a médio e longo prazo”, concluiu o pesquisador.

Fonte: EcoDebate

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