23 de julho de 2018

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Países emergentes devem sofrer mais com os impactos das mudanças climáticas

 Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia (IEA, sigla em inglês), acredita que países emergentes, como o Brasil, e demais nações devam investir em eficiência energética para evitar um desastre ainda maior

Os impactos causados pelas emissões de gases de efeito estufa no setor energético são cada vez mais evidentes e apontam para uma crise ambiental em escala planetária sem precedentes. Contudo, estima-se que o provável esgotamento das reservas mundiais de combustíveis fósseis permita que as energias renováveis ​​ganhem cada vez mais espaço no cenário mundial.

Diante disso, autoridades do mundo todo se reuniram na Alemanha, na 4ª edição do Berlin Energy Transition Dialogue, de 17 a 18/04, para debater as medidas necessárias para evitar os impactos mais severos das mudanças climáticas e atender as metas do Acordo Climático de Paris.

A solução é o real comprometimento das nações em investimento em tecnologias de baixo carbono, energias renováveis e eficiência energética. Em entrevista exclusiva ao Último Instante, o diretor executivo da Agência Internacional de Energia (IEA, sigla em inglês), Fatih Birol, falou do Brasil no cenário internacional de energias renováveis, da responsabilidade em ajudar a limitar a elevação da temperatura global e quais são os desafios que o mundo tem pela frente nessa jornada.

“O Brasil tem sido líder na produção biocombustíveis e isso inspira muitos países em diferentes partes do mundo como na Ásia ou na África”, ressaltou Birol.

Nomeado pela revista Forbes como uma das pessoas mais influentes na cena de energia do mundo e reconhecido pelo Financial Times como personalidade energética do ano em 2017, o executivo acredita que a matriz energética mundial é a grande responsável pelos impactos mais severos das alterações no clima e os efeitos serão sentidos com mais intensidade nos mercados emergentes, como o Brasil.

“Além das mudanças climáticas, a energia é responsável pela poluição do ar em muitos lugares, especialmente em países emergentes”.

Neste contexto, a mudança para uma matriz energética mais limpa representa um dos grandes desafios mundiais deste século. Confira os principais trechos da entrevista:

Como o senhor avalia a política energética brasileira?

O Brasil fez história na busca por novas tecnologias que substituem fontes de energia antigas e isso gerou uma grande mudança de paradigma. O país, que há muitos anos era um grande importador de petróleo, está se tornando um grande exportador. Isso aconteceu de duas maneiras diferentes. Número um: a produção de petróleo do Brasil em offshore [localizada em alto mar] aumentou. E dois, porque o Brasil utiliza muitas fontes renováveis, como biocombustíveis, hidrelétricas, entre outras, para reduzir o consumo interno de petróleo.

O Brasil é referência em energias renováveis. É líder em hidroeletricidade, mas desperdiça o favorável potencial solar disponível. Como solucionar isso?

Todos os países precisam ter um mix de energias renováveis. O Brasil é referência em hidrelétricas, biocombustíveis, mas o incremento de tecnologias como eólica e solar farão um perfeito sentido econômico no contexto energético brasileiro.

As mudanças climáticas já são sentidas em todo o mundo. Onde isso será mais evidente?

Além das mudanças climáticas, a energia é responsável pela poluição do ar em muitos lugares, especialmente em países emergentes. Esta é uma razão para milhões de mortes em países em desenvolvimento. Sabemos que hoje bilhões de pessoas não têm acesso à eletricidade em diferentes partes do mundo, especialmente na África e partes da Ásia.

E as economias emergentes estão fazendo o seu papel para evitar os efeitos mais trágicos das mudanças climáticas?

O Brasil tem sido o líder na produção/consumo de biocombustíveis e isso inspira muitos países em diferentes partes do mundo como na Ásia ou na África. Estamos muito felizes em ter o Brasil como membro da Agência Internacional de Energia (IEA) e trabalhamos em estreita colaboração com o governo. Estou impressionado com o que a China está fazendo em renováveis. O crescimento da capacidade de energia renovável na China nos próximos 20 anos deve ser maior do que na Europa, nos EUA e no Japão juntos.

Mas o uso de energias renováveis vem crescendo de maneira significativa a fim de frear as mudanças climáticas?

Felizmente as demandas globais de energia no ano passado aumentaram duas vezes mais do que no ano anterior. Isso foi impulsionado por um crescimento econômico global muito bom. Vemos também que, dois campos floresceram: energias renováveis, solar e eólica, mas ao mesmo tempo o consumo de gás natural também cresceu. O gás natural teve ano de ouro nos últimos dez anos, principalmente como resultado do uso crescente na Ásia. Por outro lado, o uso de carvão, após dois anos de declínio, começou a aumentar em 2017, principalmente no setor de energia. Olhando para este cenário, temos uma vitória e um desafio. Quando olhamos para a imagem da energia hoje, vemos, por um lado, um grande crescimento econômico, interconexão e eletrificação em todo o mundo, mas ao mesmo tempo dois terços das emissões que causam as mudanças climáticas.

O mundo está preparado para a transição de uma matriz energética descentralizada e mais limpa?

Acreditamos que a transição de energia limpa precisa contar com energias renováveis, ​​de eficiência energética e outras tecnologias limpas. As tecnologias e políticas de eficiência energética reduzem as emissões de CO2, reduzem a poluição do ar, trazem benefícios econômicos e segurança energética. Para atingir nossas metas climáticas, precisamos gerar trilhões de dólares em investimentos em eficiência energética. Carros, edifícios, motores nas indústrias, tudo girando de forma eficiente e assim por diante. Esse processo exige dinheiro adicional em relação às instalações convencionais. Se você colocar um dólar a mais para tornar o consumo de energia mais eficiente, você recebe de volta três dólares ao longo da vida útil deste carro, deste prédio, desta lâmpada.

Por que isso não funciona?

Pelo seguinte motivo: você põe um dólar hoje e obtém três dólares em vários anos. Cinco anos, seis anos. Esse é exatamente o papel dos governos. Hoje, por exemplo, dois de cada três prédios construídos no mundo não têm critérios de construção, estão sendo construídos agora e esses prédios estarão conosco por várias décadas.

E o que fazer diante disso?

Utilizar todos os meios, todas as tecnologias que possam nos ajudar a alcançar os objetivos climáticos. Em termos de emissões de dióxido de carbono, ano a ano as emissões globais de CO2 aumentaram, exceto em 2009, quando tivemos a crise financeira. Somente políticas de eficiência podem estabilizar nossas emissões de CO2. Apenas eficiência, esqueça todas as outras coisas.

Fonte: Último Instante

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