17 de junho de 2018

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“Maioria nos EUA está comprometida com clima”

Após ascensão de Trump, governador da Califórnia, Jerry Brown, surgiu como um dos líderes em ações contra mudanças climáticas. Em entrevista à DW, ele fala dos desafios de levar causa adiante.Logo depois de Donald Trump anunciar a retirada americana do Acordo de Paris, o governador da Califórnia, Jerry Brown, surgiu como um dos líderes em ações contra as mudanças climáticas.

Em julho de 2017, ele e o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, lançaram a iniciativa America’s Pledge (compromisso americano) para que cidades, estados e empresas atinjam o objetivo acordado na capital francesa de manter o aquecimento global abaixo da margem de 2ºC.

Em entrevista à DW durante a 23ª Conferência do Clima (COP23), em Bonn, na Alemanha, Brown explica algumas das ações que a Califórnia tem feito e diz que o estado pretende reduzir gradualmente a produção de petróleo.

“Há uma grande parte dos EUA – muito além de uma maioria – que está comprometida com uma ação climática séria, porque nós sabemos que o aquecimento global é uma ameaça existencial”, disse.

DW: Quais são os principais pontos do America’s Pledge?

Jerry Brown: Antes de mais nada, é dizer ao resto do mundo que os EUA estão dentro do Acordo de Paris. Nós temos que limitar o aumento da temperatura ao teto de 2ºC, e vamos fazer isso não com o governo federal, porque ele está de férias em relação ao respeito às mudanças climáticas.

Mas os estados de Califórnia e Nova York estão dentro – como também de Washington, Óregon, Virgínia e Nova Jersey. E nós temos centenas de cidades, empresas e universidades. Nós representamos quase metade dos EUA.

Há uma grande parte dos EUA – muito além de uma maioria – que está comprometida com uma ação climática séria, porque nós sabemos que o aquecimento global é uma ameaça existencial. Se nós não alcançarmos isso imediatamente com passos decisivos, todos nós sofreremos, e todos os problemas que temos agora – de imigração a eventos climáticos extremos, e desigualdades – vão piorar. O America’s Pledge está preenchendo uma lacuna deixada pela declaração de Donald Trump de que ele estava retirando os EUA do Acordo de Paris.

Você acredita que políticas governamentais a nível local e estadual podem compensar a diferença?

Não, elas não conseguem compensar a diferença. Mas, em vez de não fazer nada, nós estamos fazendo algo – pendente de um novo presidente ou pendente de uma experiência de conversão por parte de Donald Trump, porque sua declaração de que mudança climática é uma farsa criada pelo governo chinês é muito absurda. É como um conto de fadas, é difícil acreditar que Trump realmente acredite nisso. Talvez ele mude de ideia quando outras pressões surgirem.

O estado da Califórnia já está trabalhando nas reduções de emissões, e está fazendo progresso em setores como energia e mobilidade. Como está sendo planejada a descarbonização?

Nosso grande problema são os veículos: caminhões e carros, que perfazem mais de 40% dos nossos gases de efeito estufa. E, por isso, nós desejamos veículos de emissão zero. Nós queremos que montadoras alemãs percebam que desejamos veículos de emissão zero – nós não queremos esses veículos antigos a diesel. Nós desejamos o “novo” – é o que China e Califórnia querem. E, juntos, nós somos o maior mercado.

No evento America’s Pledge, manifestantes disseram que o petróleo produzido na Califórnia está entre os mais sujos do mundo, e eles acusam o estado de ter políticas favoráveis ao petróleo. Existe o planejamento de eliminar gradualmente a produção de petróleo na Califórnia?

Sim, parte do petróleo – mas não todo ele – é bastante sujo. E, sim, nós seremos capazes de reduzir a produção gradualmente. Mas seria um pouco hipócrita dizer que, na Califórnia, onde nós temos controles ambientais rigorosos sobre a exploração de petróleo, a produção será encerrada e levada para outros países onde há pessoas muito mais pobres, com poluição muito pior e regras ambientais mais frouxas.

