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15 jul 2020 - 09:00
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Não há dilema entre ter lucro e ser sustentável, afirma Levy

É preciso adotar economia de baixo carbono, afirma ex-ministro da Fazenda


O ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy acredita que o Brasil corre o risco de ficar para trás se não estimular rapidamente a transição para a economia de baixo carbono. “O dilema entre ser sustentável e ter lucro deixou de existir em muitos casos”, diz. “E quem não explorar isso pode ter prejuízos”, completa.
Levy é um dos artífices da carta “Convergência pelo Brasil” lançada ontem por ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central em que pedem desmatamento zero na Amazônia e no Cerrado, investimentos em pesquisa e tecnologia e indicam pontos para o Brasil descarbonizar a economia ao mesmo tempo em que aumenta a produtividade. A ideia do documento é fazer com que a questão ambiental seja definitivamente incorporada à política econômica.
“O Brasil tem uma tremenda vantagem comparativa porque aqui temos abundância de recursos renováveis que já proporcionam energia mais barata que a fóssil”, diz, na defesa da descarbonização da economia brasileira.
Há dez anos, quando esteve no setor financeiro, Levy começou a trabalhar com os princípios de investimento responsável e com as práticas socioambientais hoje conhecidas pela sigla ESG. “A mudança climática é uma realidade e a descarbonização ajuda a diminuir a poluição, melhorando a saúde e a condição de vida das pessoas”.
Como diretor financeiro do Banco Mundial, instituição que tornou prioridade o combate à crise climática, Levy aprofundou estudos em financiamento verde (os “green bonds”) e no tratamento do risco sistêmico, um dos efeitos colaterais do aquecimento global.
Ele diz que a carta dos ex-ministros “reflete o amadurecimento desse assunto no Brasil. O tema é importante não apenas pela pressão externa em função do desmatamento, mas também porque a covid-19 mudou várias coisas. Na medida em que o Brasil tem que investir para poder voltar a crescer, o ideal é investir pensando no futuro.” A seguir, trechos da entrevista que concedeu ao Valor por email:


Valor: O que o senhor fez no setor privado nesta área?
Joaquim Levy: Quando estive no setor financeiro, comecei a implementar Princípios de Investimento Responsável (PRI), integrando questões ambientais, de governança e sociais na gestão de carteiras. A precificação desses riscos é importante na renda variável onde o retorno de uma ação também tem que ser ajustado ao risco. Depois, em Brasília, procurei apoiar uma coalizão de empresários (Fórum Clima-Ação Empresarial sobre Mudanças Climáticas) com objetivo de descarbonizar a economia.
Muita gente do setor privado já via a importância de evitar a mudança climática em 2015.


Valor: Vê avanços no setor financeiro no combate à crise climática?
Levy: Há anos a Febraban vem calculando a proporção de empréstimos verdes do sistema bancário e tem feito um ótimo trabalho promovendo as recomendações da Força-Tarefa para Divulgações Financeiras às Mudanças Climáticas (iniciativa de 2015, conhecida pela sigla TCFD, capitaneada por Michael Bloomberg e pelo então presidente do Banco da Inglaterra, Mark Carney). Ali começou a inclusão do risco climático nas demonstrações financeiras.


Valor: O que o senhor fez pelo clima quando foi governo?
Levy: Quando fui secretário da Fazenda do Rio lancei com a Secretaria de Meio Ambiente o ICMS verde. Era uma compensação às prefeituras que designassem Áreas de Proteção Ambiental ou investissem para melhorar o tratamento de resíduos sólidos, inclusive diminuindo as emissões de metano. São mais de R$ 100 milhões por ano e funciona até hoje, creio. Em 2015, participei junto com a ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, da definição das Contribuições Nacionalmente Determinadas do Brasil (a meta climática do Brasil no Acordo de Paris). Ali o foco era a criação de 12 milhões de hectares de florestas e o aumento das energia renováveis. Outra ideia era aumentar o imposto sobre combustíveis fósseis (a Cide),
porque o preço do petróleo tinha caído e temos as alternativas de biocombustível. E depois de Brasília, quando estive no Banco Mundial, trabalhei para que as regulações prudenciais reconhecessem que investimentos em infraestrutura verde tendem a ter menos risco do que os investimentos tradicionais.


