13 de novembro de 2018

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O futuro que queremos, por Luiz Augusto Horta Nogueira

A introdução de veículos elétricos nas ruas e estradas brasileiras tem sido um tema frequente nessas páginas. Alguns mais entusiasmados defendem a urgente adoção de veículos elétricos no Brasil, que entendem ser uma tendência global inexorável, associada a prementes exigências ambientais, expectativas de forte redução de custos e perspectivas de integração desses veículos com as redes elétricas inteligentes. Segundo eles, os custos da eletrificação seriam relativamente baixos e o Brasil estaria comprometendo seu futuro ao reforçar seu programa de biocombustíveis em vez de seguir o dernier cri da modernidade nas tecnologias de transporte. Será que estão corretos? Possivelmente não.

Primeiro é preciso ter claro que os veículos elétricos são diversos e podem ser muito diferentes entre si. Em distintos níveis de maturação tecnológica e custos, podem ser puros, usando apenas baterias, podem ser híbridos, onde a energia elétrica é produzida em geradores acionados por motores de combustão interna ou gerada em células de combustível alimentadas com hidrogênio ou etanol. Podem ser ainda, todos eles, integrados (“plug-in”) ou não à rede elétrica da concessionária, eventualmente operando como sistemas de geração distribuída.

Em todos os casos, os veículos elétricos são ainda bastante caros e apresentam impactos e benefícios bem diferentes. Possivelmente vamos adotar em médio prazo a mobilidade elétrica, com suas vantagens de integração à rede elétrica, mas é preciso escolher as alternativas corretas, sob a égide de nossos interesses, em benefício de nossa qualidade de vida e de nosso desenvolvimento.

Biocombustíveis não competem com a eletricidade e se articulam muito bem com veículos elétricos

Mas as incertezas ainda são muitas. Em uma ampla pesquisa de opinião realizada no ano passado pela KPMG entre executivos da indústria automotiva global, grandes interessados no assunto, a maioria (62%) indicou que não acredita que os veículos a bateria, como o Tesla S e o GM Bolt, tenham futuro, devido às restrições no suprimento de eletricidade. Por outro lado, esses profissionais não são avessos a inovações, pois 78% acredita que os veículos híbridos com célula de combustível, como o Honda Clarity a hidrogênio e o Nissan eBio a etanol, são as inovações mais promissoras, inclusive porque as vantagens energéticas e ambientais são bem maiores do que nos veículos elétricos a baterias.

Os veículos híbridos com motores de combustão também representam alternativas interessantes, apresentando eficiência elevada e utilizando a infraestrutura existente de distribuição de combustíveis. No próximo ano a Toyota vai lançar no Brasil seu modelo híbrido de grande sucesso, o Prius, com motor flexível, possibilitando o uso de etanol ou gasolina em veículos elétricos. Outras montadoras adiantam seus projetos de híbridos flexíveis, que parecem ser mesmo uma boa opção para o Brasil no curto prazo, ao associar de forma inteligente biocombustíveis e eletricidade na propulsão veicular, ampliando bastante viabilidade econômica, a eficiência e os benefícios ambientais.

Vale observar que os motores de combustão interna, especialmente considerando o uso de etanol, têm ainda excelentes possibilidades de aperfeiçoamento, com ganhos expressivos de eficiência e desempenho, com vêm demonstrando pesquisas em diversos países.

É preciso avançar, mas sem desespero. Se de fato é justificável o otimismo dos entusiastas pelos veículos elétricos, ao sustentar que em 2020 essa tecnologia deverá alcançar patamares de custo competitivos com os veículos convencionais, por que a urgência em criar mecanismos para sua introdução, que atualmente demanda pesados subsídios, em nosso conhecido contexto de desequilíbrio fiscal? Vale a pena reduzir os tributos e estimular a importação de veículos a bateria? Porque precisamos disso? Será bom para quem? Por desinformado, o governo federal erra ao desonerar os veículos elétricos puros a bateria, que serão todos importados, a preços elevados e com benefícios ambientais limitados.

Na verdade, felizmente o Brasil dispõe de combustíveis renováveis e competitivos, com produção e distribuição bem desenvolvidas, como agora vem se implementando com sucesso em diversos países, visando melhorar o ambiente e a segurança energética. Nesse contexto, o programa RenovaBio representa uma iniciativa importante, bem concebida, valorizando a eficiência e a sustentabilidade, que poderá promover um novo ciclo de expansão na agroindústria energética, penalizada durante anos de gestão incompetente do governo federal, e permitir ao Brasil cumprir os compromissos de redução das emissões de carbono assumidos em 2015 frente à comunidade mundial, na CoP-21 em Paris. Isso é importante: os biocombustíveis sustentáveis não competem com a eletricidade, ao contrário, se articulam muito bem com os veículos elétricos eficientes, maximizando seus benefícios e atenuando seus custos.

Portanto, o futuro que queremos é aquele em que o desenvolvimento energético respeita o meio ambiente, considera nossos recursos e nossas necessidades, sem necessariamente mimetizar experiências alheias.

Pode ser que alguns desavisados entendam que o mercado de biocombustíveis no Brasil seja algo a desmontar em favor da mobilidade elétrica. É uma falsa profecia, que ignora que a participação da bioenergia no setor de transportes no Brasil, como etanol, biodiesel, bioquerosene ou bioeletricidade, longe de ser uma singularidade a evitar, é mais uma antecipação de um cenário desejável para muitos países, que vivem contextos e desafios comparáveis. De fato, em vez de copiarmos outrem, a racionalidade indica que serão outros que deverão adotar nossas opções, associando sinergicamente bioenergia e veículos elétricos, em prol um futuro melhor.

* Luiz Augusto Horta Nogueira é professor titular aposentado da Unifei, pesquisador associado do Nipe/Unicamp e atualmente pesquisador visitante na Irena (International Renewable Energy Agency)

Fonte: Valor Econômico

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