Nós temos ouvido esse argumento da Noruega – país produtor de petróleo que tem uma política climática muito positiva. Mas você não acha que isso vai então comprometer a reputação da Califórnia como um líder do clima?

Bem, se parássemos os 32 milhões de carros e disserem que você não pode usar petróleo, toda a economia entraria em colapso. Você teria uma revolução, haveria tiroteio nas ruas. Não se pode fazer isso, ninguém faria isso. Então, o que você está dizendo é: paralise a energia que alimenta todos esses carros, mas não pare os carros. E isso não é coerente. Agora, sim, nós vamos reduzir gradualmente o consumo de petróleo, mas nós temos um plano: um teto, um limite para as emissões de gases de efeito estufa.

Essa é a chave: reduzir o dióxido de carbono e outras emissões de gases de efeito estufa. E nós estamos fazendo isso. Nós diminuímos 5% neste ano, e temos um plano de reduzir 40% das emissões em comparação a 1990 até 2030 – um esforço muito heroico. E não é só uma coisa, são várias: [reduzir as emissões de gases de efeito estufa] requer energia renovável, prédios e aparelhos eficientes, um sistema de mercado de carbono e um combustível-padrão com baixo teor de carbono. É preciso fazer muitas coisas.

Esta é uma indústria muito enraizada, e nós precisamos de uma resposta muito sofisticada para reduzi-la. Eu entendo o que pessoas estão dizendo, mas isso é parte de um quadro muito mais amplo. E gestos não são úteis – nós precisamos de estratégias e ações.

A Califórnia tem um status legal especial nos EUA para poder estabelecer seus próprios regulamentos em áreas como poluição do ar – mas isso pode ser contestado pelo governo federal. Você acredita que isso acontecerá e, em caso afirmativo, qual poderia ser o resultado?

Bem, já fomos contestados antes: sob o governo Bush, as regras de emissão da Califórnia foram contestadas, e nós apenas superamos essa disputa com a eleição de Obama. Porém, no governo Obama, as regras da Califórnia entraram em vigor. Esse é um processo baseado em evidências – e Trump não pode simplesmente mudar uma regra. Ele tem que passar por um processo baseado em evidências. E os tribunais independentes assegurarão que esse processo seja honesto e tenha integridade. Eu acho que ele já terá ido muito antes que nossas políticas sejam modificadas de alguma forma.

Como você vê o futuro do governo federal dos EUA em relação ao Acordo de Paris?

Eu acredito que o governo federal não está fazendo nenhum progresso. Eles se tornaram como [o programa de humor da televisão americana] Saturday Night Live, ou um programa de comédia. Eles estão levando uma empresa de carvão para ensinar aos europeus como limpar o meio ambiente. É quase um “duplifalar” [como no livro 1984, de George Orwell]. Então, ninguém vai levar isso a sério. Mas a bolha dos radicais extremos que apoia Trump adora. É como dar carne vermelha para eles: eles mastigam e se sentem bem, mas não representam mais do que 35% a 40%.

E quanto ao argumento que mudar para energia renovável vai custar muitos empregos?

Esta é uma das histórias bobas que nós chamamos de “trumpismo”. A verdade da questão é que a Califórnia – com sua forte energia renovável e com seu conjunto de políticas muito profundas de redução de gases de efeito estufa – tem uma economia que cresce mais rápido do que a média nacional. É uma prova muito boa de que energia verde, eólica, solar, nova rede elétrica, armazenamento de energia, carros elétricos, veículos a hidrogênio – tudo isso cria novos empregos, os empregos do futuro.

O que se pode fazer? Qual é a sua mensagem?

As pessoas podem votar em candidatos que levam as mudanças climáticas a sério. Em segundo lugar, eles podem mudar seu próprio comportamento, seja o carro que eles dirigem, ou com que frequências elas caminham, as refeições, a maneira como eles cozinham, as tecnologias que eles compram, até mesmo algo simples como as lâmpadas. Todos nós podemos fazer a nossa parte – mas, individualmente, não será suficiente. Nós precisamos de liderança coletiva por parte dos governos em todos os lugares para realmente descarbonizar o mundo. E é nisso que eu tenho me empenhado.

Fonte: Deutsche Welle

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