Valor: Porque agora surge a carta dos ex-ministros da Fazenda?
Levy: Foi um trabalho conjunto que reflete o amadurecimento desse assunto no Brasil. O tema é importante não apenas por causa da pressão externa devido ao desmatamento, mas também porque a covid-19 mudou várias coisas. Na medida em que o Brasil deve investir para poder voltar a crescer, o ideal é investir pensando no futuro. Queremos evitar o que o relatório de Bloomberg chama de ativos encalhados - aqueles que dão prejuízo quando o mundo se afasta da energia fóssil. Os mercados já estão precificando os ativos levando em conta o risco climático.


Valor: Quais os desafios e oportunidades deste tema para o Brasil?
Levy: O Brasil tem uma tremenda vantagem comparativa porque aqui temos abundância de recursos renováveis que já proporcionam uma energia mais barata que a fóssil. Além disso, como há muitos anos temos um sistema elétrico integrado, dá para combinar as diferentes energias diminuindo o problema de algumas terem produção variável. Nos meses de mais chuva tem pouco vento, e nos meses secos os ventos do Nordeste são dos melhores do mundo, ajudando a complementar a energia hidrelétrica. Com redes de transmissão inteligentes essa combinação pode ser otimizada.


Valor: E há a biomassa.
Levy: Exatamente. Temos muita energia de biomassa: o álcool, o biodiesel (que já usa 20% da safra de soja), o licor negro da industria da celulose e o potencial ainda não aproveitado do dendê em terras degradadas na região Norte. Não podemos desperdiçar estas vantagens. Especialmente nesse momento em que há tantas pessoas inseguras a respeito do seu emprego e há liquidez para ser investida.


Valor: Que medidas o senhor diria que podem ser tomadas agora?
Levy: Há muitas opções, inclusive no aproveitamento do gás natural. No Brasil o gás natural é associado ao petróleo. Pode-se incentivar a geração termelétrica offshore com captura do CO2 mediante a injeção de CO2 nos campos de petróleo. O que resolve algumas incertezas regulatórias e aumenta a produtividade desses campos. Com a captura de carbono, a eletricidade fica limpa e o risco do projeto ser onerado no futuro pelas emissões de CO2 é praticamente eliminado.


Valor: Para fazer a transição energética precisamos de uma reforma tributária? Ou bastariam outras políticas públicas?
Levy: Tem o mundo da eficiência energética, que, em geral, se paga sozinha. Nesse caso a experiência internacional mostra que é melhor estabelecer alvos de eficiência de médio prazo para estimular o setor privado a inovar. Do ar-condicionado ao uso da madeira cultivada em lugar do cimento na construção civil, há muto o que ganhar.


Valor: A Alemanha quer acabar com os motores a combustíveis fósseis. Como isso afeta o Brasil?
Levy: Ainda podemos viver um tempo com motores de combustão interna usando biocombustíveis, que são muito sustentáveis. A agricultura brasileira pode atender o aumento da demanda, especialmente se a tributação dos combustíveis fósseis for adequada. Temos que apoiar as pesquisas que já existem em São Paulo, da célula combustível de etanol. Com isso podemos fazer a transição para o motor elétrico com biocombustíveis. Na época em que eu estava no BNDES olhamos para isso com carinho.


Valor: A Alemanha vai investir pesado em hidrogênio. Isso é bom para o Brasil?
Levy: O hidrogênio tem futuro no Brasil, porque o principal ingrediente na sua produção sustentável é eletricidade, e aqui, com as renováveis, podemos produzir muita eletricidade barata. Daria para eletrificar uma grande parte da economia com parques solares cuja área total seria equivalente à do antigo Estado da Guanabara. Espalhar esses parques pelo Nordeste, junto com as usinas eólicas, geraria muito emprego e outras formas de renda nessa região, mesmo sem a incidência de royalties sobre esses recursos naturais. No futuro, o hidrogênio pode descarbonizar a siderurgia e a produção de cimento. Além das possibilidades na fabricação de fertilizantes dando segurança à agricultura, e no transporte, com as células de combustível. O hidrogênio deve substituir o gás natural nas próximas décadas.


Valor: Se o Brasil não seguir neste rumo, o que acontece?
Levy: Corremos o risco de ficar para trás e não aproveitarmos as possibilidades que temos. Há uma avaliação no Banco Mundial, por exemplo, que os países podem ganhar produtividade com opções sustentáveis. O dilema entre ser sustentável e ter lucro deixou de existir em muitos casos, e quem não explorar isso pode ter prejuízos.


Fonte: Valor

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