17 de setembro de 2019

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É possível engajar nações reticentes na luta ambiental, diz enviado da ONU

Foi numa sala do Fasano, um dos mais chiques hotéis do Rio de Janeiro, que Carlo Pereira, o secretário-executivo da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, fez o apelo: “Não temos mais tempo nem dinheiro para ficar discutindo em salas. A gente no Brasil gosta muito de cartas, movimentos, compromissos. Mas acho que as empresas estão clamando por ação”.

Lá reunidos estavam representantes do empresariado brasileiro e o enviado especial da ONU para uma cúpula climática que a organização promoverá em sua sede, em Nova York, daqui a três meses. E o mexicano Luis Alfonso de Alba, adiantou Pereira, queria “mais ouvir do que falar”.

Falou um bocado, é verdade, como ao apontar que uma onda de furacões fez o Caribe perder num único dia o equivalente a um ano de seu PIB, e óbvio que as mudanças climáticas tinham tudo a ver com a força dos ventos.

Mas também escutou demandas do setor que contrastavam com seu discurso otimista de que chegou a hora de todos entenderem que não é mais uma questão de “se”: os reveses do aquecimento global já estão entre nós.

Tá, ponderaram alguns na sala: mas e se mesmo assim os governos resistissem a aderir à agenda ambiental? Os Estados Unidos, afinal, já deram adeus ao Acordo de Paris, que estabelece metas voluntárias para países signatários reduzirem emissão de gases responsáveis pelo efeito estufa.

O Brasil de Jair Bolsonaro também flertou com a ideia, fora ter desistido de sediar a COP25, conferência anual da ONU para negociar a implementação do Acordo de Paris –que agora ocorrerá no Chile– e quase desistir de sediar um encontro em Salvador pré-COP 25 –o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, chegou a dizer que a reunião seria só uma bela oportunidade de comer acarajé.

Vamos ser realistas, argumentaram os convidados. Marina Rocchi, da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), pinçou uma sugestão de Alba sobre taxar mais o Texas pelo excedente de poluição. Ora, não dá para chegar ao empresário brasileiro falando em aumentar impostos. “Não estamos pedindo mais uma taxa, e sim um mercado de carbono.”

Dica a Alba: incentive a indústria a poluir menos em vez de mencionar novo encargo. “Assim você terá mais chance de ter o Brasil e o setor privado ao seu lado”, disse Rocchi, que propôs ainda que a ONU inclua, além do Ministério do Meio Ambiente, também o da Economia na discussão.

Cláudia Jeunon, da Invepar, gestora privada de mobilidade urbana que cuida do aeroporto de Guarulhos e do metrô do Rio, alertou: ambientalistas pregam muito para convertidos. Se ela troca uma ideia com um engenheiro ou químico, eles não sabem como produzir e ser sustentável ao mesmo tempo. Por que não mexer no currículo de cursos da área? Assim se introduziria já na base a necessidade de fazer as coisas de forma diferente.

O enviado da ONU disse à Folha que é possível engajar mesmo as nações mais resistentes na luta verde. Os EUA, por exemplo, podem até dizer que abandonarão o Acordo de Paris. Mas há parcerias locais e temas específicos que podem envolver os americanos, como a busca por novas fontes energéticas.

No próximo dia 30, a ONU realizará um encontro em Abu Dhabi para levantar uma espécie de inventário de propostas concretas para lidar com a crise climática, afirmou Alba.

E o setor privado é um parceiro cobiçado neste momento, disse à reportagem Carlo Pereira. “Já faz um tempo que a ONU está se abrindo a ele. Com a globalização, as empresas ganharam muito poder.”

Se listarmos os 200 gigantes mundiais comparando PIBs e receitas, 157 serão empresas, e não países, apontou o coordenador da Rede Brasil do Pacto Global, uma iniciativa criada em 2000 pela ONU para aproximar corporações de suas causas.

Os EUA ainda lideram o ranking, e a maior empresa do mundo em receitas é o Walmart, que supera nações como Portugal. A soma do faturamento das dez maiores do mundo, aliás, é maior do que a economia dos 180 países mais pobres do mundo.

Pereira até reconhece que o lema do Pacto Global é um pouco, digamos, florido demais (“empresas como força do bem”). Mas a colaboração delas pode ser crucial. “Quem vota [na ONU] são os Estados, mas as empresas influenciam.”

Além de financiamento e lobby político, as corporações (“que não deixam de ser os grandes emissores”) podem contribuir com tecnologia, inovação e capilaridade, afirmou. “Tem grupo industrial no Brasil presente em mil cidades. Quem mais consegue isso?”

Não que o empresariado vá comprar a causa só porque ela é “bonitinha”. Ele é pragmático também. “Quando Donald Trump veio com a discussão de retomar o carvão, a indústria não mexeu um centímetro, porque ninguém mais compra.”

Fonte: Folha de S.Paulo

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