22 de maio de 2019

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Setor de biodiesel terá uma nova agenda estratégica

Na semana passada, os membros da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Oleaginosas e Biodiesel puderam ver em primeira-mão o novo planejamento estratégico que pretende apontar o caminho para que a indústria brasileira de biodiesel atinja um novo patamar de eficiência. O documento é fruto de 10 meses de esforços de um grupo de trabalho que foi formado em meados do ano passado.

“Precisamos de um norte, algo que nos mostre onde queremos chegar. Só quando você tem isso, consegue ver as responsabilidades que você consegue assumir e que projetos consegue realizar”, explicou à BiodieselBR.com o pesquisador da Embrapa Agroenergia, Bruno Laviola, que respondeu pela coordenação do GT responsável pela elaboração da agenda. “Desde o início, decidimos elaborar um plano alinhado com a forma como o setor produtivo enxerga o futuro do biodiesel”, completa.

Por esse motivo, o GT foi além do cronograma de implementação do B15 até 2023 já autorizado pelo CNPE e encampou o B20 como o horizonte de mercado no processo de elaboração dos cenários que serviram de referência durante o processo de elaboração da agenda. Essa é uma bandeira que as três principais entidades representativas do setor – Abiove, Aprobio e Ubrabio – vêm empunhando desde outubro de 2016 quando foram convidadas pelo Ministério de Minas e Energia (MME) a consolidarem metas de longo prazo para a indústria.

O documento de 2016 fez parte do processo inicial de elaboração do Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio).

Segundo Bruno, se a progressão de aumentos de um ponto percentual ao ano na mistura obrigatória já aprovada pelo CNPE puder ser ampliada para contemplar o B20, a produção nacional de biodiesel em 2028 seria aproximadamente 18 bilhões de litros anuais.

Desdobramentos

Foi a partir deste horizonte geral que o GT desdobrou quatro grandes metas: ampliar a participação de matérias-primas diferentes de soja e sebo para 15% do mercado; aumentar a participação das regiões Norte e Nordeste para 20% da produção nacional; colaborar para que 65% da produção brasileira de soja seja esmagada internamente; implantar pelo menos duas plantas piloto com tecnologia que permita a produção a partir de matérias-primas de baixa qualidade.

Embora reconheça que muitas dessas sugestões já venham sendo debatidas pelo setor há tempos, Bruno ressalta que a grande novidade da agenda estratégica é explicitar metas que possam ser atingidas nos próximos 10 anos.

Para chegar nesse resultado, o GT não contou somente a expertise de seus membros. “Além de consultas à pesquisadores, fizemos uma enquete sobre o que eles achavam que precisava ser feito e enviamos para várias pessoas e entidades do setor”, explica Bruno acrescentando que recolheram cerca de 20 sugestões.

Número e data

A diversificação das matérias-primas é uma das chaves para garantir que a cadeia de biodiesel cresça de forma sustentável. “Mas só dizer ‘precisamos diversificar’ não é muita coisa. Agora nós colocamos um número e um prazo: queremos 15% da matriz do biodiesel venha de fontes diferentes de soja e sebo até 2028”, diz.

Pelas contas do GT, isso exigiria que o país produz pelo menos 2,7 milhões de toneladas de óleos e gorduras diferentes de soja e sebo ao ano. Metade disso deverá vir da produção de óleo de palma e metade de oleaginosas de ciclo anual como a canola e o girassol.

Outra frente de batalha seria a expansão da produção de biodiesel no Norte e Nordeste que hoje representa 9% do total nacional para cerca de 20%. “Isso equilibraria melhor a produção com o consumo e melhoria a logística do biodiesel no Brasil”, avalia.

Levar a produção de biodiesel para essas duas regiões é um sonho antigo – e nunca concretizado – do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB). Para Bruno, faltou um mapeamento adequado das matérias-primas pelas diferentes microrregiões do Nordeste. “Você tem a área do Matopiba onde a soja vem ganhando corpo, mas também as áreas do litoral. Nesses esforços sempre faltou mapear adequadamente onde é possível aumentar a produção de oleaginosas e, a partir desse diagnóstico, desenhar políticas públicas e linhas de financiamento específicas”, elabora.

Mais esmagamento

Para atingir a meta de aumentar a processamento de soja no mercado interno, a própria expansão da demanda – e produção – de biodiesel será um ponto fundamental. Mantida a matriz atual de matérias-primas do setor, a demanda esperada para 2028 exigiria o esmagamento de praticamente metade de produção anual da sojicultura nacional.

Outra linha de atuação que a Câmara Setorial poderia adotar para incentivar o esmagamento seria difundir novas oportunidades de agregação de valor dentro do complexo soja. “Hoje as esmagadoras aproveitam relativamente poucos dos bioprodutos que o processamento da soja poderia permitir entre eletricidade, farelos proteicos especiais ou, até mesmo, etanol de melaço de soja como o que a Caramuru já vem produzindo”, elabora Bruno.

“Nós já temos estudos mostrando que é mais viável financeiramente agregar valor do que simplesmente exportar a soja em grão. Que isso pode gerar ganhos tanto para o setor produtivo quanto em termos de arrecadação tributária. Temos que difundir melhor esse conhecimento”, complementa.

Resíduos

Talvez a mais singela das metas propostas esteja na instalação de plantas piloto para a difusão de novas tecnologias dentro do setor de biodiesel. Embora o setor ainda tenha muita capacidade instalada ociosa – no ano passado mais de um terço da capacidade das usinas ficou subutilizada – o que inibe qualquer mudança maior na base tecnológica das usinas, o aproveitamento de matérias-primas de baixa qualidade e custo mais atrativo pode criar vantagens competitivas para as usinas. “O investimento pode valer a pena para permitir o aproveitamento de uma oportunidade regional”, especula.

O foco seria permitir a incorporação de uma parcela maior de óleos residuais na produção de biodiesel. Os casos paradigmáticos seriam o óleo de cozinha usado e o óleo de macaúba de comunidades extrativistas. “No extrativismo os frutos são coletados do chão e isso quer dizer que, normalmente, eles já passaram do ponto o que aumenta sua acidez. O processo de transesterificação não é tão eficiente com esse tipo de óleo”, explica acrescentando que muitos outros processos industriais geram subprodutos que poderiam ser incorporados caso o setor tivesse a tecnologia produtiva adequada. “O desafio é mapear esses produtos para podermos avaliar como viabilizar a escala e a sua coleta desses resíduos”, pontua.

O GT está aparando as arestas finais do texto. A expectativa do presidente da Câmara Setorial, Julio Cesar Minelli, é que o documento final esteja pronto para apresentação para a ministra Teresa Cristina já na próxima semana. Na sequência o documento será tornado público.

Fonte: BiodieselBR

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